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O ESPETÁCULO DO EU

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em junho 30, 2009

                                     Quem já não ouviu ou leu sobre que vivemos o momento atual de nossa sociedade (ocidental) de maneira cada vez mais narcísica? Quem minimamente informado e culto já não percebeu que vivenciamos cada vez mais uma sociedade do espetáculo aos moldes do que já dizia Guy Debord lá pelos idos dos anos 60 (quem quiser conheceer mais sobre o tema que tal ler na íntegra o texto antológico de Debord: http://74.125.47.132/search?q=cache:VWe-Y8hB1zIJ:www.geocities.com/projetoperiferia4/se.htm+sociedade+do+espetaculo&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br)?

Cristopher Lasch já desvandava a questão em seu livro A Cultura do Narcisismo de 1983.
Bom texto também para se conhecer e ler é: http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC0000000082005000200017&script=sci_arttext.

Enfim, quem já não está “careca” de saber e de ouvir falar que os ditos tempos contemporâneos são tempos individualistas e de culto ao eu?

Pois é, todos nós. Mas nunca é demais conhecer mais ainda sobre o assunto que nos contamina e contagia como o oxigênio que respiramos. Falamos aqui de uma interessante reportagem publicada na Revista Mente & Cérebro (que reporto ser possivelmente a melhor revista no cenário sobre as questões psicológicas do homem de sempre e homem atual), cuja título é O Espetáculo do Eu e que centra e foca sobre  intimidade cada vez mais exibicionista e à vista de todos, seja pelos Orkuts da vida, seja pelos You Tubes, fotologs e reality shows. Cada vez mais é habitual que pessoas do mundo inteiro exponham sua vida privada por meio de fotografias, relatos e vídeos. A matéria sob comento questiona-se:  qual o sentido dessas práticas contemporâneas?

Vale a pena mesmo ler a reportagem. E aqui vai o acesso: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/o_espetaculo_do_eu.html

Que tal debatermos sobre?

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A HISTÓRIA E O MUNDO EM IMAGENS

Posted in Fotos & Imagens por Joaquim Cesário de Mello em junho 30, 2009

FOTOJORNALISMO: A REPRESENTAÇÃO DO MUNDO E DA HISTÓRIA

O jornalismo, e mais precisamente a imprensa, tem na fotografia um dos seus mais impactantes elementos informativos. Alguém já disse que uma imagem vale mais do que mil palavras. O fotojornalismo (fotografia de informação), com seu enorme poder de síntese gerada pela foto, nos transmite informações diversas com plasticidade e beleza, embora muitas das fotos estejam testemunhando e retratando momentos dramáticos e trágicos da história humana. O fotojornalismo pode ser definido como o jornalismo feito através de imagens fotográficas.

A proximidade do olhar do fotógrafo com o momento histórico se torna quase uma simbiose a se eternizar pela foto tirada. Todavia, isso não significa que o fotógrafo, embora esteja fazendo parte do instante histórico (nunca o vemos por estar ele do lado de fora da cena fotografada), influencie diretame o próprio instante captado. Como diz Nellie Solitrenick, ex-fotógrafa da revista Veja, “tentamos não alterar o curso da história. O fotógrafo não para o que está acontecendo para tirar a foto”. Entre muitos célebres fotojornalistas temos Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Alberto Korda, Steve McCurry, Eugene Smith e Sebastião Salgado.

Assim, a dor, o sofrimento, a euforia, a alegria, a tragédia, a conquista, a superação, a angústia e o triunfo humano geraram e ainda haverá de gerar inúmeras fotografia que resultam em condensar a representação imagética do mundo e da história.

