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LIVROS & LEITORES

Posted in LIVROS & LEITORES por Joaquim Cesário de Mello em maio 23, 2009

 O LIVRO SUBMERSO: A EMERSÃO DE UM AUTOR

 

            Difícil comentar sobre um livro de um amigo, de um amigo querido. Não porque a amizade possa atrapalhar ou comedir a criticidade e a sinceridade do comentário, mas sim por se tratar de alguém mais próximo e, por isso mesmo, melhor conhecê-lo e assim minimizar o saudável risco da surpresa, a boa surpresa. Falo mais precisamente do livro recém-publicado “O LIVRO SUBMERSO” (editora Nossa Livraria/2009), do psiquiatra, professor universitário, autor de peças teatrais e agora publicamente escritor Marcos Creder.

            Só quem, talvez, não conheça a capacidade imaginativa, criativa e lúdica de Marcos Creder é que possa se surpreender na leitura de seu primeiro livro editado. Surpresa agradável e envolvente, seja esteticamente aos olhos, seja ao mexer da alma do leitor. Por que afirmo isto? Marcos é um intelectual profícuo, culto. irrequieto e insistentemente intenso. Nada parece escapar a sua atenta sensibilidade que sabe, como uma espécie análoga da Função Alfa bioniana, transformar os ruídos e zoeiras do cotidiano em elementos lingüísticos e literários. Se Maiakovski estava certo ao dizer que o poeta é  antena de uma raça, Marcos Creder é um poeta: um poeta narrador, um verdadeiro confabaludor e criador de histórias, histórias que estão aqui e acolá à espera de alguém que as descubra e Marcos é um desses predestinados às descobertas. Sua qualidade pessoal de conseguir converter a vida fluída em narrativas e textos só pode passar desapercebida por quem, realmente, não conhece Marcos e sua inquietude existencial produtiva. “Todavia, deixemos por instantes de lado o autor e vamos à sua obra (como se tal dissociação fosse possível).

            O LIVRO SUBMERSO (contos e novelas) inicialmente me frustrou, não por que não fosse bom, ao contrário, frustrou-me porque me pareceu à primeira lida um livro rápido demais, enquanto eu, como leitor, vorazmente queria mais (os kleinianos entendem o que aqui digo). Engano de minha parte. Tá um livro que pode ser pequeno (em termos quantitativo de páginas), mas que não é menor (em termos qualitativos de densidade e idéias). Entendi, a posteriori da leitura, que o texto havia provocado em mim uma reverberação imediata e consequente identificação com a personalidade da maioria dos personagens e situações vividas (Marcos tem um texto em voz masculina). Vejamos, por exemplo, “O ESPELHO” (págs. 49/61).

            Em “O ESPELHO” encontramos Otto, personagem clássica encontrável no calçadão de Boa Viagem, isto é, um puer aeternun ou mais coloquialmente falando um “meninão”, daqueles que conhecemos e que parecem congelados no tempo e que se negam ferozmente a crescer ou adultecer, embora já tenham passado até dos trinta ou mais. Conta o conto que certa vez Otto decide ir pela primeira vez ao centro da cidade (ele sempre vivera no bairro onde sempre viveu) em busca de um livro. Todavia em sua peregrinação ao centro – não nos esqueçamos que um centro de cidade é geralmente o passado desta mesma cidade – Otto acaba se deparando com um espelho que termina por adquirir e levar consigo. 

            Pois é, Otto muito bem é a verdadeira metáfora do ser humano epidérmico e superficial que vive o transcorrer dos dias e da vida na periferia capilar da mesma e à margem de si mesmo. Rumar ao centro da cidade é como rumar meta psicologicamente ao centro de si próprio (verdadeiro self?) em busca de encontrar a autenticidade deste si. E nada como a nossa própria imagem refletida em um espelho para percebermos, às vezes, que aquele rosto não nos pertence. Fernando Pessoa igualmente sabia disso quando diz no poema “Tabacaria”:

“Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado”.

            Sim, Marcos Creder é decididamente um escritor. Um escritor que aos olhos mais apressados (o livro pode ser “devorado” em torno de poucas horas, mas não é um livro para ser lido em poucas horas) parece apenas nos relatar histórias, histórias que talvez nem ouviu, nem viveu, mas que muito provavelmente brotou de suas fantasias e inventices cujas raízes encontram chão no que convencionamos chamar de inconsciente.

            Há no livro sob comento um território de desejos inconsumados, como um amor enganado e não satisfeito, ou a revelação pela palavra misteriosa que parece vir do além, bem como o reencontro do passado no futuro que acaba por reconstruir o próprio passado. Os acontecimentos relatados em contos são resultados ficcionais do autor que oferece às nossas mentes pessoas e mundos que, embora pareçam distantes e longínquos, são possíveis.

            Marcos, em seu livro de estréia, demonstra-nos um pouco de sua verve e de sua inesgotável capacidade de fabular quase como se fosse ainda uma criança, ou um menino solto de amarras em um corpo de adulto grande. Se o ID do autor é imaginativo e sublimável, seu Superego, por sua vez, é literário (para quem não sabe Marcos herda o gosto pela escrita através dos livros da biblioteca do pai).

            O LIVRO SUBMERSO é um livro de leitura fácil, ágil e vibrante – sem barroquismos estéticos ou ruminações lítero-intelectuais – que, ao mesmo tempo, nos oferece pepitas a serem descobertas como se estivéssemos em um garimpo. E as pepitas de Marcos são para ele suas gaivotas.

            Voemos, pois, com as gaivotas de Marcos. Boa leiura…

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