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SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE V

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em outubro 5, 2009

Mais uma vez damos continuidade ao presente ensaio sobre a sociedade de consumo, ensaio este que teve início em 19/07/ (Parte I) e que foi seguido pelas partes II, III e IV (postadas respectivamente em 02/08, 20/08 e 15/09) todas inclusas na Categoria “Sociedade Contemporânea”, cujo link de acesso se encontra ao lado direito da tela. Desse modo, vamos agora dar continuidade com a 5ª parte:

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PARTE V:

 

 

 

A combinação de imagens e paixões manipula sobre o psiquismo humano. Como diz Lasch as condições do relacionamento social cotidiano em uma sociedade baseada na produção de massa e consumo de massa é estimulada por imagens e impressões superficiais e rasas. O eu, transformado em uma superficialidade estética e aparente, ofertado tão somente a olhares e desejos dos outros (um eu para ser visto e admirado), propõe-se a ser uma mercadoria disponível para consumo em um mercado ávido por emoções efêmeras e ocasionais. E assim a produção excessiva e abundante de mercadorias e seu correlato consumismo criam um mundo especular onde cada vez mais é difícil distinguir ilusão de realidade. Um mundo de espelhos faz do sujeito humano um objeto, ao mesmo tempo em que transforma os objetos rodeantes em uma espécie de extensão e projeção do próprio eu.

                        Se o consumidor vive rodeado não apenas por coisas como também por fantasias, como denuncia Lasch em seu livro “O mínimo eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis” (ed. Brasiliense), sua dependência como consumidor tem um caráter de oral voracidade. Sendo próprio do desejo em suas raízes mais infantis a ilimitação, assim também o é o caráter fundamental da lógica consumista. Explica-se assim um pouco o porquê a dependência do consumidor ao sistema consumista que lhe escraviza com promessas de segurança, amparo e proteção. Ou como lembra Lasch que se para a cultura do século XIX reforçava-se padrões anais de comportamento (estocagem de bens, acumulação de capital e controle do afeto) a partir da segunda metade do século XX exacerbou-se o padrões orais característicos do período desenvolvimental humano, época em que todos fomos dependentes absolutamente do seio materno. Este seio enraizado na mente humana é como que ressuscitado no mundo circundante do homem consumidor. O ego consumans, portanto, é por excelência um ego adicto.

                        Na genealogia do consumo encontra-se a produção abundante de bens, coisas, mercadorias e objetos, assim como a produção de necessidades a serem fruídas e satisfeitas de maneira rápida e veloz a ponto de nos manter carentes de mais necessidades e objetos (a cultura e os objetos já não são feitos para durar). Talvez seja melhor não falar de um sistema produtor de necessidades, mas sim de um sistema fomentador das mais primais necessidades humanas. Não se cria necessidades do nada, despertam-se e estimulam-se necessidades dormentes. O que se inova e se produz não são as necessidades humanas (felicidade, prazer, segurança, reconhecimento, poder…), porém os objetos do desejo. Tais objetos trazem consigo a promessa ilusória de apaziguamento de nossas angústias, frustrações e vazios, promessas opinácias é bem verdade, contudo de forte apelo e atratividade.

Sociedade pós-moderna gera pessoas pós-modernas. Somos gerados e criados não mais para sermos bons cidadãos, mas sim para sermos bons consumidores. Somos desde cedo alimentados de leite e cultura. Se hoje cada vez mais os pais estão fora de casa ocupados com suas carreiras profissionais e sobrevivência (famílias de duplo carreiramento), ideologicamente os filhos estão sendo socializados pela publicidade e mídia. A televisão, assim, por exemplo, é um braço ideológico e educacional do sistema capitalista. Poucos parecem se dar conta de quanto são condicionados pelos meios de comunicação de massa. Quanto mais cedo se é socializado (primariamente) pela mídia mais difícil é perceber sua manipulação sobre nós. Não uma manipulação de uma elite ou de um grupo de maquiavélicos, mas uma manipulação de um sistema como um todo. Condiciona-se, dessa maneira, crianças, jovens e adultos, a uma existência voltada ao consumo, consumo este a serviço de nossos instintos animais: comer, beber, fazer sexo, se proteger e relaxar. O amor dos pais para com seus filhos é cada vez menos o afeto e cumplicidade do compartilhamento e o carinho do toque e do afago, sendo cada vez mais materializado na compra de presente e bens de consumo. Não sei se aqui há uma compensação ao sentimento de culpa pelo afastamento da proximidade com os filhos, visto que sua carga horária é diminuta e atomizada pelas obrigações e preocupações com o trabalho e a carreira profissional, apenas observa-se que a amorosidade é cada vez mais coisificada e materializada nos objetos e quinquilharias que parecem substituir a ausência dos pais.

                        Crianças, assim como os jovens púberes e adolescentes, são submetidos à força da publicidade e dos meios de comunicação que não são somente formadores de opinião como também formadores de consumidores. Crianças pequenas, por exemplo, bombardeadas cotidianamente pela mídia e ainda em formação cognitiva, emocional e psicológica, não aprendem a refrear seus instintos e desejos, submetidos que estão a idealizar e desejar o que lhes é mostrado. Na hipertrofia do limite instala-se no jovem e na criança uma espécie hipertrofia hedonista tão necessária a um sistema social lastreado pela permissividade e pela hipersensibilidade ao prazer imediato.

