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ENSAIO

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009

O SUJEITO DESPEJADO:

REFLEXÕES SOBRE O VAZIO DO EU NA CONTEMPORANEIDADE

 

  Joaquim Cesário de Mello

 

                        Em nossa prática clínica temos frequentemente nos deparado com discursos e queixas muitas vezes distanciados em grande parte daquilo que se poderia esperar a partir dos livros clássicos de psicologia clínica. Evidente que pessoas não são livros, mas nossos atendimentos atuais parecem apontar que já não mais estamos apenas ou quase exclusivamente lidando com clientes/pacientes que apresentam quadros com nítidas manifestações de sintomas característicos de alguma neurose do tipo tradicional, como descrito, por exemplo, por Freud e pelos primeiros e pioneiros psicoterapeutas, analíticos ou não. Claro que ainda há pessoas que trazem em si e na sua forma de lidar com o mundo, a vida e os outros, sintomas denominados de fóbicos, histéricos ou obsessivos. Porém, é cada vez mais visível que se tem aumentado a procura por psicoterapia por pessoas com fortes sentimentos de baixa auto-estima, depressivos, estressados e com sentimentos de identidade não bem consolidada.

Diz Zimerman (2004) que o que hoje constatamos é que a queixa inicial dos postulantes à psicoterapia recai em geral naquilo que comumente chamamos de angústia existencial, no tocante no sentido de por que e para que se continuar vivendo. Para Zimerman são pessoas que sofrem de “patologia do vazio” e o eixo do sofrimento não se está tanto centrado nos clássicos conflitos entre impulsos e defesas, mas sim em torno de carências que determinam à formação de vazios no ego.

Não vamos aqui, no presente texto, indagar para onde foram os grandes histéricos e obsessivos quase puros em suas neuroses. Vamos partir do princípio que o ser humano continua obviamente sendo ser humano ao longo da história da Humanidade, contudo a sua maneira de existir e sua essência, assim como sua maneira de sofrer e adoecer, transformam-se e moldam-se frente ao cenário sócio-cultural em que se vive. Sim, o ser humano é sempre um ser desejante e na relação entre seus desejos e seu entorno (social) reage-se sentimental e emocionalmente aos acontecimentos. As histéricas vienenses do final de século XIX, por exemplo, sofriam sofrimentos diferentes dos homens e das mulheres do início do atual século. Entre tantos transtornos mentais classificados no CID-10, os transtornos de ansiedade e de personalidade são os mais prevalentes. Não é à toa, portanto, que o mal-estar da contemporaneidade tenha uma natureza de base narcísica e depressiva. Assim, se o que aqui enfocaremos e tentaremos colocar como pontos de reflexão são as inquietações pós-modernas e a estruturação do sujeito e suas experiências nesses tempos atuais.

                        O que é o sujeito? Inicialmente há de se diferenciar o sujeito do eu. Psicologicamente falando o eu é a consciência e o sentimento da própria identidade, isto é, o eu é formado pelas vivências de cada um: sua maneira como sente, explica e compreende o que se passa na superfície e no interior de si, do seu corpo e do mundo rodeante. O eu é, assim, forma individual e pessoal de se ser. É do eu que surge o sujeito. Para isso definamos o que é o sujeito. Citando Chaui (1994), somos nós enquanto dotados de poder de análise, síntese e representação. Não basta tão somente reconhecer-se diferente dos objetos, mas criar e descobrir significações, elaborar idéias, conceitos, juízos; enfim, refletir.

                        Enquanto relacionado à representação, o sujeito historicamente organiza seu saber sobre si e sobre o mundo através da consciência reflexiva. E porque há o sujeito, existe uma verdade a ser dita, afinal o sujeito manifesta-se como pensante e falante. Todavia o sujeito não é algo pronto e acabado, pelo contrário, o sujeito é um eterno por vir, uma permanente construção – infinita, dentro dos limites finitos de uma existência. Se para o racionalismo da Era Moderna o “eu penso” localiza simbolicamente o sujeito (res cogitans), para a Psicanálise o sujeito é descentrado da consciência e diferencia-se o “eu penso” do “eu sinto”. Em oposição à consciência cartesiana de si Freud nos propõe o pensamento inconsciente, isto é, onde eu não sou como consciência é onde penso e sou como sujeito do inconsciente e do desejo (Pacheco, 1996). Assim, o sujeito pensante transforma-se no sujeito psicológico.

                        Para Morin (1996) a noção de sujeito é controversa e não é evidente. Metafisicamente o sujeito confunde-se com a alma, porém para o referido autor o sujeito dissolve-se enquanto determinado pela física, pela biologia e pelos determinismos sócio-culturais. Continua Morim ao afirmar que desde o século XVII vivemos uma estranha cisão esquizofrênica, ou seja, na vida diária e cotidiana ao mesmo tempo em que nos sentimos sujeitos vemos os outros como sujeitos. Descartes formulou a existência de dois mundos: o mundo dos objetos (res extensa) e o mundo do conhecimento (res cogitans). O mundo do sujeito é aí um mundo intuitivo e reflexivo. Seja o sujeito descarteano, seja o sujeito freudiano, o sujeito é sempre aquele que fala – consciente ou inconscientemente – e em sua fala, aparentemente única, habita um nós, uma comunidade da qual somos parte. O sujeito é moldado pelo Outro, é o que há de humano dentro do ser humano.

