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ENSAIO

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009

AMOR EM TEMPOS NARCÍSICOS

Parte 1

Joaquim Cesário de Mello

 

Cultura do Narcisismo

                        Muitos falam que hoje vivemos uma era de cultura narcísica da sociedade e, consequentemente, dos indivíduos que dela fazem parte. A expressão Cultura do Narcisismo foi cunhada por Christopher Lasch em seu clássico livro homônimo[1] cujo subtítulo é “A vida americana numa era de esperanças em declínio”. Embora o referido livro centre-se na questão do american way of life contemporâneo, é por demais sabido a evidente influência da cultura e do estilo de vida de ser americano no restante do chamado mundo ocidental – seja nas sociedades industrializadas e desenvolvidas, seja nos países ainda em desenvolvimento.

                        O livro de Lasch foi publicado pela primeira vez em 1979 e, mesmo passado quase três décadas, ainda é bastante pertinente para a compreensão do mundo social em que habitamos e vivemos. Podendo lê-lo e pensá-lo nos remete àquela velha máxima de que no presente encontra-se o germe do futuro. É um livro de caráter seminal que aborda as transformações vivenciadas pela sociedade americana – e por extensão a cultura ocidental – a partir principalmente dos anos 70 do século XX. Lasch é um historiador debruçado não necessariamente no passado que nos determinou, porém no próprio presente de sua época. Ele estuda a história do amanhã a partir do hoje. Pois é, Lasch não era um visionário, contudo teve a lucidez de cedo perceber os sinais e sintomas de uma cultura em gestação, gestação esta que nos gerou o que aqui chamamos de tempos atuais.

                        Em uma entrevista no documentário “Uma Janela da Alma” o escritor português, prêmio Nobel de Literatura, José Saramago considerou os tempos atuais como uma reificação do “mito da caverna” de Platão. Nesta alegoria mítica Platão imagina homens vivendo acorrentados em uma caverna de tal forma que não podem se virar e ver a entrada da mesma. O que vêem no fundo da caverna são projeções de sombras dos animais que passam às suas costas. Certo dia um deles consegue se desacorrentar e assim sair da caverna e contemplar à luz do sol os verdadeiros objetos que passam frente à entrada da caverna. Contudo, regressando à caverna e contando para os demais, o que viu, é considerado louco e ninguém acredita nele. Platão, neste mito, descreve o cerne do seu pensamento a respeito das duas formas do pensamento humano: o mundo dos sentimentos e dos fenômenos (sombras) e o mundo das coisas verdadeiras e do inteligível (idéias).

O que quer dizer Saramago, ao associar os dias de hoje com o mito platônico? Talvez seja porque hoje se vive cada vez mais e mais rapidamente o mundo sensível das sombras e das aparências. Uma sociedade do espetáculo no feliz dizer de Guy Debord[2].

O mundo, ou mais predominantemente a sociedade ocidental, vem sofrendo aceleradas e vertiginosas transformações. Novos paradigmas de cultura e subjetividade jogam o homem contemporâneo em um cenário social cada vez mais de natureza ou caráter narcísico, onde o sujeito vale pelo que aparenta ser, ao invés do que ele realmente é. Uma sociedade de simulações e simulacros como diz Baudrillard. Todo esse processo resulta, inevitavelmente, em uma crise de identidade do ser humano atual.

Falar em atualidade ou contemporaneidade não deixa de implicar estarmos falando em capitalismo ou, mais precisamente, na lógica do capitalismo em seu período avançado de pós-industrialização. Economicamente o avanço do desenvolvimento do sistema capitalista desemboca em um estágio (atual) de abundância e excessiva cultura de massa. O próprio conceito de pós-industrialismo remete a questão do predomínio do setor terciário (prestação de serviços) sobre os demais setores econômicos de uma sociedade: primário (agricultura) e secundária (indústria). Pós-industrial é, pois, quando a área administrativa supera a área produtiva.