As mensagens veiculadas na propaganda, na publicidade, na televisão, na rádio, no cinema e na mídia em geral, podem ser resumidas a seguinte ordem narcísica: “gozem”. E nessa panacéia generalizada do gozo do pelo gozo vamos sendo formados tanto como neo-hedonistas de carteirinha como por perversos neofílicos, isto é, “tarados” e atraídos por novidades, sempre por novidades e mais novidades. Basta atentar para a quantidade de tempo que se dedica uma criança ou jovem para a televisão, vídeos, games, internet, DVDs, e afins, para se perceber que nos tempos atuais brinca-se e se diverte cada vez mais nos espaços virtuais das telinhas e menos nas ruas (perigosas), nos terrenos baldios (escassos) e nos quintais (playground de edifícios). Após um dia inteiro de entretenimento e lazer as roupas não sujas de barro, areia ou lama. Até as brincadeiras dos palhaços dos aniversários infantis estão sendo gradualmente substituídas pelo tilintar enervante das máquinas coloridas e ruidosas dos play stations da vida. O voyeur de cedo será também o exibicionista do amanhã.

                        Assim não é impreciso a analogia do ego consumans  com o ego adicto. Estamos ficando dependentes dos objetos, da tecnologia e dos produtos. O sujeito passa a ser valorizado pelo que possui e pelo que demonstra possuir: griffes, marcas famosas de carro, status, aparelhos de última geração (aliás, devia-se chamar de última temporada ou semestre). Possua e mostre o que possui, este é o mandato vigente. Não basta ter, tem que mostrar ter, ou aparentar ter – que não é a mesma coisa, porém parece igual. Não deixe para amanhã o que você pode ter hoje, mesmo que para isso você se endivide em tantos meses de módicas prestações no crediário fácil e disponível: “basta falar com a moça”, como diz um slogan de uma peça publicitária.

                        Um mundo inteiro sem limites. Será? A mente é em sua essência e nascedouro amoral e regida pelo que chamamos de princípio do prazer (o impulso ou desejo requer descarga imediata). O ego é a parte da mente que em contato com a realidade e o mundo externo serve como executor do que há de mais interior, basal e inconsciente: o id. Nossas necessidades básicas requerem satisfações, logo, já, imediatamente. Assim é a mente em seu estado bruto. Com o evoluir da mesma e das suas inúmeras experiências, aprende-se a controlar um tanto nossos impulsos soberanos, limitando-os, interditando-os, adiando-os ou postergando-os se for o caso. A publicidade, por sua vez, tem como alvo nosso âmago inconsciente oferecendo um bem de consumo qualquer como um objeto de satisfação para nossos inquietos desejos. Como diz a psicanalista Maria Rita Kehl (“O espetáculo como meio de subjetivação”, in: Bucci, E. e Kehl, M.R., “Ideologias”, editora, Bontempo), a publicidade faz nossa mente a partir do nosso inconsciente trabalhar a serviço do capital. Diz ainda ela:  

“Hoje a publicidade não serve apenas para convencer o possível comprador de que um carro é mais potente do que outro, ou que matar a sede com cerveja x é muito mais gostoso do que com y (embora todos saibam que cerveja não mata a sede). Junto com carros, cervejas e cartões de crédito acessíveis a uma parcela da sociedade, a publicidade vende sonhos, ideais, atitudes e valores para a sociedade inteira. Mesmo quem não consome nenhum dos objetos alardeados pela publicidade como se fossem a chave da felicidade, consome imagens deles. Consome o desejo de possuí-los.” (pág. 61)

Por isto que acima dizíamos que não acreditamos que a publicidade a serviço da sociedade de consumo crie necessidades do nada. Não um nada absoluto (embora pessoas possam de achar vazias por dentro) no interior de um ser humano. O que habita em nós é falta e por causa da falta somos desejantes. Assim o que nos habita são faltas e desejos, e a publicidade, como bem diz Kehl, dirige-se ao desejo e responde a ele com mercadorias. Convoca-nos, a todos indistintamente, a gozar o que de fato somente uns poucos privilegiados podem gozar.

Continua

Joaquim Cesário de Mello

SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE IV

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em setembro 15, 2009

Dando continuidade ao presente ensaio sobre a sociedade de consumo, cujo início encontra-se postado aqui no HUMANASBLOG em 19/07 (parte I), 02 e 20/08 (partes II e III), todos inclusos na Categoria “Sociedade Contemporânea”, voltemos ao tema em questão.

 

Terminamos a 3ª parte afirmando que em uma sociedade cuja lógica é baseada no desperdício (consumo) e no atendimento de necessidades imediatas (muitas vezes desejos artificialmente vestidos de vitais) o futuro é de menos importância. Com o sentimento de amor e a maneira de se amar também não seria diferente, afinal o modus vivendis em uma cultura de forte base consumista, individualista e narcísica teria inevitalmente que também atingir nossas idéias sobre os sentimentos e nossa vida afetiva. A idéia de amor, por exemplo,  como renúncia e sacrifício, dedicação, compromisso e investimento, é então solapada por novas propostas de se amar mais adequadas às ideologias de uma sociedade de cultura de massa e consumo.