Algumas frases sobre o tema:

“A imagem deve existir na mente fotógrafo, no momento, ou antes do momento em que o negativo é exposto” (Susan Sontag)

Abordar a fotografia à maneira de uma metralhadora, atirando muitos negativos na esperança de que uma será boa é fatal para a pretensão de obter resultados sérios” (Ansel Adams)

Guerra Civil Espanhola/Robert Capa

“A fotografia é uma forma de ficção. É ao mesmo tempo um registo da realidade e um auto-retrato, porque só o fotógrafo vê aquilo daquela maneira.” (Gérard Castello Lopes)

Ivo Jima - segunda guerra mundial

Ivo Jima - segunda guerra mundial

Guerra Vietnã/Prêmio Pulitzer

Chegada do homem à lua

Serra Pelada/Sebastião Salgado

Praça Celestial (China)/1988

Praça Celestial (China)/1988

Pequena aldeia em Suam/Kevin Carter (prêmio Pulitzer)

Pequena aldeia em Suam/Kevin Carter (prêmio Pulitzer)

Maio de 68, Paris

Maio de 68, Paris

Beijo em Times Square/pós segunda guerra

Beijo em Times Square/pós segunda guerra

Beijo do Hotel de Ville

Beijo do Hotel de Ville

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em junho 29, 2009
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Só ele dela sabe o cheiro. Os outros conhecem
apenas seu perfume e a essência das espumas e dos sais de banho que lhe aromatizam a pele alva, límpida e branca, como branca é a neve. Ninguém, além de si, sente-lhe a fragrância das flores que seu corpo ainda jovem exala: cheiro verde das plantas e de suas imobilizadas sexualidades vegetais. Fosse ele de menos idade, bem menos idade, haveria de pronunciar seu nome no estalar da língua dos apaixonados, ao invés da boca sempre fechada, hermeticmente aprisionando sentimentos impronunciáveis. No adiamento constante das expressões, olha-a no diário dos seus dias com entristecidos olhos de monólogos.

De onde senta, por detrás da mesa e do trabalho, observa-a passar evaporadamente como uma noite de domingo. Adora-lhe o deslizar de sua mão em seus cabelos compridos como se fosse dele o toque e a carícia movimentando desejos. Quisera ser as roupas que a vestem só para juntar-se ao corpo dela e abraçar-lhe com a suave fúria dos que acasalam. Não importa se é linda ou bela, já que a possui tão logo ela passa, afinal aquela iniciante mulher, que em breve também envelhecerá, ocupa-lhe o olfato e a vista na intimidade negada de uma cumplicidade incorrespondida. Pois em todo o tempo em que a presencia passar não foram mais que duas vezes que se falaram. Na primeira, ele tossiu; na segunda, gaguejou – suspiros amorosos do infeliz homem que somente ele ocnhece o amor. Porém, antes assim: não fosse o sonho restaria o tédio a desertificar a alma e o pouco resto de sua memória.

O sonho o puxa para frente ao mesmo tempo em que a memória o retrai para trás. Em meio a fluxos e refluxos é ele alguém de instantes, encarcerado a um presente constantemente transitório, precário de possibilidades. Sua atualidade é o curto espaço espremido pelas virtualidades das lembranças e das expectativas em que vive seu invisível amor. Quando amanhã o atual for ontem (toda atualidade traz em si sua inatualidade e seu fim), carregará dela somente recordações de sonhos irrealizados, pois é ele igualmente, e sempre enquanto ainda existir, ums er faminto de suas tantas e tantas impossibilidades.

Ama-lhe ele em todos os momentos dos seus momentos um incansável e silencioso amor amar de impresenças. As exterioridades inexprimem interiores onde lá, na ruidosa mudez detriorante dos órgãos, conhece unicamente ele o fervilhar consumante dos apaixonantes afetos. No íntimo de si não há qualquer solidão, mas a companhia infinda daquela jovem mulher que não fôra do seu arbítrio desejar e com a qual ocupa-se inteiro completamente, a tal ponto que não há mais sequer lugar para outro sonho que não seja ela. Quem o presencia assim costumeiramente desacompanhado há de confundi-lo com um homem só. Não sabem eles que nas praças, ruas, praias, cinemas, restaurantes e localidades várias, acha-se ela nele, na irreciprocidade egoísta de um sentimento amordaçadamente lacrado. Quem o olha assim costumeiramente só nunca há de saber que ali está alguém que vive acordado para dentro, como se a vida lhe fosse o oposto de fora.