Acostumou-se denominar os tempos atuais de pós-modernidade, em uma espécie de ruptura com a chamada modernidade histórica. Ora, falar inicialmente em modernidade é conjuntamente também falar em capitalismo. O capitalismo é um sistema de produção de mercadorias que paralelamente transforma a própria força de trabalho humano também em mercadoria. Após o período histórico chamado de Industrial, as sociedades pós-industriais (identificadas pela ampliação do setor terciário/serviços) começaram e se tornam dependentes da tecnologia e da comunicação. A vida das pessoas, a partir de então, é invadida pela publicidade e pelo consumo exacerbado e alienante. Necessidades humanas são artificialmente estimuladas, tais como: não se veste mais roupas, porém grifes; não se bebem refrigerantes ou cervejas, porém slogans; não se compra carros como meio de transporte ágil, porém status; não se compra celulares; porém design; não se compra refrigeradores ou máquinas de lavar; porém felicidade… O consumidor real, afirma Debord[3], torna-se assim consumidor de ilusões.

Baudrillard[4] esmiúça bem a lógica da questão. Compara o poder da publicidade com a história de Papai Noel. A crença em Papai Noel é uma fabulação criada para as crianças em sua segunda infância e que mantém nela suas relações com a primeira infância. A idéia de Papai Noel é assim um prolongamento miraculoso do ideal, ou seja, não importa se existe Papai Noel, o que vale e importa é que através dessa ficção mantém-se a solicitude dos pais e seus cuidados. Os presentes tão somente sancionam o jogo e o compromisso. Assim também ocorre na publicidade. Baudrillard expõe que não é o discurso informativo das virtudes do produto com que a publicidade convence o consumidor, mas o signo ilegível à consciência que atinge lá no fundo de nós a mesma criança que regressivamente “necessitava” de Papai Noel. Como diz Baudrillard, “esse objeto, o senhor não o comprou, o senhor sim emitiu o seu desejo”. É o mesmo mecanismo psicológico que na infância nos faz confundir a mãe com o que ela nos dá.

A questão não é o consumo, ato humano vital à vida pelo o qual atendemos nossas necessidades de sobrevivência. A questão é o consumismo alienado e supérfluo que em uma espécie sutil de metamorfose transforma os seres humanos em uma enorme massa de consumidores semi-analfabetos, não no sentido letrado do termo, mas no sentido que não se pensa o produto culturalmente consumido, apenas se consome e pronto. E assim, o homem contemporâneo, no corre-corre da relação produto-consumo, não se vê explorado e alienado de sua liberdade. O homem da modernidade que se supôs, pela razão, o centro de si, descentraliza-se ao se encontrar sem ver destituído de sua dimensão crítica.

A chamada “Escola de Frankfurt” (grupo de pensadores críticos da sociedade contemporânea), já desde a primeira metade do século XX, analisa com profundidade as raízes das contradições sociais atuais. Adorno, Marcuse, Horkheimer, Habermas, entre outros, denunciaram a perda da autonomia do sujeito na domesticação do mesmo pela sociedade baseada em uma indústria de massa. Marcuse[5], por exemplo, fala da unidimensionalidade. O homem pós-industrial se acha iludido na idéia de que se é livre e que faz escolhas. Ele sem se saber é escravo do sistema que um dia criou, como quando parece não conseguir viver sem bens de consumo do tipo internet, celular, televisão, etc., sem os quais se sentiria lançado em uma espécie de vazio traumático. O sujeito, assim, perde a sua condição de sujeito ao ser nivelado em um monótono universo unidimensional em que todos pensam, julgam, desejam e comportam-se de maneira igual.

Se for fato como diz McLuhan[6] de que o poderio tecnológico tomou conta do ambiente global (ambiência tecnológica) e que passamos hoje da produção de mercadorias empacotadas para o empacotamento da informação, até o lazer pode ser alienado. No esvaziamento da crítica e da refletividade a “indústria do entretenimento” escolhe por nós o que fazermos com o nosso tempo livre (pós-trabalho). Assim ditam modas e modismos, o bar do instante, a novela imperdível, a boate para se ser visto, a cor do verão, a praia badalada, o livro de auto-ajuda que mudará nossas vidas, o filme de que todos falam premiadíssimo de oscares, os novos e coloridos games, a bebida que o ídolo bebe, as tramóias e tramas dos big brothers, as revistas de fofoca sobre celebridades, as viagens e os cassinos do momento, entre programas vários.

