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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em agosto 9, 2009
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PEQUENA TRAGÉDIA DIURNA

 

 

Acordo com a rápida sensação de um sonho inacabado. Meu corpo ainda dolente e dolorido conspira preguiçosamente entre fronhas e lençóis desarrumados. Recordo-me ainda que, oniricamente, momentos antes, brincava livre no quintal da casa dos meus pais esquecido de que sou adulto e que tanto minha infância como aquela casa já não existem mais.

Levantar sempre me foi difícil, principalmente às segundas-feiras quando me encontro ressacado do tédio dos domingos. No espelho do banheiro observo um fio de cabelo branco brotar como uma flor em meio ao nada. Tenho de me apressar, pois a pressa me evita pensar e perceber meu corpo cada vez mais impregnado de minutos (agora sei de onde vem esse cheiro forte de maçãs podres). Droga! Minha pasta de dentes acabou e tenho que usar a dela, que me deixa com um gosto estranho na boca.

Da porta a vejo dormindo e envolta em seus sonhos onde, possivelmente, não estou. Deixo-lhe um beijo tosco (ela se vira indiferente a minha angústia matinal) e um bilhete lembrando-lhe para compra minha pasta de dentes. Depois, sacio meu incipiente apetite entre ovo, bolachas, café e manchetes de jornal. Logo cedo já tomo conhecimento que o preço da vida aumentou e as coisas não estão fáceis no Líbano. Ora bolas, que se dane o Líbano, afinal ele está tão distante – é apenas uma seqüência de imagens na TV – e a dor do vizinho não é maior que a minha.

Parto, sem sequer saber se volto, levando comigo lembranças e desejos, e aquele mesmo vazio trespassado nas costelas. Carrego meus minutos e os inchaços de minhas tantas perdas, e na boca este sabor diverso que não é o meu. Agora estou nas ruas representando pros outros que sou feliz…

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em julho 25, 2009
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MARIA NÃO DORME MAIS AQUI


“Já vou. Até manhã”, despediu-se fechando a porta a empregada a quem denominava, por vergonha ou desprezo, de “minha secretária”.

Como que em torpor, sequer lhe dirigiu um resmungo de volta, talvez nem notasse que somente sobrara ela naquela casa carpintada de silêncios. Como antes estava, permaneceu debruçada sobre si mesma já havia bom tempo. Dispersa de atenções ou olhares, mal percebia o enegrecimento que aumentava à medida em que a tarde se esvaia, acariciando-lhe a silhueta magra com a sutileza de um reprimido amante que se vai sem dizer adeus, levando consigo impronunciáveis paixões inexprimíveis. Jamais este dia moribundo retornaria aos seus parcos afazeres domésticos, muito embora o tédio fosse seu único e último resquício de imortalidade. Quando amanhã o amanhã vier, com ele novamente Maria, retirar-se-á de seus internos abismos para repetir movimentos e atos por entre portas e vãos, como se a existência toda fosse uma gigantesca casa por onde perambulam as horas – estas ilusórias marcações de nossas repentinas passagens. Não é ela, pois, quem cresce, é a casa que diminui, a tal ponto e maneira que chegará o instante em que não haverá mais lugar a se habitar ou se guardar. Findar é se desabrigar dos tetos e das certezas.

Gostava de invernos. Abraçava, com a quentura maternal de uma mãe que nunca fora, o frio que lhe era agora companhia. Lá fora as pessoas corriam irrequietas, batendo umas nas outras, evitando a chuva intermitente e as poças d’água escurecidas de barros e asfalto; de sua janela por sobre a cidade pareciam formigas agitadas flutuando desesperadas pelas calçadas em busca de inúteis salvações. Os homens externos navegam sem leme, cogitava lembrando-se das remotas brincadeiras infantis, quando afogava formigueiros com suas coloridas bisnagas de carnaval (o perigo às formigas são as crianças solitárias e suas impiedosas vinganças lúdicas). Quantas culpas ainda lhe restariam a assombrar o sono, despertando madrugadas? O mundo lhe era então também uma imensa bola molhada que começava a partir da janela de sua sala – se acaso estirasse o braço à rua recolheria a mão vazia, banhada de líquidos e ninguéns. Subitamente incomodou-lhe a transitória idéia de ser a última formiga, sobrevivendo aos jogos sádicos de alguma outra criança, bem maior e mais solitária do que ela.

Ocupava-se de distrações e cigarros, enquanto a primeira chuva de inverno umedecia o vidro e a alma. Recolhida que nem um pássaro à tranqüilidade de sua gaiola, observava silente os soluços da casa e a agonia dos insetos morredores. Em outras épocas e estações correria de imediato à televisão ou rádio a invadir-se de sons e barulhos alheios, porém, hoje, em que a noite inteira se encharcava, seu interior era duas vezes e um pouco mais profundo que o tamanho do universo. Em algum lugar que não ali, uma folha caía e declinava do céu para logo ser pisada na indiferença dos passos apressados. Quando já não mais chovesse, e é certo que um dia haveria de se fazer quenturas e claridades, limpariam-se as ruas e levariam seu amassado corpo seco de seiva e a vida continuaria seu ciclo e um galo cantaria.

