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POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em maio 31, 2009
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CANÇÃO PARA UMA SEMPRE MENINA

 (por ocasião dos 15 anos de minha filha Camila)

Quando não mais houver brinquedos,
e os ursinhos de pelúcia e as bonecas
apenas enfeitarem teu quarto
já tão coberto de retratos que não os meus;
 
Quando sobre tua cômoda
habitarem batons, estojos, rímel e perfumes
e nos espelhos procurares
o teu mais belo e perfeito perfil;
 
Quando substituíres os lápis
(com que desenhavas em rabiscos coloridos
tantas casas, jardins, céus, famílias…)
por outros que contornem tua boca e teus olhos;

Quando as roupas forem para ti
muito mais do que somente vestimentas
e o corpo não mais couber
nos teus hoje saudosos enxovais infantis;

Quando não mais tiveres medo de escuros
ou sozinha puderes suportar qualquer ausência.
pois em teus sonhos já não mais existem
bruxas, duendes, gnomos e bichos-papões;

É que te chegou o (in)esperado dia
em que se chega ao dia
do início dos teus próximos
quinze anos.
 

Joaquim Cesário de Mello

MEMÓRIA CULTURAL

Posted in Memória Cultural por Joaquim Cesário de Mello em maio 31, 2009

Para as gerações mais novas, principalmente para aqueles cujo hábito da poesia é menos praticado ou curtido, descrevemos alguns dos  mais conhecidos poemas do poeta pernambucano Carlos Pena Filho. E quem foi Carlos Pena Filho?

Carlos Pena nasceu em Recife (17/05/29) e em Recife morreu precoce e drasticamente em acidente de automóvel (01/07/1060) quando tinha então apenas 31 anos de idade.

Poeta lírico e contruidor de belas e plásticas imagens poéticas, Carlos inclusive compôs música com Capiba, a célebre “A mesma rosa amarela”. Devido a seus poemas explorarem a temática do azul ficou conhecido por alguns como o “poeta do azul”. Carlos Pena Filho é um dos principais nomes da poesia pernambucana do século XX.

Publicou: “O Tempo da Busca”, “Memórias do Boi Serapião”, “A Vertigem Lúcida”, “Livro Geral”.

Vamos, pois, aos poemas então:

 

A SOLIDÃO E SUA PORTA

 

Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório

____________________________

SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul  também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

_____________________________

Chopp

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 31, 2009
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A SENHORA DE TODAS AS COISAS

   

                                   Agora que todos se foram ficou o silêncio inteiro da casa, rangendo por entre escuros móveis pesados e objetos vários de decoração e recordação. Sentia-se igualmente uma ilha, cercada de pretéritos, lembranças, fantasmas e um acumular incômodo de anos de mais de três quartos de século de uma breve chama ainda por se findar. Quando morrer, sabia com a certeza inabalável daqueles que já enterraram tantos que não será tão longe assim, tudo ao redor de pouca ou nenhuma serventia terá, à exceção da mobília herdada de seus ancestrais e um ou outro pertence como a prataria, o castiçal, os vasos e as louças portuguesas e as molduras antigas onde se acha aprisionado o passado impresso em papéis amarelecidos pelo tempo que retratam o exato instante de um ontem carcomido de distâncias, hoje extinto. O resto, para os outros, são badulaques e quinquilharias de uma velha, do mesmo modo os retratos com seus rostos, poses e sombras a falar de uma época que teima em resistir na última sobrevivente que era ela.  Ninguém, além de si, ainda vivo, conhecerá seus tios, avós e pais. Ninguém também há de reconhecer naquele longínquo vulto de menina magra de olhos assustadiços e laço enorme na cabeça a velha que aqui está: movimentando-se com lerdo cansaço em meio seus tesouros inúteis e migalhas sobrantes de uma vida. As molduras, sim. Talvez tenham valor em lojas de antiguidades, porém os retratos – ah, os retratos! – decerto terão seu fim incinerados ou rasgados, ou terão a rara sorte de serem vendidos a preço barato em alguma quermesse para ornamentar e adornar restaurantes e bares temáticos quaisquer.