                        Ensina Pacheco (1996) que o conceito de sujeito é precedido pela produção, no campo lingüístico, da figura de Homem. O homem em seus primórdios precisava-se distinguir dos animais e dos deuses. Em relação aos deuses, ao mesmo tempo em que são antropormofizados, são também modelos a se imitar e a seguir. O mundo de antes era, consequentemente, deificado e cheio de verdades absolutas, mundo este em que se encontrava submetido o ser humano. O “olhar” de Deus ou dos deuses a tudo via, e o universo era então regido e ordenado pelos céus. Assim, até o fim do período medieval o pensamento humano fora predominantemente teocêntrico. A tragédia da dramaturgia, dos mitos e das narrativas gregas, por exemplo, era um reflexo da visão do homem: o homem trágico, aquele cujo destino estava de antemão traçado pelos deuses ou pelas estrelas. A Modernidade inaugura, por sua vez, o homem culpado.

                        Em uma entrevista no documentário “Uma Janela da Alma” o escritor português, prêmio Nobel de Literatura, José Saramago considera os tempos atuais como uma reificação do “mito da caverna” de Platão. Nesta alegoria mítica Platão imagina homens vivendo acorrentados em uma caverna de tal forma que não podem se virar e ver a entrada da mesma. O que vêem no fundo da caverna são projeções de sombras dos animais que passam às suas costas. Certo dia um deles consegue se desacorrentar e assim sair da caverna e contemplar à luz do sol os verdadeiros objetos. Contudo, regressando à caverna e contando para os demais, o que viu, é considerado louco e ninguém acredita nele. Platão, neste mito, descreve o cerne do seu pensamento a respeito das duas formas do pensamento humano: o mundo dos sentimentos e dos fenômenos (sombras) e o mundo das coisas verdadeiras e do inteligível (idéias).

                        O que quer dizer Saramago, ao associar os dias de hoje com o mito platônico, é que hoje se vive cada vez mais e mais rapidamente o mundo sensível das sombras e das aparências. Dentro da divisão platônica dos dois mundos respira o ser humano. Como escreve Pacheco (1996 : 65), “o olho do corpo percebe o mundo empírico, o olho da alma contempla o mundo das Idéias e nele desvenda as essências”.

                        O sujeito é tema por excelência da Filosofia, mas o sujeito também interessa a Psicologia tanto na sua construção quanto no surgimento da singularidade do próprio sujeito. A noção e conceito de sujeito é um dos temas mais centrais, senão o mais central, da nossa contemporaneidade. O sujeito fragmentado, esfacelado, fraturado e deslocado dos dias atuais, tem-se transformado em importante foco de estudo e reflexão dos vários campos do saber das ciências humanas.

                        Ontologicamente desde a Antiguidade Clássica da Grécia o sujeito sempre foi um conceito a se pensar e a se questionar. Em tempos modernos problematiza-se a dialética entre o sujeito de outrora, mas que se faz ainda presente nos resquícios do hoje, e o sujeito do por vir. Esta é a eterna pergunta humana: de onde viemos, o que somos e o que seremos ou para onde vamos. O ser humano desde que se conhece como ser humano necessita saber que está vivo por algum motivo.

                        A modernidade descobre a psicologia que há no ser humano. Para isso foi preciso uma ruptura com o sujeito contemplativo de antes ao fundar o sujeito reflexivo da modernidade. Como diz Pacheco (1996), com Descartes localiza-se simbolicamente o sujeito através do “eu penso” (cogito). A certeza do existir é o pensar, e o homem ao se aproximar de si como consciência inaugura o sujeito enquanto subjetivação.

                        Na genealogia do sujeito, refere Foucault (1981), o homem é uma invenção recente. Ao se colocar como objeto para o pensamento (iluminismo) o ser humano descobre em si o sujeito. Ao romper com o homem medieval – cujo pensamento se baseava nas crenças, nas tradições, no mítico e no místico – o homem da modernidade dá o grande passo ou o grande salto de se assumir como senhor do seu destino. Não mais os deuses ou designo divinos a conduzir sua vida, mas o próprio homem: razão e escolha. A sina e o destino trágico dão lugar, repetimos, à culpa e à responsabilidade. Como também afirma Pacheco (op. cit.): o derradeiro destino do sujeito é ser autor.

                        É célebre a passagem escrita por Nietzsche (1976) sobre o insensato em seu livro “A Gaia Ciência”. Fala Nietzsche de um louco que um dia correndo em praça pública grita ansiosamente à procura de Deus. A maioria das pessoas que lá estavam não acreditavam em Deus e riram do louco. De repente exclama o louco: “para onde Deus foi? Vou lhes dizer. Nós o matamos, vós e eu! Nós todos, nós somos seus assassinos!”. E prossegue: “como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? … Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estaremos caindo incessantemente?… Não sentimos na face o sopro do vazio?… Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos!”. E após pronunciar tão desesperadas palavras, o insensato calou. Todos estavam ao seu redor também calados e com olhares de espanto. “Chego muito cedo – disse então o louco – meu tempo não é chegado”. E entoou, em diversas igrejas, o seu Requiem aeternam Deo.

                        A Modernidade instaura um novo Homem. Galileu e Copérnico com a teoria heliocêntrica não apenas deslocaram a Terra do centro do universo, como refere Aranha e Martins (1993), mas igualmente esfacelaram uma construção estética que ordenava o espaço e a hierarquia do mundo que dividia o mundo entre o “mundo superior dos céus” e o “mundo inferior e corruptível da terra”. Vem daí a famosa frase de Pascal (apud Aranha e Martins, op. cit.): “o silêncio desses espaços infinitos me apavora”.

                        O novo Homem nasce da decadência escolástica e das transformações sócio-históricas que provocam o advento da classe burguesa emergente e o fim do modo de produção escravista do sistema econômico feudal baseado na relação de vassalagem e suseranato. O mundo que daí começa é o mundo do capitalismo e o saber, como expressão da nova ordem social, deixa de ser apenas contemplativo e finalista e passa ligar-se à técnica e a servir à emergente classe burguesa (Aranha e Martins, 1993)

                        Deixando de ser o pensamento predominantemente teocêntrico, o homem moderno, colocando-se a si próprio como o centro dos interesses e das decisões, descobre a sua subjetividade. Subverte-se a ordem de até então, e como que perplexo e em ansiedade, o homem vê seu mundo centralizado e ordenado dissolver-se. O homem moderno, portanto, descobre-se “órfão de Deus”, ao menos de um Deus descritivamente medieval. Centrado agora na racionalidade navega o homem moderno em novos e inusitados mares.

