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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 25, 2009
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O HOMEM À MARGEM DA CIDADE

 

O ano que se inicia é igual ao que passou, já que os relógios não distinguem os dias: todos têm as mesmas horas e os mesmos minutos. O que muda é a seqüência dos números nas semanas dos calendários e um ou outro amigo que se foi, um ou outro que ficou. Se um dia não é mais que duas voltas de um ponteiro – quantas voltas deve ter uma vida inteira? Poderia com tais idéias ocupar a mente, mas nelas não pensava. A uma mente despida de pensamentos, sobra-lhe o interior oco de palavras, o indivisível do ser. Cada homem, todo ele, dentro de si, é primariamente um homem baldio, pois o desencontro vem sempre muito antes que qualquer encontro. O rosto de alguém é alguém que não se conhece.

A madrugada é a tarde da noite e a ressaca do dia. Podia-se ainda ouvir o frágil rebentar de longínquos e atrasados fogos que rareantes explodiam por detrás dos edifícios que apontavam à lua, ao invés de arranharem o céu. O mar estava quase distante. Preferia assim a quietude companheira dos rios, talvez por temer oxidar de salinidades e agitos. Alguns poucos eram como ele: desconhecidos entre desconhecidos, melhor do que em meio a conhecidos. Doía-se menos. Um clima de cumplicidade irreconhecida se misturavaao fino frio do fim da noite. Sorveu em um só gole todo o conhaque que continha o copo. A quentura dominou-lhe repentinamente a alma com a leveza de uma transitória embriaguez, talvez pelo estômago vazio, fazia horas que trocara o corriqueiro jantar por um sanduíche de queijo e mortadela. Um tanto tonto, porém insuficientemente, pediu a conta e pagou, sem antes solicitar outra dose.

Caminhava agora pelas ruas com a inabalável certeza de que chegaria, afinal chegar era o prazer de depois partir. Pisava sem pressa o chão das calçadas e os asfaltos da cidade que era sua. Nela nasceu, cresceu e haverá um dia em que nela se enterraria. Quando por baixo dela viver, outros a pisarão com o mesmo cuidado com que pisa sua infância, seu passado, sua história… Os pés do adulto que o corpo leva trilham as pegadas do menino insone e traído. Várias vezes passou ele por aquelas ruas e pontes, como várias vezes passará, até que passar não lhe seja mais nenhuma obrigação.

Da cidade herdara o prenome e sobrenomes, bem como os seus desígnios e destinos. Seu nome o revestia de ser exatamente o que não era: o desejo de quem o batizou primeiro do que um padre. O batismo de um nome é acima de tudo o legado de um sonho, e se o filho é o espólio silencioso de um sonho, o nome deste é sempre a frustração de um outro. Fadado ao insucesso, restava-lhe a vida inteira para lembrar que ao nascer já não era quem nunca fora. Chamava-se pelo nome do avô materno a quem jamais conhecera. Uma mãe não devia, afirmava consigo e tomado pelo pensamento, parir um pai, pois pais também se fazem de rupturas e cortes. Pudesse adotar números em vez de letras, adotaria o um e o sete. Setenta e um ou dezessete, pouco importa, melhor assim seria do que já era.

Ali ia o homem margeando o rio que margeava a cidade que margeava sua vida. No limiar dos seus limites amanhecia o amanhecer, embora ainda estivesse um pouco escuro e se iluminasse das luzes dos postes e da matina. A princípio impercebeu que rumo ou rotaseguia, tão somente continuava como se o continuar fosse a tarefa dos que ficaram. Quando por si se deu, logo compreendeu que o longo muro que o seguia feito cachorro sem dono e que se findava em um largo e elevado portão de ferro era todo o cemitério. Plantado como um poste se planta, aguardou o dia com suas claridades e conseqüências – acaso passasse alguém no adiantado daquela hora, imaginaria ser ele uma assombração. Quando abriram o pesado portão não se importou com o susto do zelador, continuou. Consigo não trazia nada além da roupa do corpo e suas lembranças, lembranças estas que depositaria, que nem flores, no jazigo onde estavam os nomes da sua família.

Se me perguntarem se ele voltou ou se ele ficou, não saberei neste instante responder. O que apenas sei foi que ele não escutou, ou não quis ouvir, quando o zelador educada e timidamente pronunciou um distante, como distante é o mar:

 – Feliz ano novo.

Joaquim Cesário de Mello 

 

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