Continuemos, pois…

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PARTE IV

Retornemos mais uma vez a questão da lógica consumista. Hannah Arendt (A condição humana, Forense Universitária 1999) vislumbrou que o consumo não mais se restringia às necessidades de sobrevivência e manutenção da vida, mas principalmente às superfluidades da vida. O consumo não se faz tão somente com objetos, porém também com pessoas. Consumem-se pessoas como se consume objetos. Em uma sociedade repleta de abundâncias (serviços, bens materiais e sexualidade em fartura visual e corpórea), na opulência da oferta em relação à procura, cria-se e vive-se a lógica do consumo: não se produz para durar. Para que a abundância se perpetue é preciso haver desperdício. Diz Baudrillard em seu livro  A sociedade de consumo (Edições 70, Liboa, 1987) que nesta fauna e flora vegeta o novo homem selvagem dos tempos modernos, este homem da opulência que não se encontra mais rodeado de outros homens, mas mais por objetos. Entretanto acha-se o homem de hoje satisfeito nessa relação de abundância e desperdício? Parece que não. Os discursos em consultórios dizem que não.

A cultura do narcisismo impera. Vivemos uma contemporaneidade em que se prosperam imagens e mais imagens, onde o caminho da felicidade resume-se ao consumo de bens materiais. Exige-se cada vez mais, e cada vez mais cedo na criança, êxitos e mais êxitos (sofre-se de verdadeiras síndromes de loser). Teme-se o corpo em seus sinais de envelhecimento na ânsia inquietante da “eterna juventude”. Nos auto-cobramos perfeições inatingíveis e nos angustiamos por não corresponder na realidade aos egos ideais alimentados por ícones de uma por cultura que fabrica celebridades em profusão praticamente interminável. Na fome por novidades excitantes esquece-se o que há de novo nos aprofundamentos das relações inter-humanas e suas singularidades. Deprimimo-nos mais em decorrência de fracassos narcisistas, porque sofremos mais diante das demandas severas de sucesso, dinheiro, status e poder. E assim, magnetizados e aprisionados ao credo individualista vive-se em permanentes sentimentos de solidão em um mundo de repetitivos ciclos de desejos e idealizações temporárias.

A baixa auto-estima e a depressão são sintomas mais evidentes de nossa era. O sujeito da dita pós-modernidade carece de melhores contornos e limites. Seduzido, fascinado e ofuscado pela abundância oferecida por uma economia cuja lógica consumista é o desperdício, vive-se uma vida fútil onde o tecnicismo desdobrou-se em todos os setores da vida humana, resultando em um instantaneísmo das próprias relações entre os sujeitos. A velocidade que caracteriza os tempos atuais não apenas trouxe mudanças radicais de valores, como também colocou a subjetividade em perda com padrões identificatórios significativos e o sujeito em crise com sua própria identidade. Na expressão de Paul Israël  o mundo de então desumanizou o sujeito.

O homem da contemporaneidade, transformado em consumidor, vive como que mergulhado em um mar profundo e infindo de mercadorias e imagens. Acha-se escravizado pela tecnologia e sem ela considera não conseguir viver. Exemplo preciso é o celular. Não faz muitos anos, um pouco mais do que uma década, vivia-se sem a necessidade do pequeno aparelho – que de fato nos facilitou significativamente a vida. Todavia, o que é comodidade virou acomodação. Fica-se como que “perdido” acaso se esqueça em casa o celular, quase como se estivesse faltando uma parte de si. Os objetos e toda a maquinaria tecnológica, celebrizadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massa, perdem cada vez mais o sentido de serem coisas a serviço do homem e se transmutam em senhores do próprio homem. Engana-se aquele que pensa ser os shoppings, lojas, centros comerciais, supermercados e mercados diversos o locus do consumo. Como bem descreve Baudrillard o lugar do consumo é a vida cotidiana: este somatório de fatos banais, gestos diários e repetição.

O capitalismo triunfa e reina nos dias e tempo em que aqui escrevo. Na tirania do capital sucumbe o indivíduo e sua singularidade. Tal falência é explicitada em Adorno (A indústria cultural e sociedade., Paz e Terra , 2002) quando afirma que o indivíduo é ilusório devido principalmente à padronização do modo de produção de uma indústria cultural geradora de uma cultura de massa. Segundo ele o que predomina é a pseudo-individualidade: individualidades produzidas em série. Como que robotizados a lógica do consumo e do capital invade e domina corações e mentes. O eu atrofia-se.

continua

Joaquim Cesário de Mello

FEMINISMO NO SÉCULO XXI

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 28, 2009

Talvez ainda um tanto contaminado pela atmosfera feminina do filme “Caramelo” (vide post sobre o assunto dentro da categoria “Cinema” aqui disponibilizado), ou talvez por ter tido mulheres marcantes em minha história e família, ou quem sabe por haver escolhido me auto-realizar em uma profissão dita “feminina”, ou ainda por ter concentrado meu mestrado em Relações de Gênero e mais precisamente na mulher, ou simplesmente porque sou fascinando pelo universo feminino, sei lá o por que mais (e será que isso no fundo importa?) , só sei que atualmente tenho e venho me debruçando em parte na temática do feminismo, mormente o feminismo contemporâneo.

O feminismo tanto como discurso ideológico, seja como uma espécie de postura filosófica ou como prática e ação política, relaciona-se às diferenças entre os gêneros e busca a igualdade de direitos entre os sexos. Segundo historiadores, o feminismo começa de fato a partir de meados do século XIX e início do século XX (primeira “onda”) , eglode nos anos 60/70 (segunda “onda”) e chega à atualidade com significativas transformações a partir dos anos 1990 pra cá (terceira “onda”). Vive-se hoje uma espécie de pós-feminismo, conforme abrimos a discussão no post abaixo, onde o cerne da discussão e luta reinvindicatória parece estar mais focada na construção social dos papéis sexuais e de gênero. Aborto, homofobia, divisão sexual do trabalho, violência doméstica, entre outras temáticas, são temas mais do que feministas em si, são temas humanos. A Lei Maria da Penha (2006), por exemplo, foi e é um grande avanço social, mas ainda há tanto para avançar.