O amor dorme no coração do homem um sono de insônias, somente velado por calados pensamentos que o devoram com tamanha fome e martírio que lhe é a dor muito mais uma companheira. Ah, soubesse ela daquele tanto afeto decerto surpreender-se-ia ao descobrir, por detrás do silêncio de poucas amabilidades e diversos olhares discretos, a chama impagável a queimar o peito anonimamente oculto no desconhecido de um homem, cuja única função era estar ali, naquele obscuro canto de uma vida, amando-a com a limpidez transparente quase visível das coisas invisíveis.

Quem sabe um dia (o que seria de nós acaso não esperássemos dias?) ela o veja enfim em sua singularidade infinda e aceite então suas mais inconfessáveis ardências. Quem sabe um dia, quando a maturidade já lhe encobrir o cheiro adocicado das flores e ele não mais estiver sentado em seu birô de anos, possa ela enxergar no habitual do seu discreto canto o vácuo deixado pela inevitável ausência, e sentir saudades daquele amor que de tão verdadeiro jamais ousou fazer-se notícia. Quem sabe um dia.

Joaquim Cesário de Mello

INFÂNCIA NOS ANOS 60

Posted in Memórias Afetivas por Joaquim Cesário de Mello em junho 28, 2009

O que significa hoje, à distância dos anos e das décadas, ter tido uma infância nos anos 60?

Ser criança nos anos 60 é ter curtido filme de Jerry Lewis e se encantado ao som do tema musical do filme “Ao Mestre Com Carinho”.

Ter sido menino no anos 60 é ter viajado de Rural, pedalado de velocípede, brincado de Forte Apache, em que me sentia o verdadeiro dono de Rim Tim Tim,  e montado avioezinhos da Reveel comprados na Viana Leal (ah! que saudade da sua escada rolante).

Ter tido infância nos anos 60 é ter brincado nos escorregos de cimento do Parque Treze de Maio, andado de bicicleta entre árvores, lagos e esculturas, bem como ter assistido pela televisão incrédulo e fascinado o homem pisar na lua.

Quem, como eu, foi criança nos idos dos anos 60 haverá de se lembrar do nosso Super-Herói (muito antes de qualquer Super-Homem, Batman ou Homem-Aranha): National Kid.

Menino que era menino de verdade, nos anos 60, tinha que ficar acordado até tarde e assistir Bat Masterson para dormir cantando “No velho oeste ele nasceu/ e entre bravos se criou/seu nome lenda se tornou/Bat Masterson/Bat Masterson…”

Ter sido criança nos anos 60 é não ter entendido o que é que aqueles tanques estavam fazendo ali nas ruas e por que os soldados não eram de plástico ou de chumbo como meus brinquedos.

Ter podido ser criança nos anos 60 foi ter podido assistir na televisão às tardes os 3 Patetas e escutado à noite na radiola dos meus pais a trilha sonora de My Fair Lady, sem entender uma palavra do que cantavam.

Ah, os anos 60! Foram tão rápidos e ligeiros. Agora é como aquele retrato na parede do poema de Drummond. Ficaram suas marcas e as décadas seguintes só foram as décadas seguintes porque fui criança nos anos 60: anos de minha meninice, mas igualmente anos em que ela começou sem eu mesmo perceber a se despedir de mim. Vieram os Beatles, os festivais da Record, o colorido psicodélico da contra-cultura e os primeiros bailes iluminados à luz negra. Mas isto é outra história para outro momento de intimidade e saudade.
Até mais ver, então, meus anos 60.

