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POEMAS ARGENTINOS

Enviado em O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em julho 7, 2009
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Nem só vive a literatura argentina, e mais precisamente a poesia argentina, de Jorge Luis Borges ou Julio Cortázar. Nossos “hermanos” têm uma forte formação literária e sua poesia é envolvente e cativante. Vamos agora dedicar um pequeno espaço (mais adiante, quem sabe, haverá outros) à poesia argentina. E assim começaremos com o poeta Juan Gelman.

Gelman é considerado não somente um dos grandes poetas argentinos, mas também um dos principais nomes vivos da poesia de língua espanhola. A vida do poeta foi marcada por momentos trágicos vividos na época da ditadura militar nos sangrentos anos 70, quando tanto seu filho quanto sua nora foram sequestrados. Somente em 1989 Gelman pode encontrar os restos mortais de seu filho (os restos mortais de sua nora ainda não foram localizados), bem como pode conhecer sua neta (nascida no cárcere) quando esta já tinha mais de 20 anos de idade. O poema que transcrevemos abaixo (parte do livro Isso) foi escrito no período em que o poeta se encontrava exilado (1983/84), no qual podemos sentir, mesmo que de longe, a angústia e a dor que vivenciava o autor então. Com vocês, Gelman, um poeta várias vezes premiado com inúmeros prêmios de relevo internacional, tais como “Prémio Ibero-Americano de Poesia Pablo Neruda”, “Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana” e o “Prémio Miguel de Cervantes 2007″, entre outros.

CHUVA

hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra/
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta se entra em muitos lugares/
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/nem na alma/
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/que chove muito/
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e somente a alma sabe onde os dois se encontram/
e quando/e como/
mas o que pode a alma explicar?/
por isso meu vizinho tem tormentas na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem
e morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/
à chuva/
ao meu coração desterrado/

(Juan Gelman)

Outra poeta de relevo é Alejandra Pizardik, filha de imigrantes russos, nascida em Buenos Aires em 1936. Poeta notívaga, tem a noite como seu tema central e seu pano de fundo poético, assim como a solidão. Depressiva, suicidou-se em ainda jovem aos 36 anos de idade. Julio Cortázar dedica-lhe um belo e longo poema que sugiro o leitor conhecê-lo (acesse: ttp://www.geocities.com/juliocortazar_arg/alejandra.htm). Vamos ler, pois, Alejandra:

____________________

A JAULA

Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.

( Alejandra Pizarnik)

____________________

Outros poetas:

RARO UNIVERSO ONDE
um poema reescreve em
seu homem
apenas uma letra
antes de morrer

( Jorge Ariel Madrazo)

___________________

EFEITO DAS TARDES

É mentira que andas caminhando pelo mundo

porque depois de haver-te bebido

em grandes tragos

te comi em pedacinhos

O que resta de ti movendo-se nas ruas

em realidade é uma sombra

tão somente um holograma.

(Horacio Salas)

___________________________________________________________

Jorge Luis Borges e Julio Cortazar, perdoem-me, mas fica pra outro futuro e breve post.

Vejam (leiam) mais em: http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/argentina/anrgentina.html

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