                        Embarcadas na modernidade as sociedades ocidentais se organizam sob novas formas de produção, consumo e comunicação. Instala-se gradualmente a economia de mercado que, como diz Touraine (1996), tudo permite, mas nada regula. A crença é substituída pela ciência, assim como a sociedade de reprodução se vê modificada para uma sociedade de produção. Contudo, se a modernidade desencantou o mundo, tal desencantamento não produziu em si o triunfo do homem racional (cogito ergo sum). A modernidade não cumpriu sua promessa implícita de libertar o homem. É verdade, ao menos nos parece ser, que a modernidade libertou-nos do mundo das trevas e da ignorância, porém algo de isolamento e servidão permanece. O homem contemporâneo, herdeiro da modernidade, acha-se a serviço do lucro e do silêncio do sujeito reflexivo.

A modernidade de certa maneira se esgota e nos prende em uma armadilha gerada pela contradição entre o indivíduo e seu livre arbítrio e a cultura de massa. Denuncia Touraine (op.cit.) que hoje vivemos no barulho e perdidos na multidão. A racionalidade redentora do conhecimento transformou-se no sentimento angustiante do sem-sentido da racionalidade instrumental. A cultura, como que enclausurada na técnica e na prática instrumental, gera, a partir da modernidade e do seu esgotamento, o ovo da serpente: a pós-modernidade. O Cogito descarteano que buscou responder a pergunta “quem sou” através da resposta do “eu e seus pensamentos” parece se ver reduzido ou até mesmo eclipsado pela procura incessante do êxito econômico e da eficácia técnica. Talvez estivesse certo Nietzsche (1976) e seu insensato em suas indagações: “que expiações, que jogos sagrados teremos que inventar?”. “Não seremos forçados a tornarmo-nos deuses para parecermos, pelo menos, dignos de deuses?”.

O mundo, ou mais predominantemente a sociedade ocidental, vem sofrendo aceleradas e vertiginosas transformações. Novos paradigmas de cultura e subjetividade jogam o homem contemporâneo em um cenário social cada vez mais narcísico, onde o sujeito vale pelo que aparenta ser, ao invés do que ele realmente é. Uma sociedade de simulações e simulacros, nos dizeres de Baudrillard. Todo esse processo resulta, inevitavelmente, em uma crise de identidade do ser humano atual. Como comenta Zimerman (2004), parte da angústia social reside em uma crescente necessidade de exitismo, em uma quase tresloucada e insaciável busca por êxitos, famas e de se ser interminavelmente bem-sucedido. Ou como revela Bauman (1998): a contemporaneidade transforma a identidade, que antes era uma questão de “atribuição”, em uma questão de “realização”.

Falar de modernidade é conjuntamente falar de capitalismo. O capitalismo é um sistema de produção de mercadorias que paralelamente transforma a própria força de trabalho humano também em mercadoria. Após o período histórico chamado de Industrial, as sociedades pós-industriais (identificadas pela ampliação do setor terciário/serviços) começam e se tornam dependentes da tecnologia e da comunicação. A vida das pessoas é invadida pela publicidade e pelo consumo exacerbado e alienante. Necessidades humanas são artificialmente estimuladas, tais como: não se veste mais roupas, porém grifes; não se bebem refrigerantes ou cervejas, porém slogans; não se compra carros como meio de transporte ágil, porém status; não se compra celulares; porém design; não se compra refrigeradores ou máquinas de lavar; porém felicidade… O consumidor real, afirma Debord (1997), torna-se consumidor de ilusões.

Baudrillard (2000) esmiúça bem a lógica da questão. Compara ele o poder da publicidade com a história de Papai Noel. A crença em Papai Noel é uma fabulação criada para as crianças em sua segunda infância e que mantém nela suas relações com a primeira infância. A idéia de Papai Noel é assim um prolongamento miraculoso do ideal, ou seja, não importa se existe Papai Noel, o que vale e importa é que através dessa ficção mantém-se a solicitude dos pais e seus cuidados. Os presentes tão somente sancionam o jogo e o compromisso. Assim também ocorre na publicidade. Baudrillard expõe que não é o discurso informativo das virtudes do produto com que a publicidade convence o consumidor, mas o signo ilegível à consciência que atinge lá no fundo de nós a mesma criança que regressivamente “necessitava” de Papai Noel. Como diz Baudrillard (op.cit.), “esse objeto, o senhor não o comprou, o senhor sim emitiu o seu desejo”. É o mesmo mecanismo psicológico que na infância nos faz confundir a mãe com o que ela nos dá.

A questão não é o consumo, ato humano vital à vida pelo o qual atendemos nossas necessidades de sobrevivência. A questão é o consumismo alienado e supérfluo que metamorfisa os seres humanos em uma enorme massa de consumidores semi-analfabetos, no sentido que não se pensa o produto culturalmente consumido, apenas se consume e pronto. E assim, o homem contemporâneo, no corre-corre da relação produto-consumo, não se vê explorado e alienado de sua liberdade. O homem da modernidade que se supôs, pela razão, o centro de si, descentraliza-se ao se encontrar sem ver destituído de sua dimensão crítica.