                                   Agora que todos se foram era a única zelosa guardiã de sua história e dos seus desaparecidos. No assossegamento da velhice sem pressa espana e varre poeiras e resíduos deixados pelos recentes partidos na sala habitualmente limpa e ajeitada, como se sempre estivesse pronta a receber visitações cada vez mais esparsas. De fato, a higiene do ambiente e o perfumado das coisas gastas mais se assemelhavam a um túmulo bem cuidado, jazigo sem lápide cujo sepulcro era uma homenagem à menina de outrora, preservada e oculta das curiosidades alheias. O mundo, assim, não tinha ciência de que naquele espaço bolorento de passados, apertado de tantos cacarecos e bugigangas, uma velha e uma menina mantinham mudas a derradeira e a mais solitária das batalhas. A velha de então encarava a menina de antes com ares saudosos de melancolia. Já a menina enxergava de lá de trás de onde fica o início dos retratos a anciã em que se tornara: oposto dos sonhos e amores infantis. Se tivessem os retratos sabor, teriam o gosto amargo e azedo das frutas estragadas pela ausência das colheitas.

                                   Agora que todos se foram pode percorrer ela com tranqüila suavidade a planície dos móveis e dos objetos como quem acaricia uma face, um peito ou um dorso. No acarinhar das mãos revisita sem sons sua memória de madeiras, metais e vidros, silenciosamente contida em cada coisa e por cada canto de toda a casa. No amanhã sem ela as coisas voltarão a ser o que sempre e apenas são: coisas. Triste destino este dos objetos de um morto: não significarem mais nada, nenhuma história, nenhuma recordação, nenhuma impressão, nenhum relato. Os pertences de um dono que não mais existe são tão mortos quanto seu próprio dono.

                                   Agora que todos se foram, a noite cada vez mais se separa do dia. A escuridão vem veloz sugando o sol das ruas e as parcas luminâncias da casa (de dentro, a velha senhora parece preferir seus pessoais crepúsculos). Por toda uma década, a última década, nada fora alterado no interior daquela casa. Há muito não adquiria objetos ou peças, muito menos tirara retratos. Nenhum móvel chegara, nenhum móvel saíra. Tudo estava inerte e perene, como se a eternidade terminasse ali. Tudo continuava fielmente no mesmo lugar a espera que ainda haja um alvorecer. E embora já seja bem noite não precisa ela acender lâmpadas ou luzes, pois sabe de cor todos trajetos, passeios e trilhas de seu território. Passo a passo, palmo a palmo, vai se recolhendo a mulher sem perceber, contudo, que no fundo das sombras e dos retratos a menina lhe acena discretamente um adeus, perdoando-lhe a vida.

 Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 25, 2009
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O HOMEM À MARGEM DA CIDADE

 

O ano que se inicia é igual ao que passou, já que os relógios não distinguem os dias: todos têm as mesmas horas e os mesmos minutos. O que muda é a seqüência dos números nas semanas dos calendários e um ou outro amigo que se foi, um ou outro que ficou. Se um dia não é mais que duas voltas de um ponteiro – quantas voltas deve ter uma vida inteira? Poderia com tais idéias ocupar a mente, mas nelas não pensava. A uma mente despida de pensamentos, sobra-lhe o interior oco de palavras, o indivisível do ser. Cada homem, todo ele, dentro de si, é primariamente um homem baldio, pois o desencontro vem sempre muito antes que qualquer encontro. O rosto de alguém é alguém que não se conhece.