A luta feminista, seja ela empregada por mulheres ou homens ou ambos, continua sendo uma luta pela igualdade social. Uma luta contrária, pois,  às desiguldades e às discriminações entre os sexos (aliás, entre os gêneros). Uma luta que se tece cotidianamente, dia-a-dia, em casa, no trabalho, na escola, nas ruas e nas relações afetivas. Uma luta de todos nós por um mundo melhor, mais justo e mais digno.

Pelo acima exposto, vale se indagar por quantas anda o chamado “movimento feminista”, quais suas transformações e quais seus desafios frente ao século XXI – razão pela qual sugere-se aqui ler a seguinte matéria publicada na revista Veja em sua edição especial sobre a Mulher (2006). Acessem: p_048.html

O PÓS-FEMINISMO

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 27, 2009

O pós-feminismo como o próprio termo que dizer trata-se de um feminismo posterior (e dele derivado em certa maneira) do feminismo radical dos anos 60 de onde germinou. Podemos chegar a afirmar que o pós-feminismo insere-se no discurso pós-modernista, na medida em que ambos têm o objetivo de desconstruir o gênero enquanto categoria fixa e imutável, como discorre Ana Gabriela Macedo (Universidade do Minho, Portugal) em texto que pode ser acessado à integra: a13v14n3.pdf

Dentre os principais e mais destacados teóricos e teóricas do pós-feminismo temos a escritora americana Camille Paglia, considerada uma das mais profícuas e instigantes intelectuais da atualidade. Leciona na Universidade das Artes da Filadélfia, EUA, sendo também colunista do site salon.com e editora da revista Interview. Nos anos 90 do século XX Camille Paglia ficou internacionalmente conhecida por seu polêmico livro Personas sexuais, no qual aborda de forma particular (na contramão teórica da sua geração) a mulher e o feminismo de então. Em 2005 foi eleita pela conceituada revista “Prospect” como uma dos 100 mais significativos intelectuais vivos do mundo. É autora de cinco livros, sendo o último Break, Blow, Burn. Trata-se, pois, de uma pensadora provocativa e não é à toa que em respeito a ela já tenham dito ser  “a feminista que as outras feministas amam odiar.

Conheçam um pouco do discurso de Camille Paglia quando a mesma aborda temas que lhe são queridos, tais como feminsimo, homossexualidade e cultura pop. Leiam, portanto, a seguinte entrevista que ela dá Revista Cult número 138: entrevista.asp?edtCode=2BB95253-7CA0-42E3-8C55-8FF4DD53EC06&nwsCode=E86F626C-9344-468B-870B-81811A57C805

FUTURO: UM PAÍS DE VELHOS

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 22, 2009

Nosso país está envelhecendo a uma rapidez vertiginosa. Segundo o IBGE o Brasil já chegou a uma fecundidade de 1,8 filho por mulher, ao tempo em que a expectativa de vida elevou de 41 anos (1960) para 72,7 em 2007. Projeções apontam que em 2040 passaremos de 190 milhões de habitantes para 220 milhões (ápice do crescimento), quando começaremos a declinar até atingir aproximadamente 215 milhões em 2050. Tais estudos também apontam que a parcela populacional dos que têm mais de 65 anos de vida aumentará dos hoje 12,4 milhões para 48,9 milhões de pessoas até 2050. Nesse mesmo período estima-se que o números de crianças diminuirá dos atuais 50,2 milhões para 28,3 milhões.

O aumento da longevidade associado a uma diminuição da natalidade fatalmente nos levará a condição de em breve sermos um país envelhecido em termos populacionais. E quais as possíveis repercussões de tal acelerado envelhecimento? Quais suas repercussões socias, econômicas, culturais e psicológicas? Estamos, como sociedade, preparados para o envelhecimento basilar da própria sociedade? Que impacto poderá ter no compórtamento geral das pessoas? O que poderá, enfim, acontecer?

O fenômeno da aceleração quantitativa do envelhecimento já começa a chamar atenção de pesquisadores, cientistas e governos. E é sobre esta temática o conteúdo da matéria de Herbert Carvalho publicada da revista “Problemas Brasileiros”, nº 394 de julho/agosto de 2009, que vocês poderão ter acesso aqui através do link: artigo.cfm?Edicao_Id=344&breadcrumb=1&Artigo_ID=5350&IDCategoria=6126&reftype=1

Vale realmente uma boa reflexão e debate sobre o que está acontecendo e para onde estamos caminhando e como podemos contribuir para um futuro melhor e mais digno. Com vocês o assunto…

SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE III

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 20, 2009
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Prosseguindo com o ensaio SOCIEDADE DE CONSUMO, cujas parte I e II foram postadas em 02/08 e 19/07/2009, respectivamente (ambas na Categoria “Sociedade Contemporânea), iniciaremos agora a terceira parte do mesmo. Terminamos a segunda parte afirmando que vive-se uma cultura dos fast foods e dos parelhos que ficam obsoletos em menos de dois anos; e imerso nesta cultura busca o ser humano contemporâneo o prazer imediato e um gozo ilimitado. Passamos assim a ver o outro, assim como o outro nos vê reciprocamente, como um mero objeto para me dar prazer. E ao nos transformamrmos em também consumidores de afetos e de corpos vamos esvaziando o sujeito que há na alteridade, bem como desertificando nossa própria subjetividade e sujeito.