Abaixo a música tema do filme “Ao Mestre com Carinho”. Com ela meus afetos pré-púberes começaram a iniciar o princípio do fim de minha infância, lá pelos idos dos anos 60.

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009
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DORMEZ-VOUS…

 

Quando eu estiver velho
velho de não mais voltar
quero ouvir a voz de minha mãe
cantando cantigas em francês
cantigas pra mim ninar.

Quando meus retratos
forem mais desusados do que eu
e de minhas mãos murchadas
não mais brotarem versos como estes
quero o rosto de minha mãe
a me olhar cuidante
no infinito velar do sono final.

Quando nada mais restar
amigos, mulher nem filhos
quero a maciez do colo de minha mãe
na paisagem distante de uma praia deserta
sossegada, serena e calma
ali por onde o tempo não passa
e lá onde vou então poder de vez
virar areia.

Quando estiver velho
velho mas velho mesmo
quero de novo minha mãe
cantando cantigas em francês
cantigas pra mim ninar.

Joaquim Cesário de Mello

POESIA: SAFRA 80

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009
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Egon Schiele

Recentemente, a respeito do HUMANASBLOG, a amiga Talita Creder comenta quase indagando-me que não sabia que eu escrevia poesia. Respondi-lhe acanhadamente que eu era poeta no início dos anos 80 (ainda senti em mim resquícios de uma severa autocrítica mutiladora que sempre me acompanhou nessas horas de me reconhecer poeta. Talvez tenha a ver com meu pai, poeta e escritor falecido quando eu tinha tão somente 10 anos de idade). Pois é, lá estava eu como que lutando comigo mesmo quando me intitulava timidamente de poeta. Esta mesma censura superegóica foi naquele tempo (nos idos dos anos 80) detectada pelo jornalista, escritor e crítico de arte Paulo Azevedo Chaves (por onde andará Paulo?) quando escreveu ele: “Joaquim Cesário de Mello é um poeta de talento, mas paralisado, frequentemente, em sua criação por uma excessiva autocrítica. Pena que tenha ficado sem escrever, cerca de um ano, em virtude dessa atitude algo castradora de seu mérito já comprovado como poeta. Os poemas que ele me enviou recentemente pelo Correio revelam sua apreensão sensível e exata dos fatos do dia-a-dia, da fluidez de seu mundo interior, num clima entre o romântico e o onírico, em versos, num ritmo que lhe é próprio, que condensam suas emoções, a profundidade de suas sensações, a delicadeza de seu espírito e de suas percepções.”

Hoje à distância dos anos, ao me deparar com meus entulhos literários guardados em um fundo de gaveta, reconheço realmente as palavras de Paulo Azevedo Chaves. Passados tantos anos posso melhor enxergar beleza poética na maioria dos meus escritos juvenis. Sim, há poesia naqueles versos, e de boa qualidade lírica até. Imagens e cenas poéticas que me mostram que a inquietitude que hoje carrego já vinha então de tão antes.

Os anos 80 foram anos efervecentes literariamente falando na cena recifense. Proliferaram, à época, inúmeros jornaizinhos literários e vários foram os poetas daquela safra. Entre tantos convivi com alguns, tais como Eduardo Martins, Chico Espinhara (falecido ano passado), Cida Pedrosa (hoje ainda uma batalhadora pela poesia, editando o site Interpoética cujo link encontra-se ao lado do nosso blog em Sites Associados), Héctor Pellizi, Manoel Constantino, Vernaide Wanderley, Inaldo Cavalcanti e Dione Barreto. Tempo da Livro 7 e dos bares na Sete de Setembro. Tempos de poesia e ousadia.

