HumanasBlog


ENSAIO

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009
Tags:

MUITO ALÉM DO COMPLEXO DE ÉDIPO:

O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE E DA PESSOA ALÉM DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

 Parte 1

                           Não deixa de ser no mínimo intrigante ou curioso que no universo das produções bibliográficas no campo da psicologia se encontre tantos livros, textos, pesquisas e estudos a respeito do psiquismo infantil, do jovem e até mesmo sobre a velhice e senescência, e pouco, muito pouco (comparativamente falando) sobre o psiquismo ser humano adulto e  a dinâmica de seu funcionamento. Embora não seja de hoje que se destaque que o desenvolvimento psicológico e as mudanças evolutivas continuem após e além dos limites da meninice e da adolescência, são raros e escassos, por exemplo, publicações voltadas ao desenvolvimento da personalidade do ser humano adulto em termos mais específicos, mesmo se sabendo que a vida adulta ocupa a maior parte da existência humana.

                        Evidente que a infância é a fase da vida onde muito se modela o homem que a criança será amanhã, porém, após o chamado período de molde, a mente humana e a pessoa prosseguem se transformando a cada instante e enfrentamento da existência. Se a infância metaforicamente representa os alicerces da construção de um ser humano, chegar ao momento adulto da vida não significa, por sua vez, estar-se a edificação pronta e acabada. Não somos necessariamente prisioneiros do passado. Do ontem somos seus herdeiros. O passado nos supriu, nos capacitou e nos modelou, é verdade, porém ainda continuamos no presente e este, assim como as expectativas com o futuro, também nos influencia e nos provoca modificações e adaptações. Mudanças prosseguem durante toda a idade adulta e na velhice, isto é, da concepção até a morte.

                        O adulto não é somente um remanescente da infância. As mudanças processadas na vida adulta têm um sentido evolutivo ao orientar para transformações dentro do sujeito e ao seu próprio crescimento. Segundo Fiske (1981) as emoções que nos acompanham desde as experiências pregressas não são esquecíveis ou esquecidas, mas integram nosso eu. O amadurecer do psiquismo no ser humano adulto passa pelo reconhecer-se responsável por sua própria pessoa e por sua vida, em vez de culpar os outros, o passado ou o destino.

                        Dentro da concepção da psicologia evolutiva a idade é uma variável vazia, isto é, o tempo por si só é insuficiente para compreender os processos do desenvolvimento do psiquismo. Como afirma Palacios (2004), a idade é um valor descritivo, visto estar a ela associada uma gama de circunstâncias e mudanças, contudo, “as relações entre idade e conduta são de natureza correlacional, não do tipo causal: no processo do desenvolvimento psicológico existem determinadas mudanças que são mais características de umas idades que de outras, mas isso não significa que seja a idade a que produz, por si mesma, as mudanças” (págs. 371/372, op. cit.).

                        Entre diferentes maneiras e significados com os quais podemos falar de idade, além das chamadas cronológicas e biológicas, temos as idades psicológica, funcional e social. A idade psicológica é aquela que se relaciona com a capacidade de adaptação e ajustamento de uma pessoa frente às demandas e os desafios do ambiente e da vida cotidiana. A idade funcional faz menção a capacidade de autonomia e independência, e a idade social refere às expectativas sociais associadas  a determinadas idades cronológicas e aos papéis a elas relacionados.

                        É provável que o colorido da infância e da adolescência e suas transformações e crescimentos acelerados, bem como as marcas indeléveis que tais etapas desenvolvimentais deixam na alma humana, tenham contribuído sobremaneira para secundarizarmos a importância também da psicologia do homem adulto. A relevância dos primeiros anos e experiências é inequívoca, afinal dos anos primevos adquire-se sentimentos de bem-estar interior, auto-confiança e auto-controle. Mas os outros anos, todos os anos, merecem atenção. É no adultecer que melhor se desenvolve a mutualidade, o compartilhamento de sentimentos, a capacidade de se entregar ao trabalho e aos relacionamentos íntimos, o contentamento com o self.

                        É comum descrever as primeiras duas décadas da vida como uma espécie de subida evolutiva. Já os anos adultos são vistos como um platô (estabilidade) e a velhice como descida e declínio. É fato que a maturidade biológica é alcançada entre os 24 e 30 anos, aproximadamente, e o que vem depois é um gradual processo de envelhecimento, afinal todos somos programados geneticamente a envelhecer e a morrer. Todavia não custa nada enfatizar o óbvio: a pessoa humana habita um corpo, mas não se confunde com corpo, pois a psique é algo que vem e vai além do organismo, embora seja neste mesmo corpo que toda sua história se desenrola.