A iminente coriza lhe escorria do nariz à boca, anunciando os inevitáveis resfriados invernais. Sempre sensível às mudanças e oscilações, aguardava a gripe e seus remédios com a mesma complascência de quando esperava o mar lhe devolver a tiara perdida nos mergulhos afoitos de sua meninice, a mesma tiara que fora o penúltimo presente de seu pai, dado antes dele partir para nunca mais voltar, como aquela tarde cinza em que estava distraída de si à saída de Maria, (atrás dos morros dos horizontes do quarto da empregada sepultam-se as tardes em avermelhados cemitérios de por-de-sol). Anos depois recebera dele um cartão postal, última lembrança e notícia de seu paradeiro e de seu rupturo amor – crescera assim, na casa em que encolhia, farta dos homens e de seus prematuros abortos afetivos. De cedo, jurada não sofrer abandonos, cumpriu por completo sua promessa, cercando-se de móveis e objetos. As coisas, por não sentirem faltas, não buscam outras coisas, elas são fiéis a seus donos, não vão nem morrem jamais, no máximo, somente, se quebram ou se inutilizam.

O quarto da empregada não era amplo nem vasto, mal cabendo guardar todos seus inusados pertences. Os cacarecos e as quinquilharias de décadas amontoavam-se uns sobre os outros, emparelhadas e empacotadas com severa ordem e zelo. Cada pacote e cada reservado canto representava um ano, como se construísse organizadamente uma biografia de objetos, onde a história hibernava, empilhada e datada, anônima, por dentro de antigas caixas de papelão. Do seu passado apenas algo não encontrava guarida nos invisitados arquivos de si: o cartão postal, impecavelmente conservado em envelope de plástico transparente. Precisava dele e da força do ódio que tanto lhe suscitava. De tempos em tempos, perguntava-se se seu fugitivo pai lhe havia dado irmãos, e se assim o tivesse feito quem os seriam? O homem da padaria? A lojista do shopping? O motorista do taxi? O caixa do banco? A atendente do consultório? A mulher da casa ao lado? O transeunte que corre protegendo-se da chuva?… Qualquer um e nenhum poderia ser. As relações humanas lhe eram potencialmente fraternas e conhecer tinha sempre um leve sabor de incesto.

Inúmeros são seus irmãos, indefinidos rostos e ofícios, a eles não legaria seu espólio de caixas. Sem herdeiros ou descendentes, restaria, após, somente Maria e os comerciantes dos mercados de sucata. Breve mais um ano se encerraria, mais uma caixa se fecharia. Sua idade tem o peso dos objetos e o tamanho dos espaços que ocupam, desalojando Maria e suas pequenas mudas de roupa. Nas raras vezes em que lhe dirigia o olhar, sem a exigência do cumprimento dos mandos, não entendia como aquela triste mulher, cujas mãos calejadas de vida e a face camuflada de rugas, mais velha e mais sofrida do que ela, pudesse arrastar consigo miúda trouxa de tão poucas propriedades. Era como se a juventude fosse uma questão de menos quantidade. Por isso achava que deixaria a Maria o quarto que a esta nunca pertencera e o fantasma de si mesma, assombrando aranhas e baratas, a principiar das coisas que sobreviveram.

Uma noite pode ser longa quando dela nada se espera, porém a interminabilidade do momento tem o instante de seu término. Os iniciantes raios de sol despontam como lâminas rasgantes por entre nuvens esvaziadas de chuva. O mormaço que se prenuncia logo exalará o cheiro nauseante dos esgotos entupidos e as águas empoçadas, ao contrário das folhas, retornarão aos céus levando a escuridão que se foi, (quando outra vez se fizer tempestades, choverão noites sobre a cidade). As pálpebras areiam-se de sono. Não é hora de dormir, pensa, e sim de acordar. O ruído da maçaneta da porta que se abre a faz lembrar, e pede como quem ordena antes que se dê bom dia: “Maria me vê um chá de alho e o xarope que está em cima da geladeira”.

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em julho 18, 2009
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HOLLYWOOD DREAMS


Tão logo as luzes se apagaram se reencostou relaxadamente na poltrona acariciando-lhe os braços com a ternura de um recente enamorado. Mergulhado na negritude inicial aconchegou-se à escuridão como quem se recolhe a um colo feminino e sem cheiro, permitido-se oscilar impreciso por entre indefinidas sombras noturnas. Embora fosse tarde lá fora, deliciava-o a sensação embriagante e terna das noites artificiais, na ausência dos ruídos mundanos. Vingava-se assim das tardes e de suas solidões, assassinando-as com a obscuridade das trevas improvisadas.

Seguro no abraço da cadeira, postou-se frente à imensa tela branca iluminada como se aguardasse a chegada de uma mulher amada. Os segundos que antecedem à ilusão eram vazios e lentos, porém necessários ao ritual da passagem que se sucedia. Os objetos, as coisas e as pessoas excluíam-se do redor, restando apenas a visão retangular dos sonhos acordados. Não havia mais ninguém, somente ele e os rostos próximos dos outros distantes. Despido do social, vestia-se de novas fantasias onde o pensamento se diluía em quimeras e desejos. Com que sonha o homem neste instante senão consigo próprio? – ele é feito de imagens e a tela é seu espelho e sua extensão. Flutuava para além de si, redescobrindo antigos afetos hibernantes.

