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MEMÓRIA CULTURAL

Posted in Memória Cultural por Joaquim Cesário de Mello em maio 31, 2009

Para as gerações mais novas, principalmente para aqueles cujo hábito da poesia é menos praticado ou curtido, descrevemos alguns dos  mais conhecidos poemas do poeta pernambucano Carlos Pena Filho. E quem foi Carlos Pena Filho?

Carlos Pena nasceu em Recife (17/05/29) e em Recife morreu precoce e drasticamente em acidente de automóvel (01/07/1060) quando tinha então apenas 31 anos de idade.

Poeta lírico e contruidor de belas e plásticas imagens poéticas, Carlos inclusive compôs música com Capiba, a célebre “A mesma rosa amarela”. Devido a seus poemas explorarem a temática do azul ficou conhecido por alguns como o “poeta do azul”. Carlos Pena Filho é um dos principais nomes da poesia pernambucana do século XX.

Publicou: “O Tempo da Busca”, “Memórias do Boi Serapião”, “A Vertigem Lúcida”, “Livro Geral”.

Vamos, pois, aos poemas então:

 

A SOLIDÃO E SUA PORTA

 

Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório

____________________________

SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul  também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

_____________________________

Chopp

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados

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2 Respostas to 'MEMÓRIA CULTURAL'

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  1. Marília Menezes said,

    O bar savoy que foi recanto de poetas hoje esta esquecido ou nem é conhecido por muitos…conheci o mesmo atraves do meu pai,que foi criado no Bairro de São josé vizinho do savoy,lembro que até uns anos atras pessoas costumavam frequenta-lo hoje nem o percebo na Av.Guararapes…

    • Joaquim Cesário de Mello said,

      Por isso é que precisamos das nossas memórias e dos nossos ancestrais pra não deixar morrer aquilo que um dia viveu de fato e faz parte de nossas histórias.
      Contribua com a tua memória, manda algo pra compartilhar com todos.
      Abraços,
      Joaquim


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