A madrugada é a tarde da noite e a ressaca do dia. Podia-se ainda ouvir o frágil rebentar de longínquos e atrasados fogos que rareantes explodiam por detrás dos edifícios que apontavam à lua, ao invés de arranharem o céu. O mar estava quase distante. Preferia assim a quietude companheira dos rios, talvez por temer oxidar de salinidades e agitos. Alguns poucos eram como ele: desconhecidos entre desconhecidos, melhor do que em meio a conhecidos. Doía-se menos. Um clima de cumplicidade irreconhecida se misturavaao fino frio do fim da noite. Sorveu em um só gole todo o conhaque que continha o copo. A quentura dominou-lhe repentinamente a alma com a leveza de uma transitória embriaguez, talvez pelo estômago vazio, fazia horas que trocara o corriqueiro jantar por um sanduíche de queijo e mortadela. Um tanto tonto, porém insuficientemente, pediu a conta e pagou, sem antes solicitar outra dose.

Caminhava agora pelas ruas com a inabalável certeza de que chegaria, afinal chegar era o prazer de depois partir. Pisava sem pressa o chão das calçadas e os asfaltos da cidade que era sua. Nela nasceu, cresceu e haverá um dia em que nela se enterraria. Quando por baixo dela viver, outros a pisarão com o mesmo cuidado com que pisa sua infância, seu passado, sua história… Os pés do adulto que o corpo leva trilham as pegadas do menino insone e traído. Várias vezes passou ele por aquelas ruas e pontes, como várias vezes passará, até que passar não lhe seja mais nenhuma obrigação.

Da cidade herdara o prenome e sobrenomes, bem como os seus desígnios e destinos. Seu nome o revestia de ser exatamente o que não era: o desejo de quem o batizou primeiro do que um padre. O batismo de um nome é acima de tudo o legado de um sonho, e se o filho é o espólio silencioso de um sonho, o nome deste é sempre a frustração de um outro. Fadado ao insucesso, restava-lhe a vida inteira para lembrar que ao nascer já não era quem nunca fora. Chamava-se pelo nome do avô materno a quem jamais conhecera. Uma mãe não devia, afirmava consigo e tomado pelo pensamento, parir um pai, pois pais também se fazem de rupturas e cortes. Pudesse adotar números em vez de letras, adotaria o um e o sete. Setenta e um ou dezessete, pouco importa, melhor assim seria do que já era.

Ali ia o homem margeando o rio que margeava a cidade que margeava sua vida. No limiar dos seus limites amanhecia o amanhecer, embora ainda estivesse um pouco escuro e se iluminasse das luzes dos postes e da matina. A princípio impercebeu que rumo ou rotaseguia, tão somente continuava como se o continuar fosse a tarefa dos que ficaram. Quando por si se deu, logo compreendeu que o longo muro que o seguia feito cachorro sem dono e que se findava em um largo e elevado portão de ferro era todo o cemitério. Plantado como um poste se planta, aguardou o dia com suas claridades e conseqüências – acaso passasse alguém no adiantado daquela hora, imaginaria ser ele uma assombração. Quando abriram o pesado portão não se importou com o susto do zelador, continuou. Consigo não trazia nada além da roupa do corpo e suas lembranças, lembranças estas que depositaria, que nem flores, no jazigo onde estavam os nomes da sua família.

Se me perguntarem se ele voltou ou se ele ficou, não saberei neste instante responder. O que apenas sei foi que ele não escutou, ou não quis ouvir, quando o zelador educada e timidamente pronunciou um distante, como distante é o mar:

 – Feliz ano novo.

Joaquim Cesário de Mello 

 

POEMAS REVISITADOS

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em maio 23, 2009
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NOTURNO Nº 01

Há tanto convivo com tantas noites
que me creio muitas vezes
construído apenas de escuridão.

Minhas noites não são feitas
de vampiros, monstros ou fantasmas,
minhas noites são feitas de ausências e vazios
por onde percorro como um predador
a espreitar as nódoas cinzas de mim mesmo.

A única assombração que me assombra
é esta pálida sombra que reflito,
e que na claridade que me habita fora
desconhece-se dela qualquer indício.

Sou tão cheio de noites partidas do dia
que já nem sequer vejo minhas beiradas
e embotado sigo em meus mistérios
como quem inútil corta a obscuridade
com o fio cego de uma navalha gasta.

E lá no fim,
por detrás de todos meus silêncios tristes,
escuto a voz presa e frágil que me diz:
“estou cansado”.