Para ele, pouco importava o filme ou a trama. O cinema era seu sepulcro e a sua sobrevivência. Detestava a claridade denunciante das filas e das salas de espera, onde casais trocavam carícias permitidas, ansiosos para se embrenharem no negrume anônimo das mãos e das coxas. A felicidade alheia inquietava-lhe, da qual se defendia desviando-lhe os olhos. Por isto levava sempre consigo um livro qualquer que lhe auxiliasse a distrair a atenção e a dor. Os livros são melhores que gente, costumava dizer, pois quando nos incomoda basta fechá-los, enquanto as pessoas cobram e sugam.

Nunca lhe fora difícil estar desacompanhado. Nascido filho único, reinara por inteiro em um quarto somente seu, cujos brinquedos amargavam a falta de outros toques. Houve momentos, é verdade, e não foram poucos, que aspirava irmãos com quem compartilhar o medo das madrugadas, porém, como Deus era surdo as suas preces silenciosas, inventara amigos imaginários a quem, assim como os livros, podia mudá-los tão logo enjoasse. Adormecia quase sempre cercado de cavalheiros, guerreiros e soldados.

Odiava a visita dos primos e dos vizinhos. Magro, frágil e tímido, era constantemente subjugado nas brincadeiras de força, enquanto os pais conversavam na varanda crentes de sua felicidade. Inferiorizado e humilhado buscava a supremacia nos estudos, o que lhe rendia elogios e medalhas. Não sabiam os adultos que os livros e os óculos eram sua armadura e seu escudo. Cultivava assim a inteligência, desertificando os sentimentos.

A vida começa na tela. Escorrendo o corpo pela cadeira, procura a melhor posição, inclinando a cabeça como quem repousa em travesseiros e seios. Sumido da tarde, dilui-se em cores múltiplas. Desaparecido do dia, confunde-se no piscar das fotografias. Não importa o filme ou a trama, o que importa é que o filme jamais acabe e lhe devolva a realidade tantas vezes sonegada.

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em julho 6, 2009
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BOA NOITE, MAMÃE

 

 

“Boa noite, durma bem”. Era com essas brandas breves palavras que sua mãe encerrava o dia, como em todos os dias, apagando a luz e encostando com leveza a porta do quarto. O menino em sua perplexa mudez não lhe dirigia de volta respostas, pois ela não fazia perguntas, apenas assinalava com enérgica determinação o exato momento em que fechava os espaços, trancafiando-o isolado em sua costumeira solidão noturna. Era uma frase terrível aquela que sempre antecedia anunciante o horror que logo se seguia ao surgimento das horas sem brilho, tão sombrias e tenebrosas quanto a métrica parte que lhe cabia na casa adormecida dos rumores diurnos. Prometera-se, à boca calada, que quando filho tivesse jamais a ele a pronunciaria, na ânsia dos pais em cedo amadurecerem os filhos, muito embora, quando estes chegarem ao tempo de visitarem outros leitos, persistisse – em seus agora chamados velhos – o indocicado sabor das recordações encobridoras das vacâncias dos quartos ao lado. O gosto das reminiscências é o vestígio ainda não apagado das coisas passageiras, enquanto a nossa natureza pelas permanências aprimora a fatalidade dos desgostos, afinal o que em nós continua é somente o que foi instituído pelos caprichos da memória. A ausência é a essência das lembranças.

Porém, à época em que o menino ainda idealizava filhos vindouros, como quem aguarda em tocaia sonhos aos quais entregasse por inteiro seu espírito e suas inquietudes aos embalos incoerentes dos devaneios substitutos da vigília, soterrava o desejo pela ida à cama dos pais embaixo de toneladas de medo. Logo este afeto primitivo, com o qual viemos à vida, que em seu impensado peso nos fixa ao chão do instante como as profundas raízes das estátuas públicas de mármore. Por mais que a realidade e seus breus lhe assustassem o peito onde arfava palpitante o ímpeto de se apaziguar em meio aos seus, era maior o temor de se aproximar da cama de casal que a ele era imensa e sólida, ornamentada em robusta madeira maciça de lei, lugar que, com certeza, pensava, suportaria abrigar todas as crianças do mundo e o peso de seus sustos. Assim, por receio que lhe impedissem o assentamento junto aos corpos alheios (de expulsão já bastava o útero), trocava as hesitações e as rejeições pré-maturas pelas assombrações habitantes do quarto escuro. O assobio das brisas invernais e o esvoaçar sobressaltante das cortinas bailantes frente a entreabertura das janelas, acenavam fantasmas de sombras e gemidos, que nem o vedar das pálpebras evitaria – o negrume sombrio do quarto muitas vezes era preferível à escuridão sem cor dos olhos fechados. Na rua, cachorros uivavam sentimentos inumanos enquanto o menino em sua cama escutava ruídos de menino.

Longos são os anos que separam o menino do adulto. Não mais existem os pavores infantis, abandonados naquele quarto onde hoje possivelmente dorme algum outro menino. Sequer restou a cama de casal proibida e seus residentes. Por que haveria ele de temer agora ilusórios espectros noturnais se os fantasmas de suas perdas perambulam até mesmo à luz do sol? O menino formado homem sabe que a substância do medo é perene e dela é feita a solidão, o que muda é a sua aparência e a sua superficial presença. Talvez por isso os mortos virem assombrações: quando pequenos, tememos a invisibilidade das trevas e a cegueira da escuridade, esvanecidos reaparecemos indefinidos para sermos vistos, pois morrer não é perder vida, é desaparecer, e o exercício da eternidade bem pode ser o de espantar o sono das crianças, nesses tempos desérticos em que a saudade ocupa o vazio deixado no rastro da sonoridade impronunciável de um simples breve “boa noite”.