Assim, debruçando-me sobre meu passado recém-encontrado em pastas de arquivo hibernantemente guardadas em uma gaveta qualquer, republicarei aqui uma parte daquela produção dos anos 80 (que estarei chamando no HUMANAS BLOG de “Poesia: Safra 80”), a grande maioria publicada nas páginas do Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, principalmente no primeiro. E iniciarei com um poema dedicado ao próprio Paulo Azevedo Chaves que, à época tanto me incentivou e ajudou (este poema foi publicado no Diário de Pernambuco na primeira metade da década de 80). Para Paulo com o mesmo carinho e amizade de mais de um quarto de século:

 

O HOMEM SENTADO NO ESCURO
OU UM POEMA PARA PAULO

O homem sentado,
debruçado sobre suas víceras,
medita,
enquanto a tarde e as bananas                   
apodrecem na fruteira
distantes do mar.
Seu rosto entre sombras
lembra um anjo barroco,
desses que habitam velhas igrejas
e suas mãos
– tuas mãos – côncavas,
cheias de carícias inacabadas,
repousam nas pernas
como duas pombas entrelaçadas.
(No escuro uma multidão
de olhos o espreitam,
mas não há gatos nem demônios,
apenas a solidão quieta dos móveis
e uma frenética muriçoca
que voa em círculos
como uma moça
que despenca do trapézio).

 Joaquim Cesário de Mello 

MANUEL BANDEIRA: ALÉM DE POETA, CRÍTICO

Posted in Notícias e Eventos por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009

Muito boa a matéria publicada na REVISTA BRAVO deste mês sobre esse lado menos conhecido do grande público do poeta pernambucano Manuel Bandeira, isto é, seu lado de crítico literário. Aliás, como diz a matéria de Almir de Freitas, um crítico implacável.

 

Para nós, admiradores e leitores da poesia de Manuel Bandeira, um pouco de um outro Manuel que, porém, era o mesmo. Sem antes, contudo, não deixar de apreciar a beleza de sua poética:

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

 

Vejam, pois, a matéria da Revista Bravo acessando o seguinte link:

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/critico-implacavel-472869.shtml

MEMÓRIAS AFETIVAS

Posted in Memórias Afetivas por Joaquim Cesário de Mello em junho 25, 2009
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Como diz Noberto Bobbio, somos guardiões de nossas memórias.  E a memória, a memória de qualquer um, é feita de sons, cheiros, gostos, barulhos, sabores, imagens e sensações. Sou inteiro construído de impressões e reminiscências. No habitar das lembranças existem madeleines que evocam remotas épocas e instantes, assim como em Proust . Pois é, quantas e quantas vezes, e às vezes em um mesmo dia,  um mero estalar qualquer não faz emergir do silêncio das entranhas a afetação das lembranças hibernantes. Quantas e incontáveis vezes já não fomos pegos tão semelhantemente como descreve Proust (Em Busca do Tempo Perdido): ““Eu levei aos lábios uma colherada de chá onde havia deixado amolecer um pedaço de madeleine. Mas no instante em que as migalhas do bolo tocaram meu palato, tremi, atento a algo de extraordinário que aconteceu comigo. Um prazer delicioso me invadiu, isolado, sem noção de causa…

Embora alguns criem blogs para fazer uma espécie de livro diário, não foi esta a intenção e objetivo do HUMANASBLOG. Todavia quando escrevo, ouço, sinto, vejo, penso, pulso e produzo, não consigo jamais escapar de quem eu sou e de minha história – razão pela qual decidi abrir aqui um cantinho reservado ao reviver das sensações e dos afetos que trago em minha biografia. Compartilhando com os demais creio poder contribuir tanto pro reativar das lembranças daqueles que comungam da minha geração, como também mostrar às gerações seguintes o que as antecedeu. Para isto, portanto, penso e espero poder contar com a contribuição dos aqui transeuntes e que possam vocês trazer pra cá os cheiros, sons, gostos e imagens de suas vidas.

Iniciarei com a NOVIÇA REBELDE filme este que está na minha infância como um aroma de mãe, afinal ela me levou para assistir em sua companhia única no mínimo oito vezes ou até mais, afora o disco que lá em casa tocava na agora antiga vitrola.