Com a automação do trabalho a partir da revolução industrial e do avanço tecnológico das últimas décadas o ser humano se viu permitido a dispor de mais tempo livre além do trabalho. As horas vagas, contudo, ao invés de emanciparem os homens dos esforços do labor levando-os a outras atividades ditas “superiores”, geraram um incremento consumista que é da natureza e do apetite humano. O consumo não mais se restringiu às necessidades de sobrevivência e manutenção da vida, mas principalmente às superfluidades da vida.

Já nos alertava a filósofa Hannah Arendt[7] sobre o perigo de se chegar o momento em que nenhum objeto do mundo ficará a salvo da própria aniquilação através do consumo. Dizia Arendt (pág.147) que um dos óbvios sinais de perigo é a medida “em que toda nossa economia já se tornou uma economia de desperdício, no qual todas as coisas devem ser devoradas e abandonadas quase tão rapidamente quanto surgem no mundo, a fim de que o processo não chegue a um fim repentino e catastrófico”. Portanto, desde meados dos anos 50 do século XX, Arendt denunciava que o perigo de uma sociedade baseada no consumo é o deslumbre ante a abundância interminável onde o sujeito não se reconheceria sua própria futilidade, futilidade de uma vida – como afirma – que não se fixa nem se realiza em coisa alguma que seja permanente.

Em seu hoje clássico livro “A Sociedade do Espetáculo”[8], publicado no ano de 1967, Debord ensinou que o espetáculo domina o homem contemporâneo da sociedade ocidental. O espetáculo, afirma Debord, é a afirmação da aparência, como se toda a vida humana fosse uma mera aparência. Cada vez mais não se vive a vida, assiste-se a vida em televisões, cinemas, Dvds, revistas, vídeos e telas de computador. Ao representá-la como espetáculo o que se tem de verdade é a negação da vida e esta negação se faz visível como se fosse a própria vida. Se antes um dos grandes dilemas humanos era entre o “ser” e o “ter”, agora atomizamos a questão para a esfera do “parecer”. O capitalismo, assim, se torna imagem.

Dentro dessa ótica o sujeito humano desencontra-se dos demais sujeitos humanos no sentido amplo e restrito de sua alteridade. De que forma isso se dá?  O sujeito desalojado de suas relações intersubjetivas supre a ausência real e íntima do encontro por uma espécie de alucinação social. Como acima dissemos cada vez mais se assiste a vida ao invés de vivê-la. Espectador, é o homem da atualidade prisioneiro de pequenos espaços achatados (telas de espetáculo, como diz Debord), e em tais telas expande-se o sujeito como se em uma imagem refletida no espelho. Expliquemos melhor. Ao se assistir a vida e o mundo na presença de suas imagens o real se falsifica. Confunde-se a imagem filmada por uma câmara qualquer como se tal ângulo em que a imagem é feita e posteriormente editada como se fosse a própria realidade. Neste sentido, menciona Debord, encena-se a falsa saída de um autismo generalizado, suprimindo-se os limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento da verdade vivida em sua inteireza frente a uma realidade que se presentifica na organização da aparência. O homem espectador não se apercebe, embora intuitivamente sinta estar à margem da existência.

 PS: em breve estaremos postando a parte 2 do ensaio AMOR EM TEMPOS NARCÍSICOS

 


REFERÊNCIAS BOCLIOGRÁFICAS

[1] Lasch, C., A Cultura do Narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio, Rio de Janeiro, Imago, 1983.

[2] Debord, G., A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto, 1997.

[3]  Op. cit.

[4] Baudrillard, J., Significação da Publicidade, in: Adorno et al., Teoria da Cultura de Massa, 6.ed., São Paulo, Paz e Terra, 2000

[5] Marcuse, H., A ideologia da sociedade industrial, 4.ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1973.

[6] McLuhan, M., Visão, som e fúria, in: Adorno et al., Teoria da Cultura de Massa, 6.ed., São Paulo, Paz e Terra, 2000.

[7] Arendt, H. A condição humana, 9.ed., Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1999.

[8] Op. cit.

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