                        Do ponto de vista psicológico Erikson (2000) foi um dos primeiros a apontar para as mudanças psíquicas que continuam ocorrendo mesmo após o atingimento da maturidade biológica. O modelo eriksoniano propõe entender o desenvolvimento humano em termos psicossociais. Passada a adolescência, diz Erikson, se vê o ser humano frente a desafios de estabelecer relações de intimidade profunda além da família de origem, constituir nova família, contribuir com gerações seguintes, agir, comprometer-se e dar sentido a sua vida. Erikson, assim como Freud e tantos outros, não abdica da idéia de que problemas da vida adulta sejam conseqüência em grande parte de conflitos não satisfatoriamente superados ou resolvidos da infância. Entretanto, a visão de Erikson difere quando ele enfatiza a relação da pessoa em desenvolvimento com seu entorno e ambiente social.

                        Desenvolver-se é diferenciar-se, individualizar-se. Evidente que ao longo de todo um ciclo de vida a pessoa que habita um corpo e que vive em espaços físicos e socio-culturais não permaneça invariável ou imutável, embora em termos de noção de si se saiba ser o mesmo. Os eventos inevitáveis da vida, conjugado aos acidentais, afetam e contribuem para continuar formando o sujeito de cada um. As idiosincracias e diversidade interindividual vão ficando mais nítidas quando se chega a idade adulta, principalmente pelo acumular das experiências e vivências. A psicologia do adulto é marcada por tal heterogeneidade, isto é, quanto mais amadurecido psicologicamente se é um sujeito, mais responsável se é pelo que se é. O comportamento de cada um esboça o seu próprio evoluir pessoal.

                        Diferentes momentos da vida não podem ser apenas coadjuvantes ou fundos de uma personalidade pretensamente já formada e impassível às transformações. Se a criança é o pai do homem, como já disseram, isso não significa que o secundo não tenham em relação a si mesmo e aos seus instantes suas conseqüências. Comenta Fierro (2004), “a personalidade não é alheia, portanto, a seu próprio desenvolvimento; ela não tanto nasce quanto se faz, se aprende e se desenvolve” (pág. 407).

                        São tantas as mudanças ao longo da idade adulta. Porém, quando exatamente começa o adulto? Não se tem a puberdade a nos limitar a infância da adolescência. Difícil precisar. Até mesmo sabemos que o organismo pode atingir seu ápice matural, mas emocional e afetivamente ainda se estar adolescente. Se já não se é mais o corpo com precisão a nos delimitar a transição entre o adolescente e o adulto, talvez encontremos tal resposta no social. A puberdade (púbis = pelos) é corpórea, já a adolescência (ad loscere = rumo ao crescimento) é psicossocial. Neste âmbito, a morfologia do adulto tem como cenário e paisagem o mundo social e as relações do indivíduo com o mesmo e suas exigências. Podemos, assim, falar de relógio social.

                        Dentro de uma perspectiva psicossocial e encarando pelo ângulo da cultura ocidental, embora seja minimamente perceptível e mais dilatado temporalmente, a entrada na vida adulta encontra parâmetros nas exigências sociais. Certa vez disse Freud, quando indagado sobre o término do processo psicanalítico, que a terapia terminaria quando o cliente estivesse satisfatoriamente capacitado para o amor e o trabalho. Realmente, quando crianças podemos brincar de “papai e mamãe” e de sermos astronautas ou médicos, contudo somente adultos é que tais anseios podem se efetivar, isto é, casarmos ou nos acasalar e sermos de fato astronautas ou médicos.

                        São complexas as circunstâncias que marcam o fim da adolescência e o início do adulto. Entre elas a atividade ocupacional e o trabalho remunerado, a identidade profissional, a autonomia econômico-financeira, um melhor autocontrole sobre as emoções, maior independência emocional em relação à família de origem, o estar com o outro no sentido de casal com atitudes e vontades de permanência, formar nova família, tornar-se pai ou mãe, saber usar o tempo livre e o ócio com prazer e discernimento, brincar e ser ao mesmo tempo responsável. No tocante ao brincar lembremos que o adulto não é o oposto da criança, como se a infância fosse a época do lúdico e do prazer e o adulto fosse algo a ser circunspeto e sério, quase como uma antítese do prazer. Ao contrário, o adulto é a continuidade da criança.

                        Intimidade, trabalho e liberdade (somos responsáveis pela nossa liberdade) eis os principais marcos e demandas da idade adulta. Tais demandas, internas e externas, ao sujeito se transformam em desafios. O enfrentamento de tais desafios são o que se convencionou chamar de tarefas do desenvolvimento. De uma pessoa adulta, não em termos estritamente cronológicos, mas no sentido psicológico, espera-se encontrar visibilidade enquanto extroversão, assertividade, socialização, controle e modulação emocional, criticidade, flexibilidade, capacitação em cambiar afetos e auto-realização.