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PARTE III

No tocante ao sujeito sem referências, Enrique Rojas (apud Socrates Nolasco em “Tarzan a Homer Simpson: banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais”, Ed. Rocco)analisa as bases do bem-estar contemporâneo naquilo que ele denominou de teatrologia niilista, composta por: hedonismo, consumismo, permissividade, relatividade e materialismo. É bastante interessante o que ele vem classificar de hombre light, um sujeito consumidor de comidas sem calorias, cervejas sem álcool, adoçantes sem açúcar, café sem cafeínas, entre tantos outros produtos lights. Um homem sem substância, como diz ele, apenas entregue a ganância pelo dinheiro, poder, status, êxito e gozo irrestrito.

Se para muitos a pós-modernidade representa uma ruptura com os ideais da modernidade, para uns tantos outros representa uma revolução cultural. Ao se querer “quebrar” os ideais e verdades concebidas pelo racionalismo moderno, a pós-modernidade propõe realmente um novo paradigma onde tudo parece ser ilusório ou relativo, onde não existem verdades “verdadeiras”. Para a concepção pós-moderna a única verdade é a ausência de verdade. Assim, tudo parece puramente relativo e ilusório, gerando-se uma idéia imediatista para a vida. Na ânsia despertada de que a sociedade aprisiona o homem, vive-se em procura de sensações e emoções sem limites. É como se quiséssemos libertar o ID de qualquer Superego. É como se buscássemos viver naquela máxima do: viva intensamente e morra jovem.

 Tal ideário embutido no projeto pós-moderno esvazia o ser humano contemporâneo de um objetivo de vida. A vida é rápida – dizem – e deve ser vivida rapidamente, não importando o amanhã. O presente é que vale. E nesse propósito subjetivo percebe-se claramente o seu forte apelo hedonista: experimentar fortes sentimentos de prazer e secundariamente evitar a dor. Abandona-se, pois, em grande parte, a racionalidade, priorizando-se quase que exclusivamente tão somente as emoções e as sensações.  Embora não se evidencie com nitidez no discurso pós-moderno, a pós-modernidade parece produzir uma espécie de culto implícito da morte, como se o depois não existisse. Tudo ou quase tudo deve ser morto no instante o mais rapidamente (objetos, idéias, gostos ou pessoas).

Pós-modernidade gera pessoas pós-modernas. Ou como diz Cristopher Lasch (“A cultura do narcisismo”, Ed. Imago) novas formas sociais exigem em contrapartida novas formas de personalidade, novos modos de socialização, novos sistemas de organização dos sentimentos e da experiência. Na lógica consumista do sistema capitalista contemporâneo, também denominado de terceiro estágio do capitalismo, formam-se seres obedientes à própria lógica, ou seja: consumidores em série. Afinal, sem consumidores ávidos não haveria a sociedade consumista como a entendemos e vivemos hoje. A mentalidade é, pois, desejar, adquirir, consumir, descartar, voltar a desejar novamente e assim por diante em uma insaciável e quase interminável círculo viciosos.

O conceito de narcisismo é um conceito vinculado ao egolatrismo, isto é, o excesso de libido voltado ao próprio ego. É um conceito, portanto, relacionado ao indivíduo. A questão que ora se faz é a de se haver ou não uma espécie de narcisismo coletivo. Para se analisar questão de tamanha envergadura e complexidade partiremos do seguinte princípio que, embora bastante óbvio, parece ser esquecido muitas vezes ao se abordar não somente o tema narcisismo, mas ao próprio desenvolvimento da personalidade do sujeito como um todo. Trata-se do princípio de que o indivíduo é antes de tudo uma coletividade. Como assim? Já dizia um dos pais da sociologia, Emile Durkheim, que a personalidade nada mais é do que o indivíduo socializado. O processo de socialização (primária e secundária) pelo qual o ser humano in natura é submetido desde seus momentos iniciais e ao longo de sua existência transforma o que podemos chamar de natureza humana em cultura humana. Assim ao se galgar à condição humana de sua própria humanidade o indivíduo humano é moldado, formado ou deformado pelas normas sociais dominantes e vigentes. Como afirma Lasch (op. cit.) toda sociedade reproduz sua cultura no indivíduo ao lhe formar a personalidade, através tanto de suas normas quanto de suas presunções subjacentes, bem como os modos de se organizar as experiências. Podemos até ousar dizer que acaso não houvesse a dimensão social concreta e a cultura no que há de humano em cada ser humano vivente, não haveríamos de falar em repressão e inconsciente.

 

Mudanças sociais geram impactos psicológicos. Ansiedades contemporâneas são em grande parte reflexos do modo de se viver histórico de uma atualidade sempre em transformação. Para Lasch, em sua clássica obra já citada, A Cultura do Narcisismo, um dos sintomas sociais observados é o sentido de descontinuidade histórica. Considerando que uma das características principais do narcisismo é o seu não interesse pelo futuro por ter ele pouco interesse pelo passado, o “viver para o momento” pregado implícita e explicitamente pela sociedade de consumo gera em um enfraquecimento do sentido do tempo histórico, ou seja, vai-se perdendo galopadamente o senso de se pertencer a uma sucessão de gerações que nos antecederam que, como diz Lasch, originaram-se no passado e se prolongarão no futuro. A desvalorização cultural do passado tem um duplo reflexo: o empobrecimento das ideologias e o empobrecimento da vida interior das pessoas.