A chamada “Escola de Frankfurt” (grupo de pensadores críticos da sociedade contemporânea), já desde a primeira metade do século XX, analisa com profundidade as raízes das contradições sociais atuais. Adorno, Marcuse, Horkheimer, Habermas, entre outros, denunciam a perda da autonomia do sujeito na domesticação do mesmo pela sociedade baseada em uma indústria de massa. Marcuse (1973), por exemplo, fala da unidimensionalidade. O homem pós-industrial acha-se iludido na idéia de que se é livre e que faz escolhas. Ele sem se saber é escravo do sistema que um dia criou, como quando parece não conseguir viver sem bens de consumo do tipo internet, celular, televisão, etc., sem os quais se sentiria lançado em uma espécie de vazio traumático. O sujeito, assim, perde a sua condição de sujeito ao ser nivelado em um monótono universo unidimensional em que todos pensam, julgam, desejam e comportam-se de maneira igual.

Se for fato como diz McLuhan (2000) de que o poderio tecnológico tomou conta do ambiente global (ambiência tecnológica) e que passamos hoje da produção de mercadorias empacotadas para o empacotamento da informação, até o lazer pode ser alienado. No esvaziamento da crítica e da refletividade a “indústria do entretenimento” escolhe por nós o que fazermos com o nosso tempo livre (pós-trabalho). Assim ditam modas e modismos, o bar do instante, a novela imperdível, a boate para se ser visto, a cor do verão, a praia badalada, o livro de auto-ajuda que mudará nossas vidas, o filme de que todos falam premiadíssimo de oscares, os novos e coloridos games, a bebida que o ídolo bebe, as tramóias e tramas dos big brothers, as revistas de fofoca sobre celebridades, as viagens e os cassinos do momento, entre programas vários. No lazer passivo, como expressa Aranha e Martins (1993 : 18) o ser humano “não reorganiza a informação recebida ou a ação executada, de modo que elas nada acrescentam de novo, ao contrário, reforçam os comportamentos mecanizados”.

Com a automação do trabalho a partir da revolução industrial e do avanço tecnológico das últimas décadas o homem se viu permitido a dispor de mais tempo livre além do trabalho. As horas vagas, contudo, ao invés de emanciparem os homens dos esforços do labor levando-os a outras atividades ditas “superiores”, geraram um incremento consumista que é da natureza e do apetite humano. Analisa Arendt (1999) que o consumo não mais restringiu-se às necessidades de sobrevivência e manutenção da vida, mas principalmente às superfluidades da vida. Alerta-nos a filósofa sobre o perigo de se chegar o momento em que nenhum objeto do mundo ficará a salvo da própria aniquilação através do consumo. Diz Arendt (1999 : 147) que um dos óbvios sinais de perigo é a medida “em que toda nossa economia já se tornou uma economia de desperdício, no qual todas as coisas devem ser devoradas e abandonadas quase tão rapidamente quanto surgem no mundo, a fim de que o processo não chegue a um fim repentino e catastrófico”. Portanto, desde meados dos anos 50 do século XX, Arendt denunciava que o perigo de uma sociedade baseada no consumo é o deslumbre ante a abundância interminável onde o sujeito não se reconheceria sua própria futilidade, futilidade de uma vida – como afirma – que não se fixa nem se realiza em coisa alguma que seja permanente.

Em seu hoje clássico livro “A Sociedade do Espetáculo”, publicado no ano de 1967, Debord (1997) ensina-nos que o espetáculo domina o homem contemporâneo da sociedade ocidental. O espetáculo, escreve o citado autor, é a afirmação da aparência, como se toda a vida humana fosse uma mera aparência. Cada vez mais não se vive a vida, assiste-se a vida em televisões, cinemas, Dvds, revistas, vídeos e telas de computador. Ao representá-la como espetáculo o que se tem de verdade é a negação da vida e esta negação se faz visível como se fosse a própria vida. Se antes um dos grandes dilemas humanos era entre o “ser” e o “ter”, agora atomizamos a questão para a esfera do “parecer”. O capitalismo, assim, se torna imagem.

Dentro dessa ótica o sujeito desencontra-se dos demais sujeitos. De que forma isso se dá?  O sujeito desalojado de suas relações intersubjetivas supre a ausência real e íntima do encontro por uma espécie de alucinação social. Como acima dissemos cada vez mais se assiste a vida ao invés de vivê-la. Espectador, é o homem da atualidade prisioneiro de pequenos espaços achatados (telas de espetáculo, como diz Debord), e em tais telas expande-se o sujeito como se em uma imagem refletida no espelho. Expliquemos melhor. Ao se assistir a vida e o mundo na presença de suas imagens o real se falsifica. Confunde a imagem filmada por uma câmara qualquer como se tal ângulo em que a imagem é feita e posteriormente editada com a própria realidade. Neste sentido, diz Debord (op.cit.), encena-se a falsa saída de um autismo generalizado, suprimindo-se os limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento da verdade vivida em sua inteireza frente a uma realidade que se presentifica na organização da aparência. O homem espectador não se apercebe, embora intuitivamente sinta, estar à margem da existência.