                        Seríamos míopes ou ingênuos se considerássemos os anos adultos como consolidadamente estáveis. Ao lado de Erickson outros pesquisadores e estudiosos do tema como Levison percebem que a cada nova etapa de vida vivenciamos o eterno conflito entre permanência e transformação. Levison (apud Coll, Marchesi e Palacios, 2004) entende que as transições e crises adultas não são nada leves ou breves. Para ele a vida adulta subdivide-se em três períodos distintos: idade adulta precoce, intermediária e tardia. Na idade adulta precoce (que vai até à meia-idade, aproximadamente 40/45 anos) há o dispêndio de grande energia e atividade, período de vida este permeado de satisfações, contradições e tensões. Chegada a idade adulta intermediária (até + 60/65 anos) essas tensões tendem a amenizar, tornando-se assim a pessoa mais reflexiva e autocentrada. Já a idade adulta tardia (velhice), para Levison, o que se verifica é um acentuamento das diferenciações (menos traços comuns) entre as pessoas. 

                        Embora seja um tanto duvidosa e questionável a precisão cronológica das fases e transições, afinal cada um tem seu ritmo próprio, os modelos de estágio são importantes para se perceber que durante a vida se enfrenta crises e nesses enfrentamentos e superações desenvolve-se toda uma personalidade seja o indivíduo menino, jovem adulto ou velho. Quem melhor expões isto é Fierro (2004) quando afirma que as crises não estão sujeitas a um calendário rígido e fixo, mas sim provocadas pelo curso biográfico de cada pessoa, conjugadas aos fatores biológicos (como uma doença grave ou acidente mutilador ou que provoque invalidez, por exemplo) e sociais (como quando se torna progenitor, casa-se, divorcia-se, muda-se de trabalho e residência, etc).

                        Não entremos aqui no mérito de se discutir o que é uma “boa vida” ou uma “vida desejável”. O tema da maturidade, é verdade, implica refletir como os seres humanos adultos são e vivem, bem como poderiam ser e viver. O significado do existir humano de cada um é determinado pelo curso de suas vidas, seus atos, escolhas, atitudes, condutas, realizações e frustrações, assim como por suas circunstâncias.

                        Através de uma visão humanista concebe-se a personalidade não como um estado, mas um processo. O transforma-se em pessoa é tarefa de uma vida inteira. É brilhante o ensinamento do filósofo e escritor Albert Camus para quem todo homem, a partir de certo instante, é responsável por seu rosto. Ou como diz Fierro (2004) a tarefa moral e psicológica do desenvolvimento é a de se tornar não somente mais velho, mas também mais humano e pleno. Concordamos com ele ao entender que a infância e a adolescência são etapas de aprendizados básicos e fundamentais. O aprender a viver é um processo longo e infindável, ou findável ao término da existência de cada um.

                        Acreditamos que para o leitor que até aqui chegou ficou claro nosso posicionamento e constatação: a idade adulta não é uma idade de imobilidade psicológica. A mente humana é sempre mutável e plástica em constante luta em conjugar segurança e satisfação. O processo de socialização prossegue ao longo do tempo. Quanto mais velhos vamos ficando, ou melhor, quanto mais percebemos nosso envelhecer e finitude, mais parece que nos obrigamos ser mais fiéis com nós mesmos, isto é, buscamos maior coerência entre nossa internalidade e externalidade. Acaso a infidelidade permaneça, quando abrimos mão da satisfação pelo excesso de segurança obtido pelo ser sempre “bom menino” ou “boa menina”, escond0-se por detrás de máscaras sociais, interpretando personagens (falso self) e não sendo o próprio protagonista, mais estagnados e isolados ficamos.

                        Adultecer não leva o indivíduo a um ponto final, mas é um contínuo processo, um verbo que se conjuga no gerúndio. Psicossocialmente falando adultecer aproxima mais o sujeito da família (em seu sentido estrito e amplo), ampliando seus espaços de troca e intimidade (mutualidade). Ser pai ou mãe, por exemplo, não significa de seu corpo gerar filhos. A progenitura é quando deixamos um tanto de lado a eterna necessidade de sermos cuidados e assumimos nós mesmos o papel e a função de sermos cuidadores de alguém (seja de uma nova geração, do companheito(a), dos pais velhos, etc.)

                   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

ERIKSON, Eric, O ciclo de vida completo, Porto Alegre, Artmed, 2000.

 FIERRO, Alfredo, O Desenvolvimento da Personalidade na Idade Adulta e na Velhice, (orgs.) 2.ed., Porto Alegre, Artmed, 2004 

FISKE, Marjorie, Meia-Idade: a melhor época da vida, São Paulo, Harbra, 1981

 PALACIOS, Jesús,  Mudança e Desenvolvimento  Durante a Idade Adulta e a  Velhice, (orgs.) 2.ed., Porto Alegre, Artmed, 2004.

________________________________________________

PS: em breve postaremos a parte 2 do presente ensaio

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: