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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em maio 31, 2009
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A SENHORA DE TODAS AS COISAS

   

                                   Agora que todos se foram ficou o silêncio inteiro da casa, rangendo por entre escuros móveis pesados e objetos vários de decoração e recordação. Sentia-se igualmente uma ilha, cercada de pretéritos, lembranças, fantasmas e um acumular incômodo de anos de mais de três quartos de século de uma breve chama ainda por se findar. Quando morrer, sabia com a certeza inabalável daqueles que já enterraram tantos que não será tão longe assim, tudo ao redor de pouca ou nenhuma serventia terá, à exceção da mobília herdada de seus ancestrais e um ou outro pertence como a prataria, o castiçal, os vasos e as louças portuguesas e as molduras antigas onde se acha aprisionado o passado impresso em papéis amarelecidos pelo tempo que retratam o exato instante de um ontem carcomido de distâncias, hoje extinto. O resto, para os outros, são badulaques e quinquilharias de uma velha, do mesmo modo os retratos com seus rostos, poses e sombras a falar de uma época que teima em resistir na última sobrevivente que era ela.  Ninguém, além de si, ainda vivo, conhecerá seus tios, avós e pais. Ninguém também há de reconhecer naquele longínquo vulto de menina magra de olhos assustadiços e laço enorme na cabeça a velha que aqui está: movimentando-se com lerdo cansaço em meio seus tesouros inúteis e migalhas sobrantes de uma vida. As molduras, sim. Talvez tenham valor em lojas de antiguidades, porém os retratos – ah, os retratos! – decerto terão seu fim incinerados ou rasgados, ou terão a rara sorte de serem vendidos a preço barato em alguma quermesse para ornamentar e adornar restaurantes e bares temáticos quaisquer.

                                   Agora que todos se foram era a única zelosa guardiã de sua história e dos seus desaparecidos. No assossegamento da velhice sem pressa espana e varre poeiras e resíduos deixados pelos recentes partidos na sala habitualmente limpa e ajeitada, como se sempre estivesse pronta a receber visitações cada vez mais esparsas. De fato, a higiene do ambiente e o perfumado das coisas gastas mais se assemelhavam a um túmulo bem cuidado, jazigo sem lápide cujo sepulcro era uma homenagem à menina de outrora, preservada e oculta das curiosidades alheias. O mundo, assim, não tinha ciência de que naquele espaço bolorento de passados, apertado de tantos cacarecos e bugigangas, uma velha e uma menina mantinham mudas a derradeira e a mais solitária das batalhas. A velha de então encarava a menina de antes com ares saudosos de melancolia. Já a menina enxergava de lá de trás de onde fica o início dos retratos a anciã em que se tornara: oposto dos sonhos e amores infantis. Se tivessem os retratos sabor, teriam o gosto amargo e azedo das frutas estragadas pela ausência das colheitas.

                                   Agora que todos se foram pode percorrer ela com tranqüila suavidade a planície dos móveis e dos objetos como quem acaricia uma face, um peito ou um dorso. No acarinhar das mãos revisita sem sons sua memória de madeiras, metais e vidros, silenciosamente contida em cada coisa e por cada canto de toda a casa. No amanhã sem ela as coisas voltarão a ser o que sempre e apenas são: coisas. Triste destino este dos objetos de um morto: não significarem mais nada, nenhuma história, nenhuma recordação, nenhuma impressão, nenhum relato. Os pertences de um dono que não mais existe são tão mortos quanto seu próprio dono.

                                   Agora que todos se foram, a noite cada vez mais se separa do dia. A escuridão vem veloz sugando o sol das ruas e as parcas luminâncias da casa (de dentro, a velha senhora parece preferir seus pessoais crepúsculos). Por toda uma década, a última década, nada fora alterado no interior daquela casa. Há muito não adquiria objetos ou peças, muito menos tirara retratos. Nenhum móvel chegara, nenhum móvel saíra. Tudo estava inerte e perene, como se a eternidade terminasse ali. Tudo continuava fielmente no mesmo lugar a espera que ainda haja um alvorecer. E embora já seja bem noite não precisa ela acender lâmpadas ou luzes, pois sabe de cor todos trajetos, passeios e trilhas de seu território. Passo a passo, palmo a palmo, vai se recolhendo a mulher sem perceber, contudo, que no fundo das sombras e dos retratos a menina lhe acena discretamente um adeus, perdoando-lhe a vida.

 Joaquim Cesário de Mello

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