Neste momento é mais esclarecedor deixar o próprio Lasch falar um pouco a respeito do que ele denominou de novo narcisista:

“Libertado das superstições do passado, ele duvida até mesmo da realidade de sua própria existência… Suas atitudes sexuais são mais permissivas do que puritanas, muito embora sua emancipação de velhos tabus não lhe tenha trazido a paz sexual. Ferozmente competitivo em seu desejo de aprovação e reconhecimento, desconfia da competição, por associá-la inconscientemente a uma irrefreável necessidade de destruir… Ganancioso, no sentido de que seus desejos não têm limites, ele não acumula bens e provisões para o futuro, como a fazia o ganancioso individualista da economia política do século dezenove, mas exige imediata gratificação e vive em estado desejo, desassossegada e perpetuamente insatisfeito.” (in: Cultura do Narcisismo, págs. 14/15)

Assim, em uma sociedade cuja lógica é baseada no desperdício (consumo), no atendimento de necessidades imediatas – muitas vezes necessidades artificialmente vestidas de vitais – o futuro é de menos importância. Como o amor também não será diferente. A idéia de amor como renúncia e sacrifício, dedicação, compromisso e investimento, é então solapada por novas propostas de se amar mais adequadas às ideologias de uma sociedade de cultura de massa e consumo.

(continua)

Joaquim Cesário de Mello

CAPITALISMO EM CRISE

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 11, 2009

Desde meados do ano passado estamos vivenciando uma crise econômica sem precedentes nos últimos anos e, segundo muitos analistas, somente comparável e menor em relação à famigerada crise de 1929 e o ínicio da chamada “Grande Depressão Americana”. A crise pela qual estamos passando não começou com data marcada, ao contrário, veio em um gradual processo que insidiosamente vinha se arrastando no seio econômico do sistema capitalista (a economia americana, por exemplo, oficialmente está em recessão desde 2007) e culminou com a crise imobiliária nos EUA. Lá nos States os bancos fomentaram, isto é, injetaram muito dinheiro (demais até) no setor, aumentando perigosamente o risco, visto que a proteção ao crédito cedido diminuia ao tempo em que elevava-se os juros com objetivo de igualmente aumentar os lucros e como forma e recurso de se defender da inadimplência. Coisa de doido, não? Hoje a gente pode até achar condução temerária dos negócios e loucura financeira (ou suicídio), mas à época não, afinal a coisa tava dando certo e ia-se ganhando rios de dinheiro. Oh felicidade! Todo mundo ia às compras, o dinheiro jorrava fácil, aliás, a ilusão do dinheiro, pois o que tínhamos não era dinheiro vivo e a cores, porém crédito, muito crédito e crédito fácil e abundante. Não precisamos ser economistas para perceber (agora, tempos atrás não: estávamos fascinados pela ilusão do “dinheiro” imediato, fácil e sem esforço) que se estava alimentando uma bolha (bolhas estouram). As hipotecas do imóveis americanos bancavam a farra, todavia toda farra tem um dia seu fim  e o fim desta chegou.

Subprime virou palavra de moda e incorporou-se ao vocabulário brasileiro. Subprime, em resumo, constitui-se em um crédito de alto risco concedido a um tomador que não oferece garantias suficientes, entretanto quanto maior o risco maior igualmente é o retorno financeiro (lucro) – se houver, é claro. E houve durante muito tempo. A negociata com as dívidas hipotecárias foi aumentando, isto é, gestores e fundos bancários compravam títulos hipotecários (subprime mortgage) e antes da dívida ser liquidada parte da quantia era novamente emprestada, havendo assim uma espiral ascendente de recompra de títulos, inflada por uma excessiva confiança na capacidade de compra do tomador como consumidor – como se ela fosse eterna. Desse modo gerou-se uma cadeia maior de risco, com o aumento sucessivo no preço das casas e dos juros cobrados. Para se ter uma idéia da iminência do estouro da bolha, já em 2004 lá nos EUA os juros básicos da economia beiravam os quase 5,5% a.a., o que para aquelas bandas era muito alto e corrosivo.

Continuando o acima exposto um fenômeno foi ocorrendo, a saber: com o aumento das taxas de juros (aumento este motivado pelo próprio risco envolvido nas transações) os proprietários das casas hipotecadas começaram a ter sérias dificuldades em se manter adinplentes. Iniciou-se um deletério aumento da inadimplência, que resultou, inevitavelmente, em uma acentuada crise de liquidez que, por sua vez, gerou escassez de crédito. Os imóveis, assim, devido a menos crédito na praça, começaram a se desvalorizar e o seu valor real passou a ser menor do que o valor da dívida (hipoteca). Gente então deixou de pagar e sem pagamento entrando os bancos começaram a sentir falta de dinheiro novo. De repente (não tão de repente assim) o ilusório dinheiro fácil de fato desapareceu. Se o leitor é daqueles que gosta de datas e quer uma data de nascimento para a atual crise econômica (embora os pais sejam muitos), vamos lá: agosto de 2008. Nesta data o antes todo poderoso e tradicional banco americano Lehman Brother quebrou e jogou a toalha, isto é, pediu concordata. A coisa de espalhou e atingiu diversos bancos e casas financeiras em uma espécie de efeito dominó. A crise continuou a se dissiminar e logo atingiu em cheio a economia real (o que aconteceu com a GM é um exemplo disto).

 

A ameaça da recessão mundial e a sombra dos anos 30 pairam no ar. Para que haja de fato recessão é necessário que haja diminuição do crescimento econômico. A retração do crescimento econômico traz consequências perversas por demais conhecidas, tais como: diminuição dos salários e da produção, concordatas, falências e desemprego. A questão que se faz, em um cenário econômico como este, é se realmente deve a sociedade (isto é: todos nós) pagar a conta de uma jogatina financeira que se escondia por detrás de uma fachada “democrática” de liquidez e distribuição de capital (quando o que havia e há é uma distribuição do crédito, ou seja, endividamento) onde um pequeno segmento de especuladores e espertalhões é quem dita as regras com objetivos vorazes de almejarem ganhos a todo custo, custe a quem custar (vide o recente escândalo financeiro referente a fraude perpetuada pelo antes influente financista Bernard Madoff, bem como o acintoso pagamento de bônus da AIG a seus altos executivos, mesmo em meio à crise de que estamos falando). E é exatamente sobre isto a matéria de Jorge Luiz Souto Maior, publicada no “Le Monde Diplomatic” com o título “Crise Mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo”, e que estamos colocando ao alcançe do transeute aqui do HUMANASBLOG através do link: 2009-05,a2844.

Vamos refletir sobre o assunto.

CONSUMISMO X MEIO AMBIENTE

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 6, 2009

 

 

 

 

Muito interessante, educativo e elucidativo o vídeo da Tides Fundation sobre a perniciosa e deletéria relação entre sociedade de consumo (consumismo) e meio ambiente (planeta Terra) denominado “The story of stuff” (“A história das coisas”), vídeo este postado no BLOG NEYLOR. Embora longo (cerca de 21 minutos) é bastante instigante e desafiador ao nos levar pensar coisas e detalhes da nossa banalidade cotidiana que não pensamos usualmente. Sugerimos ver o vídeo e refletir sobre o assunto. Para tal é só lincar: consumismo

SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE II

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 2, 2009
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Dando continuidade ao ensaio sobre SOCIEDADE DE CONSUMO, cuja primeira parte postamos em 19/07/2009 na categoria “sociedade contemporânea” (vide na próxima página), lembramos que o que chamamos de contemporaneidade, principalmente em termos de sociedade ocidental, nos remete inevitavelmente à capitalismo e sociedade de consumo.

Terminamos a primeira parte do presente ensaio comentando sobre o comportamento padronizado que a cultura de massa nos promove, embora escamoteado por uma ilusão de individualidade (pseudo-individualidade), pois o que temos de fato é uma espécie de individualidade em série, ou seja, a lógica do consumo ao nos invadir corações e mentes compromete a autenticidade do eu e a liberdade possível do sujeito humano. Continuemos, pois, com o tema:

PARTE II

Talvez possa ser lugar comum afirmar que os tempos atuais em que estamos inseridos, ou melhor, o “sistema” e a nova ordem social que organiza nossas vidas, se expressam em mundo fragmentado de objetos virtuais e de consumo dos mesmos de maneira imediata, veloz, irreflexiva e excessiva. A contemporaneidade, chamada por tantos de pós-modernidade, é uma era de saturações. A abundância, a opulência, o excesso e a multiplicação constante de objetos concretos e de imagens, nos rodeiam de tal maneira e forma que nos vemos mais cercados de objetos do que de pessoas. A proximidade tão decantada pelo discurso da globalidade e da informática não se cumpre. O mundo sem-fronteiras (aldeia global) parece mais um mundo mínimo impregnado de quinquilharias onde se vê em estado de sufocamento o homem contemporâneo. Como comenta Baudrillard (“A sociedade de consumo”, Ed. Lisboa, pág.15): “começamos a viver menos na proximidade dos outros homens, na sua presença e no seu discurso; e mais sob o olhar mudo dos objetos que nos repetem sempre o mesmo discurso – isto é, o do nosso poder medusado, da nossa abundância virtual, da ausência mútua de uns aos outros”. O tédio que isso tudo pode nos propiciar é retro-alimentado pelo consumo repetitivo de roupas, Cds, aparelhos e objetos vários, como se assim pudéssemos aliviar ou suprir o vazio de uma existência fútil e sem-sentido, como se fossemos uma espécie de novas Madames Bovary a seguir a risca roteiros escritos e pré-determinados por um Flaubert pós-moderno. Enquanto a Emma Bovary literária de Flaubert buscava nos homens a resposta para a indagação “quem sou” e assim fugir de sua vida medíocre e provinciana para uma vida romântica e de aventuras, o homem da pós-modernidade parece querer transcender do seu vazio e tédio através dos objetos consumíveis e descartáveis, bem como vivendo as fantasias das imagens e das personagens fictícias que funcionam como interlocutores entre nossos sonhos e as telas para onde em grande parte foi deportada a vida. Lembremos Guy Debord (“A sociedade do espetáculo”, Ed. Contraponto) para quem o consumidor real transformou-se em consumidor de ilusões.

A pós-modernidade, assim, tem como essência a substituição da palavra pela imagem, do real pelo simulacro (alguém, inclusive, já pregou o “fim do livro”, assim como se pregou o “fim da história”). Se na modernidade tínhamos a certeza encontrada pela razão, na pós-modernidade o que impera é a incerteza e a relatividade. Muitos chegam a afirmar que estamos vivendo o limiar de uma nova era e que os dias atuais são dias de transição. Seja como for chamado o momento e os tempos em que vivemos – “sociedade de consumo”, “sociedade da informação”, “sociedade pós-industrial”, “sociedade pós-moderna” e outros tantos pós – o estado das coisas e os fatos parecem apontar e nos sugerir uma época de crise: crise moral, crise emocional, crise religiosa, crise de valores, crise existencial. Crise, pois, no significado e sentido de ruptura.

Edward Hopper

Edward Hopper.