A Noviça Rebelde (vencedor de 5 Oscar incluindo melhor filme e diretor) é um filme de 1965, dirigido por Robert Wise, e uma das maiores biheterias da história do cinema. Estrelado por Julie Andrews no papel principal o filme conta a história de  Maria que é uma noviça que não consegue seguir as rígidas regras do convento onde mora, por se sentir livre e amar à natureza. São tempo sombrios, o final da década de 30 do século passado, e o nazismo começa a ameaçar e a aterrorizar o mundo (interessante como em criança nunca entendi o porque daquela suástica e o que as roupas pretas dos casacos militares tinha a ver com a história que me encantava tanto). Ao ir trabalhar na casa do viúvo  capitão Von Trapp (interpretado por Chistopher Plummer), lá encontra um pai austero e disciplinador de sete filhos. A chegada de Maria une a família através da música, e faz da Noviça Rebelde um filme não somente de músicas e imagens à época belísimas, mas igualmente um filme com gosto de drops Dulcora e cheiro de perfume de mãe.Ver imagem em tamanho grandeVer imagem em tamanho grande

Do fundo de minha alma, lá onde mora o menino, um pouco não do filme em si, mas um pouco de minha meninice ao lado da mãe:

O HOMEM É UM ANIMAL QUE RI

Posted in Humor por Joaquim Cesário de Mello em junho 24, 2009

Ver imagem em tamanho grandeUma das coisas que há de mais humano no ser humano é sua capacidade para rir e sorrir. Por esta razão não há como focar a questão humana sem levarmos em conta o humor. Aqui abriremos espaço para o humor em suas várias vertentes. Bons sorrisos e largos risos.

* * * * *

Mafalda é, talvez, a mais conhecida personagem das tirinhas (quadrinhos diminutos) da América Latina. Criada pelo argentino Quino em 1962, Mafalda é uma menina atípica, isto é, de espírito crítico e sagaz, bastante preocupada tanto com a paz mundial quanto com os rumos que está tomando a humanidade, e por isto é rebelde com o estado das coisas como as coisas são. Ou como disse certa vez o escritor, filósofo e semiólogo Umberto Eco: “uma heroína irascível que rejeita o mundo como ele é… reinvindicando seu direito de continuar sendo uma menina que não quer se responsabilizar por seu universo adulterado pelos pais”. São geniais as sacações e a acidez utilizadas por Quino, através de sua personagem Mafalda, que detestava sopas e que possuia, ao invés de bonecas e ursinhos de pelúcia, um globo terrestre doente e que também acompanhava sempre os noticiários da imprensa. Toda Mafalda
Mafalda inicou sua trajetória entre os anos das sangrentas ditaduras latino-americanas (plena era da guerra fria), uma época de grandes embates e conflitos ideológicos e políticos, e foi publicada nos jornais argentinos Primeira Plana, El Mundo e Siete Dias Ilustrados. No Brasil temos o conjunto de suas famosas tirinhas publicadas em livro, o livro “TODA MAFALDA” pela editora Martins Fontes, contendo 420 páginas de puro divertimento inteligente que nos injeta uma reflexão tanto do seu péríodo histórico latino e mundial, bem como nos propõe a igualmente melhor refletir sobre o quanto pode ser absurda a vida humana em suas roupagens cotidianas de alienamento e submissão aos sistemas vigentes.
Qualquer um, que por acaso não conheça Mafalda, pode já de antemão prever que ela é uma personagem através da qual Quino apresenta sua crítica ao modelo social vigente. Embora Quino não mais publique Mafalda desde os anos de 1973 (com raríssimas excessões quando para promover campanhas sobre Direitos Humanos, como, por exemplo, o poster que ele fez para a UNESCO/ONU, em 1976, ilustrando a Declaração Universal dos Direitos da Criança), ela não se encontra datada, ao contrário seus questionamentos sobre a vida e o comportamento social das pessoas e sobre a própria sociedade ainda estão bastante presentes aos momentos em estamos passando e vivendo. Mesmo que o mundo não seja mais o mesmo como à época das publicações originais de Mafalda, o seu envelhecimento não a atrofiou ou senilizou. Mafalda, como escreveu a Folha de São Paulo em 02/12/2008, envelheceu com graça.

Vamos, pois,acompanhar o um pouco dessa “senhora” de 47 anos que no auge da sua maioridade cronológica mantém a incredulidade e a criticidade tão escassas aos jovens de hoje.

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Vejam mais Mafalda:

http://filipaqueiroz.files.wordpress.com/2008/12/mafsu.jpg
http://farm1.static.flickr.com/3/4802485_07baa9c229.jpg
http://portal180.uol.com.br/blog/wp-content/uploads/2007/06/mafalda-e-o-sol.jpg
http://educar.files.wordpress.com/2007/01/mafalda.jpg
http://3.bp.blogspot.com/_pFtmWZEvOd8/R1BHuAKklRI/AAAAAAAAA-0/u_aiuhnW5tU/s1600-R/dezembro07.jpg
http://2.bp.blogspot.com/_hius0wLqMBA/SJ7LrIbtYII/AAAAAAAAGgc/_3YnmKXIhsw/s400/mafalda1.jpg
http://pulsacoes.blogsome.com/wp-admin/images/mafalda411.gif

http://farm1.static.flickr.com/15/20756878_dde3b563d4.jpg?v=0
http://www.clubcultura.com/clubhumor/mafalda/poliglota/tira_brasil.jpg

POESIA AFRICANA

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em junho 23, 2009

A África é um continente que tem seus mistérios e suas seduções, bem como faz parte do nosso imaginário ocidental como uma região de aventuras e de pura a mais pura natureza. Porém a África também é um continente de guerras tribais e fraticidas, e até mesmo de antigos e recentes genocídios.

Ver imagem em tamanho grandeA África não sabemos o que realmente é, mas que muito nos significa. E é desse outro universo que nos parece tão mais distante que os milhares de kilômetros que nos separam, inaugurarei com poesia africana o espaço aqui reservado às várias e diversas literaturas do mundo, além do meu. Abaixo um rápido apanhado de alguns poemas da África de língua portuguesa (a Lusoáfrica) que é constituída dos seguintes países: Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

A CIDADE À NOITE

A festa dos reclamos luminosos
é minha.
Não gosto de coisas reais.
Todas as ilusões
me pertencem.
Sou milionário universal
da fantasia.
Gosto de passar pelas montras
e sonhar... 

Sonhar sonhando,
sem cobiça,
sem pólvora, sem sangue,
sem ódio,
sem ferir o mundo.

Jorge Macedo/Angola

POESIA AFRICANA
 
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
Agostinho Neto/Angola

NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos
lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

Sebastião Alda/Moçambique

Lá no “Água Grande” a caminho da roça negritas batem que batem co’a roupa na pedra. Batem e cantam modinhas da terra. Cantam e riem em riso de mofa histórias contadas, arrastadas pelo vento. Riem alto de rijo, com a roupa na pedra e põem de branco a roupa lavada. As crianças brincam e a água canta. Brincam na água felizes… Velam no capim um negrito pequenino. E os gemidos cantados das negritas lá do rio ficam mudos lá na hora do regresso… Jazem quedos no regresso para a roça.

Alda Espírito Santo/São Tomé e Príncipe

A MINHA DOR

Dói

a mesmíssima angústia nas almas

dos nossos corpos perto e à distância.

E o preto que gritou é a dor que se não vendeu 
nem na hora do sol perdido nos muros da cadeia. 
                     Noemia de Sousa/Moçambique
Conheça mais, clique: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/poesia_africana.html

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