Talvez possa ser lugar comum afirmar que os tempos atuais em que estamos inseridos, ou melhor, o “sistema” e a nova ordem social que organiza nossas vidas, se expressam em mundo fragmentado de objetos virtuais e de consumo dos mesmos de maneira imediata, veloz, irreflexiva e excessiva. A contemporaneidade, chamada por tantos de pós-modernidade, é uma era de saturações. A abundância, a opulência, o excesso e a multiplicação constante de objetos concretos e de imagens, nos rodeiam de tal maneira e forma que nos vemos mais cercados de objetos do que de pessoas. A proximidade tão decantada pelo discurso da globalidade e da informática não se cumpre. O mundo sem-fronteiras (aldeia global) parece mais um mundo mínimo impregnado de quinquilharias onde se vê em estado de sufocamento o homem contemporâneo. Como comenta Baudrillard (1987 : 15), “começamos a viver menos na proximidade dos outros homens, na sua presença e no seu discurso; e mais sob o olhar mudo dos objetos que nos repetem sempre o mesmo discurso – isto é, o do nosso poder medusado, da nossa abundância virtual, da ausência mútua de uns aos outros”. O tédio que isso tudo pode nos propiciar é retro-alimentado pelo consumo repetitivo de roupas, Cds, aparelhos e objetos vários, como se assim pudéssemos aliviar ou suprir o vazio de uma existência fútil e sem-sentido, como se fossemos uma espécie de novas Madames Bovary a seguir a risca roteiros escritos e pré-determinados por um Flaubert pós-moderno. Enquanto a Emma Bovary literária (Flaubert, 1982) buscava nos homens a resposta para a indagação “quem sou” e assim fugir de sua vida medíocre e provinciana para uma vida romântica e de aventuras, o homem da pós-modernidade parece querer transcender do seu vazio e tédio através dos objetos consumíveis e descartáveis, bem como vivendo as fantasias das imagens e das personagens fictícias que funcionam como interlocutores entre nossos sonhos e as telas para onde em grande parte foi deportada a vida. Lembremos mais uma vez Debord (1997) para quem o consumidor real transformou-se em consumidor de ilusões.

                        A pós-modernidade, que também pode ser chamada de “sociedade pós-industrial”, tem como essência a substituição da palavra pela imagem, do real pelo simulacro (alguém, inclusive, já pregou o “fim do livro”, assim como se pregou o “fim da história”). Se na modernidade tínhamos a certeza encontrada pela razão, na pós-modernidade o que impera é a incerteza e a relatividade. Muitos chegam a afirmar que estamos vivendo o limiar de uma nova era e que os dias atuais são dias de transição. Seja como for chamado o momento e os tempos em que vivemos – “sociedade de consumo”, “sociedade da informação”, “sociedade pós-industrial”, “sociedade pós-moderna” e outros tantos pós – o estado das coisas e os fatos parecem apontar e nos sugerir uma época de crise: crise moral, crise emocional, crise religiosa, crise de valores, crise existencial. Como diz Ferreira (1998), ao conceito de crise associamos à idéia de ruptura, e nessa situação ruptiva e transitiva subverte-se a tradição existente nas práticas, levando aos ajustes e às mudanças paradigmáticas.   

                        Viviane Forrester (1997) em seu pequeno, porém profundo livro “O Horror Econômico”, por sua vez, comenta que vivemos em meio a um grande engodo, o engodo de um mundo para si desaparecido e que teimamos em não reconhecer como tal. Indaga quando tomaremos ciência e consciência de que não há crise, nem crises, mas mutação? Não mutação de uma sociedade, mas mutação brutal de uma civilização. Para Forrester estamos participando de uma nova era, sem conseguir observá-la. Sem admitir e sequer perceber que a era anterior desapareceu.

                        Crise ou mutação, a questão do vazio existencial em relação ao mundo atual parece-nos pertinente e fundamental. Como se encontra o sujeito, sua subjetividade e singularidade em meio à sacralização do mercado, do desemprego, da explosão tecnológica, do sexo virtual, dos novos arranjos e configurações familiares, da engenharia genética, da cultura de massa, do aumento de concentração urbana, do crescimento da violência social, da crise de valores e desconfiança e descrença nas instituições tradicionais? Como já comentamos na introdução de um livro nosso, “A Dialética Terapêutica” (Mello, 2003) não é à toa que em geral o ser humano se ache assim tão vazio e solitário frente a um presente veloz e voraz e de futuro incerto, e em meio a uma multidão de solitários concentrados em metrópoles. Não é à toa também que se vendam tantos livros de auto-ajuda, lotem-se consultórios terapêuticos, que prolifere quase uma farmácia por esquina e que se consuma em quantidades cada vez mais elevadas prozac, zolofl, viagra e várias drogas outras que prometem a tão decantada felicidade.

                        Na cultura dos fast foods e dos aparelhos que ficam obsoletos em menos de dois anos, busca o homem contemporâneo o prazer e o gozo imediatos. A busca do prazer e do gozo é da essência humana em qualquer período de sua história, é verdade. Porém, o que hoje mais acontece é o prazer imediato através da lei do menor esforço, um gozo ilimitado e sem restrições. O outro, assim, passa muitas vezes a ser visto como simples objeto de prazer, contaminando a maneira de se amar, ou seja, a intimidade, a mutualidade e o compromisso ficam comprometidos, sacrificados que são em nome das efemeridades das paixões momentâneas. A diferença torna-se um estorvo e um incômodo, e as relações amorosas, por exemplo, mal suportam e se mantêm além das primeiras divergências. E dentro desse contexto vai se fomentando um sujeito sem o outro, um sujeito sem objeto, que é um sujeito privado da alteridade e da diferença.

                        Enrique Rojas, citado por Nolasco (2001), no tocante ao sujeito sem referências, analisa as bases do bem-estar contemporâneo naquilo que ele denominou de teatrologia niilista, composta por: hedonismo, consumismo, permissividade, relatividade e materialismo. É bastante interessante o que ele vem classificar de hombre light, um sujeito consumidor de comidas sem calorias, cervejas sem álcool, adoçantes sem açúcar, café sem cafeínas, entre tantos outros produtos lights. Um homem sem substância, como diz ele, apenas entregue a ganância pelo dinheiro, poder, status, êxito e gozo irrestrito.