Quisera, pois, antes do instante
em que a noite não mais se encerra,
ver um dia, ao menos um dia,
o arder nos olhos da luminosidade amarela
do sol.

Joaquim Cesário de Mello

LIVROS & LEITORES

Posted in LIVROS & LEITORES por Joaquim Cesário de Mello em maio 23, 2009

 O LIVRO SUBMERSO: A EMERSÃO DE UM AUTOR

 

            Difícil comentar sobre um livro de um amigo, de um amigo querido. Não porque a amizade possa atrapalhar ou comedir a criticidade e a sinceridade do comentário, mas sim por se tratar de alguém mais próximo e, por isso mesmo, melhor conhecê-lo e assim minimizar o saudável risco da surpresa, a boa surpresa. Falo mais precisamente do livro recém-publicado “O LIVRO SUBMERSO” (editora Nossa Livraria/2009), do psiquiatra, professor universitário, autor de peças teatrais e agora publicamente escritor Marcos Creder.

            Só quem, talvez, não conheça a capacidade imaginativa, criativa e lúdica de Marcos Creder é que possa se surpreender na leitura de seu primeiro livro editado. Surpresa agradável e envolvente, seja esteticamente aos olhos, seja ao mexer da alma do leitor. Por que afirmo isto? Marcos é um intelectual profícuo, culto. irrequieto e insistentemente intenso. Nada parece escapar a sua atenta sensibilidade que sabe, como uma espécie análoga da Função Alfa bioniana, transformar os ruídos e zoeiras do cotidiano em elementos lingüísticos e literários. Se Maiakovski estava certo ao dizer que o poeta é  antena de uma raça, Marcos Creder é um poeta: um poeta narrador, um verdadeiro confabaludor e criador de histórias, histórias que estão aqui e acolá à espera de alguém que as descubra e Marcos é um desses predestinados às descobertas. Sua qualidade pessoal de conseguir converter a vida fluída em narrativas e textos só pode passar desapercebida por quem, realmente, não conhece Marcos e sua inquietude existencial produtiva. “Todavia, deixemos por instantes de lado o autor e vamos à sua obra (como se tal dissociação fosse possível).

            O LIVRO SUBMERSO (contos e novelas) inicialmente me frustrou, não por que não fosse bom, ao contrário, frustrou-me porque me pareceu à primeira lida um livro rápido demais, enquanto eu, como leitor, vorazmente queria mais (os kleinianos entendem o que aqui digo). Engano de minha parte. Tá um livro que pode ser pequeno (em termos quantitativo de páginas), mas que não é menor (em termos qualitativos de densidade e idéias). Entendi, a posteriori da leitura, que o texto havia provocado em mim uma reverberação imediata e consequente identificação com a personalidade da maioria dos personagens e situações vividas (Marcos tem um texto em voz masculina). Vejamos, por exemplo, “O ESPELHO” (págs. 49/61).

            Em “O ESPELHO” encontramos Otto, personagem clássica encontrável no calçadão de Boa Viagem, isto é, um puer aeternun ou mais coloquialmente falando um “meninão”, daqueles que conhecemos e que parecem congelados no tempo e que se negam ferozmente a crescer ou adultecer, embora já tenham passado até dos trinta ou mais. Conta o conto que certa vez Otto decide ir pela primeira vez ao centro da cidade (ele sempre vivera no bairro onde sempre viveu) em busca de um livro. Todavia em sua peregrinação ao centro – não nos esqueçamos que um centro de cidade é geralmente o passado desta mesma cidade – Otto acaba se deparando com um espelho que termina por adquirir e levar consigo. 

            Pois é, Otto muito bem é a verdadeira metáfora do ser humano epidérmico e superficial que vive o transcorrer dos dias e da vida na periferia capilar da mesma e à margem de si mesmo. Rumar ao centro da cidade é como rumar meta psicologicamente ao centro de si próprio (verdadeiro self?) em busca de encontrar a autenticidade deste si. E nada como a nossa própria imagem refletida em um espelho para percebermos, às vezes, que aquele rosto não nos pertence. Fernando Pessoa igualmente sabia disso quando diz no poema “Tabacaria”:

“Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado”.