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em junho 29, 2009
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Só ele dela sabe o cheiro. Os outros conhecem
apenas seu perfume e a essência das espumas e dos sais de banho que lhe aromatizam a pele alva, límpida e branca, como branca é a neve. Ninguém, além de si, sente-lhe a fragrância das flores que seu corpo ainda jovem exala: cheiro verde das plantas e de suas imobilizadas sexualidades vegetais. Fosse ele de menos idade, bem menos idade, haveria de pronunciar seu nome no estalar da língua dos apaixonados, ao invés da boca sempre fechada, hermeticmente aprisionando sentimentos impronunciáveis. No adiamento constante das expressões, olha-a no diário dos seus dias com entristecidos olhos de monólogos.

De onde senta, por detrás da mesa e do trabalho, observa-a passar evaporadamente como uma noite de domingo. Adora-lhe o deslizar de sua mão em seus cabelos compridos como se fosse dele o toque e a carícia movimentando desejos. Quisera ser as roupas que a vestem só para juntar-se ao corpo dela e abraçar-lhe com a suave fúria dos que acasalam. Não importa se é linda ou bela, já que a possui tão logo ela passa, afinal aquela iniciante mulher, que em breve também envelhecerá, ocupa-lhe o olfato e a vista na intimidade negada de uma cumplicidade incorrespondida. Pois em todo o tempo em que a presencia passar não foram mais que duas vezes que se falaram. Na primeira, ele tossiu; na segunda, gaguejou – suspiros amorosos do infeliz homem que somente ele ocnhece o amor. Porém, antes assim: não fosse o sonho restaria o tédio a desertificar a alma e o pouco resto de sua memória.

O sonho o puxa para frente ao mesmo tempo em que a memória o retrai para trás. Em meio a fluxos e refluxos é ele alguém de instantes, encarcerado a um presente constantemente transitório, precário de possibilidades. Sua atualidade é o curto espaço espremido pelas virtualidades das lembranças e das expectativas em que vive seu invisível amor. Quando amanhã o atual for ontem (toda atualidade traz em si sua inatualidade e seu fim), carregará dela somente recordações de sonhos irrealizados, pois é ele igualmente, e sempre enquanto ainda existir, ums er faminto de suas tantas e tantas impossibilidades.

Ama-lhe ele em todos os momentos dos seus momentos um incansável e silencioso amor amar de impresenças. As exterioridades inexprimem interiores onde lá, na ruidosa mudez detriorante dos órgãos, conhece unicamente ele o fervilhar consumante dos apaixonantes afetos. No íntimo de si não há qualquer solidão, mas a companhia infinda daquela jovem mulher que não fôra do seu arbítrio desejar e com a qual ocupa-se inteiro completamente, a tal ponto que não há mais sequer lugar para outro sonho que não seja ela. Quem o presencia assim costumeiramente desacompanhado há de confundi-lo com um homem só. Não sabem eles que nas praças, ruas, praias, cinemas, restaurantes e localidades várias, acha-se ela nele, na irreciprocidade egoísta de um sentimento amordaçadamente lacrado. Quem o olha assim costumeiramente só nunca há de saber que ali está alguém que vive acordado para dentro, como se a vida lhe fosse o oposto de fora.

O amor dorme no coração do homem um sono de insônias, somente velado por calados pensamentos que o devoram com tamanha fome e martírio que lhe é a dor muito mais uma companheira. Ah, soubesse ela daquele tanto afeto decerto surpreender-se-ia ao descobrir, por detrás do silêncio de poucas amabilidades e diversos olhares discretos, a chama impagável a queimar o peito anonimamente oculto no desconhecido de um homem, cuja única função era estar ali, naquele obscuro canto de uma vida, amando-a com a limpidez transparente quase visível das coisas invisíveis.

Quem sabe um dia (o que seria de nós acaso não esperássemos dias?) ela o veja enfim em sua singularidade infinda e aceite então suas mais inconfessáveis ardências. Quem sabe um dia, quando a maturidade já lhe encobrir o cheiro adocicado das flores e ele não mais estiver sentado em seu birô de anos, possa ela enxergar no habitual do seu discreto canto o vácuo deixado pela inevitável ausência, e sentir saudades daquele amor que de tão verdadeiro jamais ousou fazer-se notícia. Quem sabe um dia.

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em junho 21, 2009
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ECCO HOMOVer imagem em tamanho grande

 

Amanhecia antes do amanhecer do dia para poder acompanhar tristonho o funeral da noite. Não entendia porque se dormia, pois o sono é o descuido da vida e ela é tão ligeira e veloz que o entorpecer dos sentidos é a usurpação da existência e de seus absurdos. Não necessitava fechar as pálpebras para sonhar, preferindo o desvario da lucidez à inexpressividade preguiçosa da imobilidade. Vigil e desperto, acordava para dentro sem o assombro costumeiro daqueles que fogem das imagens refletidas nos espelhos dos próprios olhos. Se estar vivo não lhe fora uma conquista mas uma herança, a quimera era para si a singular possibilidade de prosseguir continuando.