                        Se para muitos a pós-modernidade representa uma ruptura com os ideais da modernidade, para uns tantos outros representa uma revolução cultural. Ao se querer “quebrar” os ideais e verdades concebidas pelo racionalismo moderno, a pós-modernidade propõe realmente um novo paradigma onde tudo parece ser ilusório ou relativo, onde não existem verdades “verdadeiras”. Para a concepção pós-moderna a única verdade é a ausência de verdade. Assim, tudo parece puramente relativo e ilusório, gerando-se uma idéia imediatista para a vida. Na ânsia despertada de que a sociedade aprisiona o homem, vive-se em procura de sensações e emoções sem limites. É como se quiséssemos libertar o ID de qualquer Superego. É como se buscássemos viver naquela máxima do: “viva intensamente e morra jovem”.

                        Tal ideário embutido no projeto pós-moderno esvazia o sujeito contemporâneo de um objetivo de vida. A vida é rápida – dizem – e deve ser vivida rapidamente, não importando o amanhã. O presente é que vale. E nesse propósito subjetivo percebe-se claramente o seu forte apelo hedonista: experimentar fortes sentimentos de prazer e secundariamente evitar a dor. Abandona-se, pois, em grande parte, a racionalidade, priorizando-se quase que exclusivamente tão somente a sensibilidade.  Embora não se evidencie com nitidez no discurso pós-moderno, a pós-modernidade parece produzir uma espécie de culto implícito da morte, como se o depois não existisse. Tudo ou quase tudo deve ser morto no instante o mais rapidamente (objetos, idéias, gostos ou pessoas).

                        Pelo acima exposto, não difícil entender porque o audiovisual é o meio por excelência do discurso pós-moderno, pois se transmite a visão de realidade velozmente e se atinge mais imediatamente os sentidos humanos (visão e audição) sem tanto refletividade. A literatura e a poesia, por exemplo, dependem de um grau mais elevado de abstração e interação lógica com o intelecto. A realidade e suas complexidades, portanto, passa a ser menos validada ou questionada pelas letras e palavras impressas em papel, para ser mais, cada vez mais, uma seqüência de imagens formadas por circuitos eletrônicos. Talvez por isso se aluguem mais Dvds e fitas de vídeo (por enquanto, logo não se terá mais fitas de vídeo), ao invés de se comprar ou ler livros.

                        Pós-modernidade produz pessoas pós-modernas. Entenda o leitor que não estamos aqui, ao destacar os aspectos nocivos, deletérios e corrosivos da pós-modernidade, querendo com isso sermos nostálgicos de tempos outros. O que nos importa no âmbito e no pequeno espaço do presente ensaio, é refletir sobre os desafios do sujeito contemporâneo. Crise, mutação, transição, ou não, indagamos quem é o sujeito contemporâneo? Vive ele a orfandade de um mundo desencantado de que tanto falava Max Weber? É ele um saudosista melancólico das marcas de um absoluto que não há mais? – como afirma Poian (2001) em seu texto sobre a psicanálise, o sujeito e o vazio contemporâneo.

                        Dentro de um contexto pretensamente “libertador” , onde o sujeito transforma-se um acumulador de sensações e colecionador de experiências, as práticas sexuais também sofrem conseqüentes transformações. Se na época de nossos pais ou avós os relacionamentos de prazer estavam ligados aos direitos e deveres dos compromissos afetivos, nos dias que hoje se seguem há um evidente desligamento entre ambos. O amor erótico parece predominar e até mesmo soterrar o amor romântico. Do encontro sexual ocasional nada, à exceção de algumas lembranças vagas das sensações e prazeres vividos, resulta aos dias seguintes. A sexualidade meramente passageira e plastificada das confluências momentâneas não consegue, regra geral, extrapolar os limites dos preservativos utilizados. Neste tocante, resume Bauman (1998 : 184), “nada resulta do encontro sexual, salvo o próprio sexo e as sensações que acompanham o encontro; o sexo, pode-se dizer, saiu da casa familiar para a rua, onde apenas os transeuntes mais acidentais encontram – enquanto encontram – sabe que cedo ou mais tarde (antes mais cedo do que mais tarde) seus caminhos são obrigados a se separar novamente”. Se para Max Weber a separação entre a casa (espaço privado) e o negócio (espaço público) foi um dos principais processos fundadores da modernidade, para Bauman o divórcio entre o sexo e a família caracteriza um dos elementos constitutivos da pós-modernidade.

                        As recentes décadas foram fortemente marcadas por uma ânsia inconsumável de liberdade pela liberdade, gerando, consequentemente, ansiedades e angústias características dos tempos atuais. A velocidade – seja ela econômica, tecnológica ou cultural – a que somos submetidos em nosso dia-a-dia engendra um mal-estar proveniente da insegurança e da incerteza com que vivemos o cotidiano. O termo insegurança ontológica é pertinente ao sujeito de então. Ao abrir mão da segurança pela liberdade, como analisa Bauman (op. cit.), fragiliza a subjetividade de um sujeito deslocado que, por sua vez, é reflexo da própria crise e fragilidade por que passam as instituições sociais. Há algo de acelerado na pós-modernidade e essa aceleração vem celebrar idéias de libertação. Assim como no expressionismo das artes plásticas, que libertou os artistas dos ditames das artes de então, o sujeito pós-moderno tem a sensação de se encontrar liberto, liberto de tudo.