            Sim, Marcos Creder é decididamente um escritor. Um escritor que aos olhos mais apressados (o livro pode ser “devorado” em torno de poucas horas, mas não é um livro para ser lido em poucas horas) parece apenas nos relatar histórias, histórias que talvez nem ouviu, nem viveu, mas que muito provavelmente brotou de suas fantasias e inventices cujas raízes encontram chão no que convencionamos chamar de inconsciente.

            Há no livro sob comento um território de desejos inconsumados, como um amor enganado e não satisfeito, ou a revelação pela palavra misteriosa que parece vir do além, bem como o reencontro do passado no futuro que acaba por reconstruir o próprio passado. Os acontecimentos relatados em contos são resultados ficcionais do autor que oferece às nossas mentes pessoas e mundos que, embora pareçam distantes e longínquos, são possíveis.

            Marcos, em seu livro de estréia, demonstra-nos um pouco de sua verve e de sua inesgotável capacidade de fabular quase como se fosse ainda uma criança, ou um menino solto de amarras em um corpo de adulto grande. Se o ID do autor é imaginativo e sublimável, seu Superego, por sua vez, é literário (para quem não sabe Marcos herda o gosto pela escrita através dos livros da biblioteca do pai).

            O LIVRO SUBMERSO é um livro de leitura fácil, ágil e vibrante – sem barroquismos estéticos ou ruminações lítero-intelectuais – que, ao mesmo tempo, nos oferece pepitas a serem descobertas como se estivéssemos em um garimpo. E as pepitas de Marcos são para ele suas gaivotas.

            Voemos, pois, com as gaivotas de Marcos. Boa leiura…

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 23, 2009
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AQUELES QUE NÃO SUPORTAM SAUDADES

Havia há muito a mulher o deixara. Jamais se soube os motivos de sua repentina partida, pois de sua boca nenhuma palavra dita sequer a respeito. Remoía em mudez a calada esperança daqueles que não suportam saudades. A cada “o que aconteceu?”, “o que houve?”, “o que se passou?”, fechava-se ainda mais como uma ostra a resguardar sua pérola. E como é peculiar à natureza humana a insustentabilidade das interrogações, de logo trocaram-nas pelas levezas das exclamações. Por dias e dias e semanas a fio, inúmeras foram as histórias geradas de tamanho assunto; tantos boatos, tantos rumores, tantos mexericos e versões, tudo servia e se moldava à curiosidade da vizinhança. As mentiras, de pronto, ocupam o vácuo das verdades desconhecidas.
O tempo e o silêncio são errosivos às bisbilhotices alheias. Esvaem-se as histórias, resta o mito, depois… o esquecimento. Contudo ele, negado de tansitoriedade e de lutos, deixado às lembranças edificara seu despovoado contorno com certezas quase insanas. Dizia a si só e somente a si que ela voltaria, um dia, com a mesma face meiga rubra de sol e olhos constantes, e aquele sorriso farto com o qual o envolvia que nem o mar ao afogar o rio.
Em sua longa espera cotidiana a descrevia pra si diariamente, detalhadamente, como se para se assegurar que os anos podem ser apenas alguns dias. Feito uma Penélope invertida tecendo invisíveis tapetes, soterrou-se em seus escombros de memórias, perdendo os parentes, os amigos, os conhecidos… até que mais ninguém soubesse ou falasse de seu triste abandono.
Porém, conquanto se nutrisse de inúteis aguardos, houve momentos em que chegou a relutar das intermináveis esperas. Receioso, então, da demora e do cansaço, evitava pensar na morte dela, visitando aos sábados os cemitérios da cidade. Peregrinando de túmulo em túmulo, de jazigo em jazigo, vendo e revendo lápides, buscava não buscar encontrar o nome dela. Havia nele um ar de contentamento, embora o fingisse bem, todas às vezes em que de lá se retirava, enquanto os outros chegavam levados de culpas e lágrimas. Felicitava-se assim pelos cadáveres que não tinham seu sobrenome. Foi dessa época, inclusive, seus derradeiros e restantes amigos, entre coveiros e mulheres rezadeiras.
Quando decorado já conhecia todos os mortos, seus apelidos e suas datas, enraizou-se no apartamento habitado de si, isolando-se dos entardeceres e das chuvas, sabendo agora, com uma certeza cada vez mais certa e inquebrável, que a morte a ela não chegaria. Eterna a mulher em sua ineternidade, existia ele somente de recordações, alheio ao falecimento das presenças e ao envelhecimento do sofá e das poltronas da sala onde permanecia em inalterável aguardo, nunca se permitindo ao sono – hábito costumeiro dos que não precisam das portas e das chegadas. Misturando-se aos segundos, solidificou o tempo a tal ponto que se um dia ela retornasse (o que era por demais improvável), seria como se estivesse ido apenas à esquina tomar sorvetes ou comprar um maço de cigarros.
Quem pudesse vê-lo em tão comovida espera o pensaria dormindo de olhos abertos frente à porta, cercado de desertos e poeiras. Mas ninguém mais o viu desde então, até que um dia, muitos e muitos dias após o dia em que ela o deixou, arrombaram-lhe a porta dos seus devaneios e não era ela. Surpresos, jamais entenderam a inconcebível visão de encontrar plantada no centro da sala aquela árvore gasta de seivas e sem frutos, cheia de musgos, com seus ramos crescidos por sobre os braços da poltrona, como alguém que quisesse abraçar o vento.