                                   Sua elegante aparência, propositalmente desleixada, dava-lhe um ar solene de querubim barroco, embora a barba eternamente mal feita e os parcos fios grisalhos sobre a testa calva ligeiramente enrugada denunciassem-lhe os anos. Um homem de meia-idade não devia sair por aí arrastando suas histórias e acumulando outras. Um homem acima dos quarenta – ensinara-me minha mãe – devia ser comedido, responsável, coerente e resumir o espaço de sua vida à casa, ao trabalho, ao carro e aos churrascos de finais de semana. Irritava-me ouvir que a vida só tinha quarenta anos. Após, a gente se congela e vive de conversar passados com os conhecidos, rememorando o quanto era bom à época em que não conversávamos, apenas vivíamos irresponsáveis as histórias que ora falamos. No inventário de uma vida parece restar ao homem de meia-idade as aventuras piscantes dos filmes de televisão e as emoções seguras dos canais por assinatura. A poltrona da sala toma o lugar do risco, das mangas roubadas, dos braços quebrados, da embriaguez festiva dos flertes ingênuos de sábado.

                                   Era diferente aquele homem quase alinhado, com sua barba mal feita e poucos cabelos grisalhos. Trazia-me sempre pedaços de poesia recolhidos dos bolsos das calças amassadas e rascunhados em cotocos de papéis encontrados. Ofertava-me ele fragmentos de versos, alimentando-me como um ancião desocupado nas praças alimenta os pombos. Nunca terminara um poema sequer. Sua poesia, dizia, era livremente interminável. Afirmava ser inútil terminar poemas, eles davam trabalho mais do que um feto e para quê?, perguntava respondendo: para serem devorados em um minuto? Rejeitava lapidar seus versos. Feito um garimpeiro retirava-os do mundo donde brotavam como as cidades brotam dos asfaltos. Por isso sua irrequieta ânsia de papéis e canetas: para não deixar escapar a beleza e a dor do súbito repentinamento.

                                   Aquele homem grávido de poesias socava-me cotidianamente, revertendo minhas pacatas interioridades. Com ele aprendi que um óculos não é um óculos, é um sentimento. Não era ele de casas, mas de ruas. Nas poucas vezes em que adormecia era debaixo das árvores, anestesiado de bebida e de sol. Até os pássaros silenciavam respeitosos em homenagem àquele pequeno homem magro deitado, adubando a terra muito antes do que devia. Do seu sono raro nasciam as árvores e os sonhos coloridos dos homens incrédulos. Nunca fora de casamentos, embora houvesse tido mulheres e diversas o possuíssem – dizia que as âncoras não foram feitas para segurar os barcos, mas para prendê-los. Aquele homem de ninguém era assim vagante e vago. Meio vesgo, surpreendia-se ao se olhar toda vez que se via.

                                   Agora que sou também homem maduro, sinto saudades do boêmio poeta de minha juventude. Nunca mais o revi nas horas undécimas das madrugadas, talvez porque eu já não suporte crepúsculos e me deixe quieto na angústia doméstica das televisões. Frente ao espelho no banheiro pareço reencontrá-lo cheio de versos sorrindo para mim, ao tempo em que passa a mão pelos ralos cabelos brancos de sua cabeça que agora é a minha. Hoje, como nunca, quisera o engano de minha mãe.

 Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em junho 17, 2009
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ENQUANTO O OUTONO NÃO VEM, CLARICE

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O calor é de tal forma abrasante e úmido que uma simples brisa, dessas raramente vindas de onde termina o mar, ao invés de abrandar a febre da tarde, enche-me ainda mais de quentura com seu bafo cálido e inodoro de maresia. Fosse eu, por acaso, uma estátua em uma praça não me findaria de ferrugens e sim de derretimentos. Caio-me em gotas a pingar a camisa já encharcada pelos minutos antecedentes – uma tempestade se esvai de mim. Decerto não sou nuvem, mas também me constituo de nebulosidades e líquidos. Interessante observar que, quanto mais me fastio de aquecimentos, mais me ocupo de cigarros; talvez queira me secar por dentro e depois transpirar fumaças. Em minha autópsia não encontrarão alma e sonhos, somente cheiros de nicotina e farelos de cinzas.

Ao início me incomoda a camisa molhada colando-se ao corpo. Logo, rendido a inevitabilidade de certas coisas, acostumo-me tanto a sua pegajosidade que já não diferencio a minha pele das minhas roupas (mais tarde, ao banho, relutarei em me desfazer de mais um pedaço de mim). O suor escorre da testa ao peito como rios a percorrerem seus leitos. De tempos em tempos alguma gota ousada modifica seu destino e rumo, ora umedecendo-me os lábios sedentos d’água, ora repousando em salpicos nas quase transparentes lentes dos meus óculos. Quanto à boca, a língua sente o sal me aumentando a sede; quanto aos óculos, embaço-os na vã tentativa de limpá-los com a manga da camisa tão ensopada quanto eu. As paisagens ao redor ficam assim nevoadas, qualquer um pode ser quem espero, a menos que se aproxime a pertos palmos e com o toque me desfaça dos enganos. Por isso, sou míope. Quando me amendronto das ausências, preencho-as com vultos equivocados das morfologias disformes das minhas limitações (houve épocas em que pensei usar lentes de contato, mas elas não me livrariam dos embaços das lágrimas). Viver de enganos geralmente é melhor do que os reconhecimentos. Não resistiria um segundo a mais, não fosse a possibilidade da ilusão e suas conseqüências em meus contentamentos.