Crise, ruptura ou mutação, a questão do vazio existencial em relação ao mundo atual parece-nos pertinente e fundamental. Como se encontra o ser humano, sua subjetividade e singularidade, em meio à sacralização do mercado, do desemprego, da explosão tecnológica, do sexo virtual, dos novos arranjos e configurações familiares, da engenharia genética, da cultura de massa, do aumento de concentração urbana, do crescimento da violência social, da crise de valores e desconfiança e descrença nas instituições tradicionais? Como já comentamos em 2003 na introdução de um livro nosso (“Dialética Terapêutica”, Ed. Litoral), não é à toa que em geral o ser humano se ache assim tão vazio e solitário frente a um presente veloz e voraz e de futuro incerto, e em meio a uma multidão de solitários concentrados em metrópoles. Não é à toa também que se vendam tantos livros de auto-ajuda, lotem-se consultórios terapêuticos, que prolifere quase uma farmácia por esquina e que se consuma em quantidades cada vez mais elevadas prozac, zolofl, viagra e várias drogas outras que prometem a tão decantada felicidade.

Ana Roldán

Na cultura dos fast foods e dos parelhos que ficam obsoletos em menos de dois anos, busca o homem contemporâneo o prazer e o gozo imediatos. A busca do prazer e do gozo é da essência humana em qualquer período de sua história, é verdade. Porém, o que hoje mais acontece é o prazer imediato através da lei do menor esforço, um gozo ilimitado e sem restrições. O outro, assim, passa muitas vezes a ser visto como simples objeto de prazer, contaminando a maneira dese amar, ou seja, a intimidade, a mutualidade e o compromisso ficam comprometidos, sacrificados que são em nome das efemeridades das paixões momentâneas. A diferença torna-se um estorvo e um incômodo, e as relações amorosas, por exemplo, mal suportam e se mantêm além das primeiras divergências. E dentro desse contexto vai se fomentando um sujeito sem o outro, um sujeito sem objeto, que é um sujeito privado da alteridade e da diferença.

A COMPULSÃO EM TEMPOS MODERNOS

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em julho 28, 2009
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O ser humano sempre sofreu de compulsões e haveremos também de concordar que qualquer coisa,  idéia ou substância pode servir ao ser humano como objeto de sua compulsão. Há na “alma humana” uma inclinação à compulsividade e à adição. Os comportamentos compulsivos ou adictos são hábitos adquiridos na insaciável busca humana pelo alívio de sua ansiedade ou angústia. Tais hábitos ou aprendizagens, que se transformam pelas repetições constantes em ações/respostas automáticas, resultam por se tornarem desadaptativos e o que era antes uma espécie de “estratégia mental” para se livrar da ansiedade acaba gerando, paradoxalmente, mais ansiedade e com isto mais comportamentos compulsivos.

Entre tantos possíveis comportamentos adictos (sexo, trabalho, drogas, internet, jogo, etc) temos os pertinentes aos Transtornos Alimentares. A compulsão alimentar envolve uma ingestão inadequada, excessiva ou reduzida de alimentos, sempre feita de maneira incontrolável e impulsiva. Sabemos que desde a nossa primeira infância (oralidade) o alimento está associado a sensações de relaxamento, prazer, alívio e conforto. Toda vez que o bebê sente-se desconfortável por sentir fome, e por isto chora, seu saciamento é seguido se atenuação, alívio e prazer. Associe a isto o fato ainda de ao ser amamentado o bebê tem tambem o contato físico com o corpo da mãe, seu calor, carinho e aconchego. Alimentar-se assim dá sentimentos de segurança que serão básicos para o surgimento da auto-confiança no ser humano. Um ser humano mais auto-confiante tem uma melhor auto-estima e, dessa maneira, está mais aparelhado para os enfrentamentos da vida. Crescemos, portanto, associando  alimento e prazer.

Afirmamos acima que o ser humano de alguma maneira sempre sofreu e sempre sofrerá de compulsões, ou ao menos estará sempre correndo risco. Acontece que nas últimas décadas temos tido um elevado aumento nos comportamentos compulsivos, talvez devendo-se ao fato ao tipo de sociedade que estamos formando e vivendo. A modernidade em sua fase mais consumista e hedonista (pós-modernidade) tem como cada vez mais uma característica à dimensão compulsiva. Como certa vez disse Giddens, “o fato de hoje podermos nos tornar viciados em qualquer coisa – qualquer aspecto do estilo de vida – indica a real abrangência da dissolução da tradição. O progresso do vício é uma característica substantivamente significante do universo social pós-moderno, mas também um ‘índice negativo’ do real processo de destradicionalização da sociedade”.

Tal destradicionalização da sociedade leva-nos a um modo de viver vazio e desprovido de possibilidades emancipatórias. Ao não reconhecermos um propósito maior para a vida estamos muito mais expostos aos comportamento adictos e compulsivos onde tentamos – inultilmente diga-se de passagem – pseudotranscender nossa angústia existencial.

Estamos falando disso agora, pois é de nosso interesse levar o transeunte aqui presente a ler a matéria publicada na Revista Psique nº 39, que leva o título de “Compulsão e Distúrbios Alimentares” (matéria de capa “Compulsão: um mal moderno”). Leiam, pois, acessando: artigo131301-1.asp?o=r

E ainda para quem deseja ampliar e aprofundar sobre o tema compulsividade e modernidade, sugerimos uma leitura complementar em “A Compulsão e o vício da modernidade” de Leonardo de Araújo e Mota (publicado na Revista Humanidades nº 02/2002): 1518.pdf

Tema aberto para debate, portanto…

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