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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009

UM INVERNO EM PLENO VERÃO

Ele quase a encontrou naquela tarde em que o cinza encobria os móveis, as coisas e as pessoas, derramando-se por todos os cantos, quinas, paredes, chãos, tetos… feito luminosidade tardia de um anoitecer. O céu inteiro anunciava a chuva que não vinha, enquanto o homem de meia-idade vivia a sobra-metade de uma espera. Este homem, em sua incessante busca sem espantos em meio a tantos rostos que não o dela, era como a tarde enfraquecendo-se de brilho no passar do intervalo passageiro do dia.
Se ao menos soubesse como ela seria, talvez assim o ajudasse a libertar dos olhos tão prisioneiro sonho. Sonho sem rosto, vulto, forma ou face, de inominada morfologia cujo nome, acaso nome porventura tivesse, o escreveria em seus cadernos com angulosas letras cheias de eternidade. Por dela nada saber, a não ser o que o sonho a si falava, restava-lhe procurar aqui, ali, acolá, em cada mulher que dele se aproximava, o reconhecimento de tamanho amor ainda não amado. Conhecem aqueles que amam sem objeto o esmagamento sufocante que sofre o peito ao pulsar e pulsar inamados afetos na destituída reciprocidade de um vazio.
Na tarde em que tardava a chuva, encontrava-se ele no aguardo de um presente tão distante quanto o futuro é de um passado. Intervalava-se assim entre nenhuma esperança e saudade alguma. Sabia ele o certo de não ter esperanças, o que tinha era a necessidade da crença. Acreditava muito mais na procura que no encontro, pois o achar finda sempre a busca e era ele ali a vida inteira somente um homem de procuras. Procurar é viver, pensava ele, enquanto alegrava-se de frustrações e isentava-se de tédio – embora o tédio acompanhe o homem, qualquer homem, em seu percurso pelas tardes indefinidas de chuva.
O mormaço era enorme e morno, ao tempo em que a chuva era promessa. Maldizia em horas essas a falta de verba e o ar-condicionado jamais comprado. A biblioteca ardia de abafamentos na elevação serena e monótona da temperatura, porém não mais e muito menos que o aquecimento do aconchegado sentimento, o qual puxava ainda mais próximo ao peito como se quisesse agasalhar-se da frigidez indiferente da própria alma. De que adianta a aproximidade dos corpos se o que se quer é a fantasia do amor incarnalizado. O corpo é o espaço de onde secretam-se encerrados prazeres liqüefeitos, já o romance habita o onírico. Um homem que assim ama, o amor que não ousa achar seu depositante corpo, entende que o amor não é cor-de-rosa, tem ele a cor dos sonhos que senão é a pigmentação incolorida que colore imaginosamente todas as ilusões.
Assim constrói o bibliotecário suas tardes invernosas de verão com a inutilidade de suas impalpáveis buscas. Ilhado em seu burocrático ofício de anos de retirar e guardar livros, protege-se do mundo corpóreo e da gravidade dos seus arriscados toques por detrás do balcão donde olha as passantes como que vê, apoiado no peitoril de uma sacada, a lonjura das ruas. O longo e linear balcão o aparta de todos, pois também sabe ele, entre tantos livrescos saberes, que só se sofre de separações quem de quem se separa se um dia dela se aproximou. Sonhos não machucam ninguém.
Havia quase em todas as mulheres que frente ao balcão passavam. A meia-vida do bibliotecário era de quases, bem como a outra metade que ainda lhe viria. Era-lhe o mundo, portanto, constituído de dois lados: o lado de cá do balcão em que se há a nostálgica lembrança dos passados extintos e o lado de lá onde o amanhã jamais será ontem, pois é o futuro apenas quase. No lado de lá reside a feliz solidão de um sonho inconsumável.
Coberto de cinza como de cinza estava seu redor, aguardava mais uma vez o homem que era meio-bibliotecário e meio-sonho. Não fora ali naquela tarde que ele a encontrou e muitas são as tardes de uma vida. Os primeiros salpicos de chuva manchavam as mesas próximas das janelas abertas. Eram pingos frágeis e curtos, aumentando o mormaço agora também cheirando o sujo quente das calçadas. Decerto a tarde ainda seria longa e logo chuveria, e em dias como aquele o quase é até então muito menos que um triz. O bibliotecário providenciou fechar as janelas e guardar os livros revestidos de cinza. Era hora também de guardar os sonhos temporariamente e encerrando os livros, encerrou a tarde.

Joaquim Cesário de Mello

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