                        Concordamos com as análises de Baudrillard, Edgar Morin, Nolasco, entre outros, percebe-se que em grande parte o pensamento pós-moderno funda-se na representação do artifício da imagem, da simulação e do simulacro. Morin, por exemplo, citado por Nolasco (2001), expõe a ambigüidade e conflito do homem contemporâneo: o de viver entre a realidade e a ficção. Para Morin o sujeito contemporâneo toma a si próprio como um personagem a viver a sua vida em uma espécie de “roteiro cinematográfico”. Comparemos com o livro “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde (1981). Trata-se da história de um rapaz que faz um pacto com o diabo. Tal pacto é vender sua alma em troca de uma beleza e juventude perene. Enquanto o tempo passa o envelhecer e as marcas da vida vão ficando registradas e retidas no quadro que o retrata e é a todos escondido. Porém, a aparência e a imagem externa com que Gray se apresenta aos demais continua jovem e bela. Não é, assim, Dorian Gray que vive a vida, mas uma imagem em seu lugar. Não há transparência entre o que se vê por fora, ou o que se pensa ver, com o que se passa por dentro. Preserva-se a aparência externa, apodrecendo-se internamente. \o verdadeiro rosto de Dorian Gray, ao mesmo tempo em que se oculta aos outros, lhe escapa (talvez aqui possamos estabelecer alguma relação com o falso self e o verdadeiro self de Winnicott). E o que vê o outro senão superfícies e artificialidades. Dessa forma não há de se falar em alteridade, mas em vazios e silêncios.

                        Há tantos outros a nos olhar e potencialmente tantos outros que podem vir a nos olhar. Há outros em demasia, em abundância, a tal ponto que no excesso se corre o risco de autenticamente não haver outro algum. É tão fácil a oferta de corpos que, moralismo à parte, o que se tem muitas vezes são corpos ocos de sujeito. Relações de utilidade e posterior descartabilidade, verdadeiras relações “eu-isso” buberianas. Afirma Buber (1979) que o mundo do “eu-isso” é o mundo da experiência. O que funda o mundo da relação é o “eu-tu”. Relação é reciprocidade. O homem que se conforma com o mundo do “isso”, continua Buber, como algo a ser apenas experimentado e utilizado, faz malograr o destino humano que é o de se relacionar.  Sem o face-a-face que somente o tempo e a convivência consolidam, em lugar de se libertar reprime-se o homem em suas fragmentações atuais. Aparências e virtualidades são o fora de um corpo. Os sentimentos habitam o dentro, onde lá se vive o sujeito de cada um. 

                        E assim, de mão em mão, de corpo em corpo, muitas vivem – principalmente os que habitam metrópoles e centros urbanos de elevada concentração populacional – encontros estéreis e esvaziados da linearidade temporal, isto é, de tempos futuros construídos de passados e presentes. O amor sonhador aprisiona-se por detrás de medos e temores, afinal para tantos é apenas melhor “curtir” do que correr riscos de se investir afetivamente e depois vir a se frustrar ou ser abandonado pelo objeto não mais somente erótico, mas também amado. Paradoxo contemporâneo este: evitar sofrer decepções amorosas não leva à ausência de sofrimento, ao contrário, sofre-se mais de silenciosos ou ruidantes sentimentos de solidão.

                        As transformações dos costumes sexuais engendraram inúmeras questões de ajustamento. O sexo que deixou a casa e foi à rua, como diz Bauman (1998), e se isolou de outras formas de relacionamentos ditos familiares, esvaziou estruturas que até então eram mais sólidas ou elásticas (maritais, parentais, por exemplo). Acontece que tais estruturas propiciavam não somente direitos e deveres, mas também laços de pertença e proteção. A emoção e sensação em abundâncias inviabilizam a permanência. Os encontros, nesse aspecto, são mais desencontros, vez que têm caráter fugaz e inconseqüente. O sexo, enquanto apenas sexo, menos liberta e mais desvia, principalmente por despir as relações interpessoais de intimidade e troca. As relações humanas, assim, não ficam sendo “lugares” para se entrar, mas para transitar. Retornemos a Bauman (op. cit.) para quem atualmente os indivíduos se “empenham socialmente” em serem consumidores e não produtores. Os estímulos contínuos de novos desejos esmorecem antigos e legítimos desejos de permanência. Os corpos podem até se aproximar, porém as pessoas são mantidas à distância. A exploração hedonista do sexo – afirma Bauman – “esfria” as relações humanas de outros aspectos não menos humanos. O amor eroticamente reduzido a apenas sexo impessoaliza o encontro e a parceria.

                        Consumem-se pessoas como se consume objetos. Em uma sociedade repleta de abundâncias (serviços, bens materiais e sexualidade em fartura visual e corpórea), na opulência da oferta em relação à procura, cria-se e vive-se a lógica do consumo: não se produz para durar. Para que a abundância se perpetue é preciso haver desperdício. Diz Baudrillard (1987) que nesta fauna e flora vegeta o novo homem selvagem dos tempos modernos, este homem da opulência que não se encontra mais rodeado de outros homens, mas mais por objetos. Entretanto acha-se o homem de hoje satisfeito nessa relação de abundância e desperdício? Parece que não. Os discursos em consultórios dizem que não.

Freud nos educou que a civilização se constrói sobre renúncia aos instintos, leia-se: sexualidade e agressividade. Todavia, em um excessivo limitar de liberdade reesulta naquilo que ele nomeou de “o mal-estar da civilização”. É humano o prazer que no humano se reivindica, mas o inverso também gera mal-estar. Na relação entre satisfação e segurança não é no intermédio que está a questão e sim nos extremos, nos excessos. Se por segurança abri-se mão da liberdade provoca-se mal-estar, também ao se abrir mão da segurança em nome da liberdade individual exacerbada nos propicia mal-estar. Momentos episódicos de satisfação não garante estado de satisfação. Ou como diz Bauman (1998 : 10), “os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava  uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais”. Disso resulta, possivelmente, uma das bases existenciais da incerteza com que vive o homem de agora o seu presente.