Torra-me o sol sobre mim e o chão que aos meus pés me sustenta. Em meio a ardências, aguardo-lhe após o horário combinado. Há dúvida em mim – o que, sem dúvida, não me é de todo inusitado, afinal sou um ser nublado e de tantas dúvidas que chego até mesmo a duvidar se agora estou aqui -, não sei se me liquefaço pelo calor do dia ou pelo incêndio da espera. O tormento da espera é irmão do da procura.

A cada minuto pesa-me ainda mais a suada camisa e, temendo-me afundar como uma âncora em um mar de mim, percorro as duas esquinas que me separam do resto da cidade. De lá pra cá e de cá pra lá, delimito desinquieto meu espaço no paralisado tempo dos postes e dos cruzamentos. Quantos quilômetros tem um instante de uma vida? Os passageiros da minha restrita calçada me são companhias nos diálogos do silêncio, até o sinal abrir novamente e seguirem seus trajetos sem olharem para trás. Incontáveis as pessoas que por mim passaram, enquanto permaneço na indefinição dos meus aguardos. Quero o consolo das memórias, pois só assim, creio, elas me levam em suas lembranças, lembranças do momento em que me conheceram caminhando ansioso nas imensidões das minhas indecisões. Será quem espero já não também passou na exata hora em que olhava buscante o meu lado esquerdo? Os óculos continuam embaçados, turvando-me a vista e minhas frentes. Eles me são insuficientes. Necessito urgente de microscópios.

O que faço além de derreter lentamente no envelhecimento do dia? Pensar. E pensar é como o suor: pesa. Diminuo meus passos pouco a pouco, já não trago a velocidade de quando cheguei. Se cada pensamento pensado é um pensamento esgotado, o que me sobrará quando não mais tiver sequer um pensamento? Pudesse eu deixar de pensar, deixaria de existir. Contudo, não pensaria em quem espero e nem nas duas esquinas em que me cerco. Por isso, repito, sou míope e penso. Pensando posso esperar e esperando posso sonhar, não fosse este calor danado debaixo de um sol depois do meio-dia.

 

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em junho 4, 2009

Este texto foi originariamente publicado pela Revista Caravelle nr. 75, da Universidade de Toulouse, França, por ocasião de “la célébration officielle des 500 ans du Brésil”.

AO NORTE DA MESA PRÓXIMA

O garçom me serve uma bebida forte à base de aniz, com a qual me vejo invadido de quentura e azul. Imediatamente zonzo pelo sabor do inusitado, abro o livro marcado somente para não perceber que as outras mesas desconhecem minha presença. Sou um estranho entre pessoas estranhas e elas sabem disso. Estou longe de casa. Estou longe de mim. Meu lar é lugar nenhum.
Esta cidade edificada de ruas com nomes e datas que não me dizem nada, arranha-céus, árvores, praças, postes e luzes não foi construída para mim: sou um estrangeiro em suas entranhas e sombras, transitando-a apenas como o minuto que perpassa a minha vida. Os rostos dessa gente não me significam coisa alguma, não me importa suas dores de dentes, amores e desamores, sequer sei dos seus vizinhos. Para eles sou transparente e não existo, unicamente habito esta cadeira neste momento, em um bar que nunca vim.
O que pensa a lua de mim aqui sentado sem amigos ou amantes? Como um surdo aguardo que me chamem o nome, este substantivo próprio tão doce e delicado que só se sente à falta dele no deserto das bocas áridas. Devo ter deixado minha história em um quarto de hotel e agora não sofro mais qualquer nostalgia. Esqueço-me de mim para lembrar das minhas ausências e dos meus prantos. Sobrevivo aos meus mortos e aos meus abandonos, só não quero morrer sem ver meus poemas publicados, pode ser que alguém algum dia me leia e me compreenda além do silêncio em que me sepultei. Minha cabeça lateja em um corpo amolecido de febre e gripe. Tusso secreções e esta imensa noite que carrego no peito.
Quisera-me ser um barco a navegar a imensidão infinita dos oceanos azuis. Minha alma é um mar agitado, perigoso, sem sol e sem sal, em busca de praias onde possa sossegar suas ondas e depositar espumas agonizantes. Quem penso que sou bóia em mim. Receio afogar-me sem história e sem nome, enquanto aqui o redor fervilha em música na urdidura das tramas pélvicas. O calor que me aquece e me esfria não é de febre nem de álcool, é do incêndio desta cidade alheia onde procuro o socorro de uma mão e não encontro. O que se estende até a mim é solidão.
Chamo o garçom novamente, mais uma vez, como forma de falar com alguém. Solicito e ele me atende com outro copo. Logo vai embora. Nada me apraz o olhar, nem mesmo aquela velha prostituta de cabelos mal pintados de ruivo encostada ao canto do escuro, pronta a me saquear bolsos, filhos e afagos. Chego a me apiedar cumplicidamente dela e de sua indisfarçável decadência, pois representa seu papel e ao final adormecerá só em sua cama, assim como eu. Se me desse vontade de escrever versos começaria com a palavra adeus, porém minha única vontade é saber para que estou e para onde vou quando não mais houver esta cadeira, o copo e o garçom a me servir. Quando todos já tiverem se abrigados, restarão meus cacos, as pálpebras insones e este cansaço mais que febril. Tusso secreções reprimidas e esta grande noite que me aprisiona a garganta e me domina o peito.
Adeus minha adorável prostituta. Acaso fosse outrora, talvez teu corpo visitasse. Contudo, não agora. Após, jamais. Quando tiver tua idade também não me recordarei desta ocasião passageira, por isso, à tua face soturna e triste, ofereço tão somente o esquecimento dos meus gestos e da nossa impossibilidade. A minha memória é um cemitério de lembranças e poeiras, são poucos, muito poucos, os fantasmas que me acompanham ao dia. Se em uma outra hora ou data retornar, encontrar-te-ei outra vez plantada no canto do bar assim como hoje: imóvel e muda, esperando despedidas.
Deixa-me ir agora querida prostituta, cujo nome é tão silencioso como o meu. Deixa-me ir, libertando-me do teu encanto misterioso de Medéia, pois almejo os movimentos e as surpresas das ruas. A inércia é a privação da vida e já me bastam tantas perdas enterradas em meu peito entupido. Que assim se escreva em minha lápide: “aqui repousa um homem só e aqueles que morreram antes dele”. Se falecer é desaparecer duas vezes, então desejo morrer depois da minha morte (serei amanhã um morto em alguém?). Tusso secreções, escarro a noite.
Até nunca mais minha inominada prostituta. Agradeço a caridade de teu único olhar sobre mim, deixando-te em troca a ilusão de novos fregueses. Parto, afinal partir é melhor que ficar. Perambulo trôpego e bêbado pelas calçadas, vomitando azuis pelas esquinas. Até a lua agacha-se envergonhada por detrás das nuvens.
Retorno cambaleante ao quarto e às minhas malas onde lá encontro partes de mim. Persigo o sono e só assim ao levantar não saberei se tudo não passou de um sonho ou de um pesadelo do instante em que fui ninguém. A sinusite dói e a coriza me escorre afetos e líquidos. Quero rápido dormir para logo acordar com alguém que não conheço chamando meu nome. Preciso urgentemente voltar a existir. Hoje, é certo, não sonharei com anjos, mas prostitutas.
Tusso secreções e a noite inteira me acoberta de breus.