Joaquim Cesário de Mello

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009

AVE URBANA

Ameaçou um canto
que era mais que um canto:
era um grito.
Empinou o bico,
com inútil arrogância,
agitando as penas
como se fosse feliz.
Olhou o mundo
que flutua por trás da janela,
abriu as asas
um tanto desacostumado
e num último arrebatamento
chocou-se entre as grades.
Resignado,
recolheu-se ao seu canto habitual
e, fechando as asas e os olhos,
sonhou grandes vôos.

 

Joaquim Cesário de  Mello

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009
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POEMA DE AMOR AO CONTRÁRIO

Não quero te ver envelhecer ao meu lado
não te escolhi pra te perder
prefiro a permanência do breve instante
que a longevidade prometida das minhas ausências

Não quero que me vejas envelhecer ao teu lado
nem que chores em meu túmulo molhado
fiquemos juntos pois neste retrato
e que seja hoje sempre sem nenhum amanhã

De que adianta filhos e casa
se tudo ao futuro deixaremos
que nos agarremos um ao outro no presente
este imenso inchaço infértil de transitoriedades

Não te quero nem me quero
em lembranças e memórias
desejo-te agora como és e serás
plena suave e morna assim
como assim é toda e qualquer eternidade.

Joaquim Cesário de Mello

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009

SONHOS DE MENINO

De manhã quando broto
deixo o melhor de mim em meus sonhos

Acordado sou pálido reflexo
do menino que o homem acompanha
e nem sei se a noite
ao rever-me em reverso
estarei ali
a espreitar-me sonhoso
no apagar de minhas ilusões

Quem conhecerá o choro da criança?

Quem me vê assim crescido
pouco ou nada sabe de mim
não sou bandido não sou herói
nem demônio nem anjo
não sou felino mas estou ferido

Escondido sou invisível
apenas me sei enquanto durmo
no lugar dos meus ontens
onde sonha o menino sonhos de adulto
neste rosto que me expõe
além do mar revolto e agitado
em que me afogo diariamente
no amanhecer em que levanto

Quem enxugará as lágrimas do menino?

Amanhã retornarei
para um dia não mais retornar
e ai então meu menino
liberto enfim de mim
seguirá seu feliz destino
e não precisará mais dormir
para sonhar sempre comigo

Joaquim Cesário de Mello

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