                        Na parte ocidental do mundo vivem-se dias de incertezas. Redes se segurança que davam ao sujeito sustentação nos seus piores instantes – tais como a comunidade próxima, a vizinhança e a família – se apresentam escarnecidas. O espírito consumista dos dias atuais não nos propicia laços duradouros nas relações inter-sujeitos. O outro não é algo, ou melhor, alguém para se durar, porém fontes de experiências e prazeres. Hoje se relatam mais histórias de aventuras passageiras do que se vive a história de uma relação arduamente construída no tempo. O homem de agora, genericamente falando, vagueia como alguém sozinho em meio a uma multidão de outros homens. De estranha forma e maneira, nesse cenário de descartabilidade, o outro que é buscado é um outro temido. No pragmatismo consumista se solicita dos outros repetidos novos começos rodiziáveis.

                        Vive-se um presente que pouco serve para ordenar o futuro, onde se busca na intensificação das experiências de hoje aspirações e expectativas que não podem ser projetados no amanhã. O imediato de agora pelo agora esvazia existencialmente o sujeito de projetos de vida, fixando-o em um projeto rompido de futuros, através do desejo de se viver apenas o momento. A procura pelo prazer imediato constrói assim painéis de vazios existenciais marcados de incertezas, inseguranças e solidão. Para Birman (1999) o sujeito ao se aprisionar sem se perceber em um sistema social em que imperam o narcisismo e o espetáculo, encontra-se silenciado em sua própria subjetividade de se reinventar enquanto sujeito.

                        O vazio de que fala o título do presente ensaio é resultado do esvaziamento do intersubjetivo, isto é, do desinvestimento das trocas interpessoais pela intensificação narcísica do eu dentro de um modelo de subjetividade gerado em um ambiente sócio-cultural exibicionista e de estetização das aparências (Birman, op. cit.). No enaltecimento exacerbado da individualidade do eu se forjam novas modalidades de sofrimento e mal-estar perversas, adictas, esquizoidias, bordelines e depressivas – cultuadas pelas novas modalidades de construção subjetiva. Para Birman a ordem da cultura do narcisismo tem como característica tanto a mediocridade simbólica como a pobreza erótica. Trata-se, como diz ele, de uma forma perversa de existência: um sujeito fora-de-si.

                        A cultura do narcisismo impera. Vivemos uma contemporaneidade em que se prosperam imagens e mais imagens, onde o caminho da felicidade resume-se ao consumo de bens materiais. Exige-se cada vez mais, e cada vez mais cedo na criança, êxitos e mais êxitos (sofre-se de verdadeiras síndromes de loser). Teme-se o corpo em seus sinais de envelhecimento na ânsia inquietante da “eterna juventude”. Nos auto-cobramos perfeições inatingíveis e nos angustiamos por não corresponder na realidade aos egos ideais alimentados por ícones de uma por cultura que fabrica celebridades em profusão praticamente interminável. Na fome por novidades excitantes esquece-se o que há de novo nos aprofundamentos das relações inter-humanas e suas singularidades. Deprimimo-nos mais em decorrência de fracassos narcisistas, porque sofremos mais diante das demandas severas de sucesso, dinheiro, status e poder. E assim, magnetizados e aprisionados ao credo individualista vive-se em permanentes sentimentos de solidão em um mundo de repetitivos ciclos de desejos e idealizações temporárias.

                        A baixa auto-estima e a depressão são sintomas mais evidentes de nossa era. O sujeito da dita pós-modernidade carece de melhores contornos e limites. Seduzido, fascinado e ofuscado pela abundância oferecida por uma economia cuja lógica consumista é o desperdício, vive-se uma vida fútil onde o tecnicismo desdobrou-se em todos os setores da vida humana, resultando em um instantaneísmo das próprias relações entre os sujeitos. A velocidade que caracteriza os tempos atuais não apenas trouxe mudanças radicais de valores, como também colocou a subjetividade em perda com padrões identificatórios significativos e o sujeito em crise com sua própria identidade. Na expressão de Paul Israël (apud Da Poian, 2001) o mundo de então desumanizou o sujeito.

                        Perplexo também ante a desvitalização e fragilização do eu em relação ao sentimento de existir e pelo desencanto da liberdade prometida que não se cumpriu, pergunta-se o poeta Carlos Drummond de Andrade (2001) em seu famoso poema “José”: “e agora José?”. A festa acabou e José está sem discurso e sem caminho. O dia não veio e nem a utopia. Tudo mofou. Embora não saiba para onde ir (“quer abrir a porta/não existe porta”) José não morre, José é duro. “Sozinho no escuro/qual bicho do mato/sem teogonia/sem parede nua/ para se encostar”, José marcha. “José, para onde?”.

                        Este é o nosso desafio: compreender o que se passa com os Josés da contemporaneidade. Todos somos José. É necessário refletir mais nossa leitura da subjetividade à luz das raízes sócio-culturais. Não podemos ficar míopes frente ao desamparo do sujeito e seus mal-estares atuais. O campo social nos forma, assim como o Dna, as células e as pulsões. Debrucemo-nos mais criticamente sobre as novas formas com as quais são fabricadas as subjetividades de agora. O sujeito sofrente precisa que o escutemos além dos sintomas com que se queixam. Na homogeneidade em que se encontra mergulhado, o eu necessita ser escutado. Ontem, hoje e amanhã, todos querem saber quem somos e para onde vamos. Por mais diminuído que possa estar o eu, por mais desalojado e paralisado que ele se encontre, o eu não morreu. Vive ele hoje cada vez mais reprimido em um sistema sócio-econômico que se auto-aliena. Este é o nosso desafio: o desafio dos que vivem a contemporaneidade.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2 Respostas to 'ENSAIO'

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  1. […] comecei a ler um livro apocalíptico e surpreendente sobre a sociedade na qual acreditamos viver: O Horror Econômico, de Viviane […]

  2. José Luciano de Carvalho OLiveira said,

    Navegando pela internet deparei-me com este excelente ensaio.
    Pretendo gozar do privilégio de receber novos artigos via e-mail.

    Muito grato,

    Luciano OLiveira
    zeluciano.sgc@gmail.com


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