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 31, 2009
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A SENHORA DE TODAS AS COISAS

   

                                   Agora que todos se foram ficou o silêncio inteiro da casa, rangendo por entre escuros móveis pesados e objetos vários de decoração e recordação. Sentia-se igualmente uma ilha, cercada de pretéritos, lembranças, fantasmas e um acumular incômodo de anos de mais de três quartos de século de uma breve chama ainda por se findar. Quando morrer, sabia com a certeza inabalável daqueles que já enterraram tantos que não será tão longe assim, tudo ao redor de pouca ou nenhuma serventia terá, à exceção da mobília herdada de seus ancestrais e um ou outro pertence como a prataria, o castiçal, os vasos e as louças portuguesas e as molduras antigas onde se acha aprisionado o passado impresso em papéis amarelecidos pelo tempo que retratam o exato instante de um ontem carcomido de distâncias, hoje extinto. O resto, para os outros, são badulaques e quinquilharias de uma velha, do mesmo modo os retratos com seus rostos, poses e sombras a falar de uma época que teima em resistir na última sobrevivente que era ela.  Ninguém, além de si, ainda vivo, conhecerá seus tios, avós e pais. Ninguém também há de reconhecer naquele longínquo vulto de menina magra de olhos assustadiços e laço enorme na cabeça a velha que aqui está: movimentando-se com lerdo cansaço em meio seus tesouros inúteis e migalhas sobrantes de uma vida. As molduras, sim. Talvez tenham valor em lojas de antiguidades, porém os retratos – ah, os retratos! – decerto terão seu fim incinerados ou rasgados, ou terão a rara sorte de serem vendidos a preço barato em alguma quermesse para ornamentar e adornar restaurantes e bares temáticos quaisquer.

                                   Agora que todos se foram era a única zelosa guardiã de sua história e dos seus desaparecidos. No assossegamento da velhice sem pressa espana e varre poeiras e resíduos deixados pelos recentes partidos na sala habitualmente limpa e ajeitada, como se sempre estivesse pronta a receber visitações cada vez mais esparsas. De fato, a higiene do ambiente e o perfumado das coisas gastas mais se assemelhavam a um túmulo bem cuidado, jazigo sem lápide cujo sepulcro era uma homenagem à menina de outrora, preservada e oculta das curiosidades alheias. O mundo, assim, não tinha ciência de que naquele espaço bolorento de passados, apertado de tantos cacarecos e bugigangas, uma velha e uma menina mantinham mudas a derradeira e a mais solitária das batalhas. A velha de então encarava a menina de antes com ares saudosos de melancolia. Já a menina enxergava de lá de trás de onde fica o início dos retratos a anciã em que se tornara: oposto dos sonhos e amores infantis. Se tivessem os retratos sabor, teriam o gosto amargo e azedo das frutas estragadas pela ausência das colheitas.

                                   Agora que todos se foram pode percorrer ela com tranqüila suavidade a planície dos móveis e dos objetos como quem acaricia uma face, um peito ou um dorso. No acarinhar das mãos revisita sem sons sua memória de madeiras, metais e vidros, silenciosamente contida em cada coisa e por cada canto de toda a casa. No amanhã sem ela as coisas voltarão a ser o que sempre e apenas são: coisas. Triste destino este dos objetos de um morto: não significarem mais nada, nenhuma história, nenhuma recordação, nenhuma impressão, nenhum relato. Os pertences de um dono que não mais existe são tão mortos quanto seu próprio dono.

                                   Agora que todos se foram, a noite cada vez mais se separa do dia. A escuridão vem veloz sugando o sol das ruas e as parcas luminâncias da casa (de dentro, a velha senhora parece preferir seus pessoais crepúsculos). Por toda uma década, a última década, nada fora alterado no interior daquela casa. Há muito não adquiria objetos ou peças, muito menos tirara retratos. Nenhum móvel chegara, nenhum móvel saíra. Tudo estava inerte e perene, como se a eternidade terminasse ali. Tudo continuava fielmente no mesmo lugar a espera que ainda haja um alvorecer. E embora já seja bem noite não precisa ela acender lâmpadas ou luzes, pois sabe de cor todos trajetos, passeios e trilhas de seu território. Passo a passo, palmo a palmo, vai se recolhendo a mulher sem perceber, contudo, que no fundo das sombras e dos retratos a menina lhe acena discretamente um adeus, perdoando-lhe a vida.

 Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 25, 2009
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O HOMEM À MARGEM DA CIDADE

 

O ano que se inicia é igual ao que passou, já que os relógios não distinguem os dias: todos têm as mesmas horas e os mesmos minutos. O que muda é a seqüência dos números nas semanas dos calendários e um ou outro amigo que se foi, um ou outro que ficou. Se um dia não é mais que duas voltas de um ponteiro – quantas voltas deve ter uma vida inteira? Poderia com tais idéias ocupar a mente, mas nelas não pensava. A uma mente despida de pensamentos, sobra-lhe o interior oco de palavras, o indivisível do ser. Cada homem, todo ele, dentro de si, é primariamente um homem baldio, pois o desencontro vem sempre muito antes que qualquer encontro. O rosto de alguém é alguém que não se conhece.

A madrugada é a tarde da noite e a ressaca do dia. Podia-se ainda ouvir o frágil rebentar de longínquos e atrasados fogos que rareantes explodiam por detrás dos edifícios que apontavam à lua, ao invés de arranharem o céu. O mar estava quase distante. Preferia assim a quietude companheira dos rios, talvez por temer oxidar de salinidades e agitos. Alguns poucos eram como ele: desconhecidos entre desconhecidos, melhor do que em meio a conhecidos. Doía-se menos. Um clima de cumplicidade irreconhecida se misturavaao fino frio do fim da noite. Sorveu em um só gole todo o conhaque que continha o copo. A quentura dominou-lhe repentinamente a alma com a leveza de uma transitória embriaguez, talvez pelo estômago vazio, fazia horas que trocara o corriqueiro jantar por um sanduíche de queijo e mortadela. Um tanto tonto, porém insuficientemente, pediu a conta e pagou, sem antes solicitar outra dose.

Caminhava agora pelas ruas com a inabalável certeza de que chegaria, afinal chegar era o prazer de depois partir. Pisava sem pressa o chão das calçadas e os asfaltos da cidade que era sua. Nela nasceu, cresceu e haverá um dia em que nela se enterraria. Quando por baixo dela viver, outros a pisarão com o mesmo cuidado com que pisa sua infância, seu passado, sua história… Os pés do adulto que o corpo leva trilham as pegadas do menino insone e traído. Várias vezes passou ele por aquelas ruas e pontes, como várias vezes passará, até que passar não lhe seja mais nenhuma obrigação.

Da cidade herdara o prenome e sobrenomes, bem como os seus desígnios e destinos. Seu nome o revestia de ser exatamente o que não era: o desejo de quem o batizou primeiro do que um padre. O batismo de um nome é acima de tudo o legado de um sonho, e se o filho é o espólio silencioso de um sonho, o nome deste é sempre a frustração de um outro. Fadado ao insucesso, restava-lhe a vida inteira para lembrar que ao nascer já não era quem nunca fora. Chamava-se pelo nome do avô materno a quem jamais conhecera. Uma mãe não devia, afirmava consigo e tomado pelo pensamento, parir um pai, pois pais também se fazem de rupturas e cortes. Pudesse adotar números em vez de letras, adotaria o um e o sete. Setenta e um ou dezessete, pouco importa, melhor assim seria do que já era.

Ali ia o homem margeando o rio que margeava a cidade que margeava sua vida. No limiar dos seus limites amanhecia o amanhecer, embora ainda estivesse um pouco escuro e se iluminasse das luzes dos postes e da matina. A princípio impercebeu que rumo ou rotaseguia, tão somente continuava como se o continuar fosse a tarefa dos que ficaram. Quando por si se deu, logo compreendeu que o longo muro que o seguia feito cachorro sem dono e que se findava em um largo e elevado portão de ferro era todo o cemitério. Plantado como um poste se planta, aguardou o dia com suas claridades e conseqüências – acaso passasse alguém no adiantado daquela hora, imaginaria ser ele uma assombração. Quando abriram o pesado portão não se importou com o susto do zelador, continuou. Consigo não trazia nada além da roupa do corpo e suas lembranças, lembranças estas que depositaria, que nem flores, no jazigo onde estavam os nomes da sua família.

Se me perguntarem se ele voltou ou se ele ficou, não saberei neste instante responder. O que apenas sei foi que ele não escutou, ou não quis ouvir, quando o zelador educada e timidamente pronunciou um distante, como distante é o mar:

 - Feliz ano novo.

Joaquim Cesário de Mello 

 

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