HumanasBlog


A POESIA DE MARIO BENEDETTI

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em agosto 8, 2009
Tags:

Antes de falarmos um pouco sobre o poeta Mario Benedetti, iniciemos com este belo exemplar da mais pura poesia, singela e profunda, porém sem barroquismos ou eruditismo exicibicionista. Assim, antes do poeta, seu poema:

AMOR DE TARDE


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Mario Benedetti, poeta e escritor uruguaio, recém falecido em 17/05/2009, foi uma das mais expressivas e importantes vozes da literatura uruguaia e latino-americana. O conjunto de sua obra é amplo e denso, e vai desde a poesia, o conto e o romance, passando pelo ensaio e até por roteiros de cinema. Foram dezenas de livros publicados, entre eles “Poemas de Oficina”, “Esta Manhã e Outros Contos” e “Gracias Por el Fuego”.

Como bem diz José Saramago, Mario Benedetti foi um poeta que “soube fazer-nos viver os nossos momentos mais íntimos e nossas raivas menos ocultas”, afinal é através da poesia que podemos melhor adentrar as interioridades da alma humana, a nossa alma humana. E Mario Benedettti é como uma espécie de guia a nos guiar na imensidão abissal das profundezas do ser e do seu existir. A sutileza com que o poeta lida e maneja com as palavras e o criar atmosférico de suas imagens faz dele um poeta de referência para todos aqueles que apreciam não somente a literatura como um todo, mas principalmente para todos aqueles que se interessam pela subjetividade dos mínimos gestos e de suas ausências. Com vocês outros poemas de Benedetti e a leveza de seus versos que, embora nos invadam suaves à alma nos oferecem e nos tocam lá dentro naquilo que convencionamos chamar de “angústia existencial”.

ROSTO DE TI

Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.

Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor.

Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti.

Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição

Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti.

Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada.

As paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada.

Já meu rosto de ti
fecha os olhos.

E é uma solidão
tão desolada.

ONTEM

Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.

Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.

Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza

Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.

About these ads

2 Respostas to 'A POESIA DE MARIO BENEDETTI'

Subscribe to comments with RSS ou TrackBack to 'A POESIA DE MARIO BENEDETTI'.

  1. Flávia Emília said,

    O que é realmente o amor ?…Seria a percepção do existir ? E existir dói ? Este sentimento cura, ou precisa ser curado ? Na atribuição de Dan-
    te, esta força move o ” Sol e as outras estrelas “.
    O amor é apenas uma palavra ? Se for, é a mais cândida, imaculada e in-
    sana…Pronunciada da boca dos poetas…” Há sempre alguma loucura no
    amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura “. Friedrich Nietzche

  2. Paula Marina said,

    Sentimos falta não do que passou , mas do que ainda planejávamos viver com alguém e não conseguimos concretizar. Acredito que isso seja a saudade de um amor…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: