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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em junho 4, 2009

Este texto foi originariamente publicado pela Revista Caravelle nr. 75, da Universidade de Toulouse, França, por ocasião de “la célébration officielle des 500 ans du Brésil”.

AO NORTE DA MESA PRÓXIMA

O garçom me serve uma bebida forte à base de aniz, com a qual me vejo invadido de quentura e azul. Imediatamente zonzo pelo sabor do inusitado, abro o livro marcado somente para não perceber que as outras mesas desconhecem minha presença. Sou um estranho entre pessoas estranhas e elas sabem disso. Estou longe de casa. Estou longe de mim. Meu lar é lugar nenhum.
Esta cidade edificada de ruas com nomes e datas que não me dizem nada, arranha-céus, árvores, praças, postes e luzes não foi construída para mim: sou um estrangeiro em suas entranhas e sombras, transitando-a apenas como o minuto que perpassa a minha vida. Os rostos dessa gente não me significam coisa alguma, não me importa suas dores de dentes, amores e desamores, sequer sei dos seus vizinhos. Para eles sou transparente e não existo, unicamente habito esta cadeira neste momento, em um bar que nunca vim.
O que pensa a lua de mim aqui sentado sem amigos ou amantes? Como um surdo aguardo que me chamem o nome, este substantivo próprio tão doce e delicado que só se sente à falta dele no deserto das bocas áridas. Devo ter deixado minha história em um quarto de hotel e agora não sofro mais qualquer nostalgia. Esqueço-me de mim para lembrar das minhas ausências e dos meus prantos. Sobrevivo aos meus mortos e aos meus abandonos, só não quero morrer sem ver meus poemas publicados, pode ser que alguém algum dia me leia e me compreenda além do silêncio em que me sepultei. Minha cabeça lateja em um corpo amolecido de febre e gripe. Tusso secreções e esta imensa noite que carrego no peito.
Quisera-me ser um barco a navegar a imensidão infinita dos oceanos azuis. Minha alma é um mar agitado, perigoso, sem sol e sem sal, em busca de praias onde possa sossegar suas ondas e depositar espumas agonizantes. Quem penso que sou bóia em mim. Receio afogar-me sem história e sem nome, enquanto aqui o redor fervilha em música na urdidura das tramas pélvicas. O calor que me aquece e me esfria não é de febre nem de álcool, é do incêndio desta cidade alheia onde procuro o socorro de uma mão e não encontro. O que se estende até a mim é solidão.
Chamo o garçom novamente, mais uma vez, como forma de falar com alguém. Solicito e ele me atende com outro copo. Logo vai embora. Nada me apraz o olhar, nem mesmo aquela velha prostituta de cabelos mal pintados de ruivo encostada ao canto do escuro, pronta a me saquear bolsos, filhos e afagos. Chego a me apiedar cumplicidamente dela e de sua indisfarçável decadência, pois representa seu papel e ao final adormecerá só em sua cama, assim como eu. Se me desse vontade de escrever versos começaria com a palavra adeus, porém minha única vontade é saber para que estou e para onde vou quando não mais houver esta cadeira, o copo e o garçom a me servir. Quando todos já tiverem se abrigados, restarão meus cacos, as pálpebras insones e este cansaço mais que febril. Tusso secreções reprimidas e esta grande noite que me aprisiona a garganta e me domina o peito.
Adeus minha adorável prostituta. Acaso fosse outrora, talvez teu corpo visitasse. Contudo, não agora. Após, jamais. Quando tiver tua idade também não me recordarei desta ocasião passageira, por isso, à tua face soturna e triste, ofereço tão somente o esquecimento dos meus gestos e da nossa impossibilidade. A minha memória é um cemitério de lembranças e poeiras, são poucos, muito poucos, os fantasmas que me acompanham ao dia. Se em uma outra hora ou data retornar, encontrar-te-ei outra vez plantada no canto do bar assim como hoje: imóvel e muda, esperando despedidas.
Deixa-me ir agora querida prostituta, cujo nome é tão silencioso como o meu. Deixa-me ir, libertando-me do teu encanto misterioso de Medéia, pois almejo os movimentos e as surpresas das ruas. A inércia é a privação da vida e já me bastam tantas perdas enterradas em meu peito entupido. Que assim se escreva em minha lápide: “aqui repousa um homem só e aqueles que morreram antes dele”. Se falecer é desaparecer duas vezes, então desejo morrer depois da minha morte (serei amanhã um morto em alguém?). Tusso secreções, escarro a noite.
Até nunca mais minha inominada prostituta. Agradeço a caridade de teu único olhar sobre mim, deixando-te em troca a ilusão de novos fregueses. Parto, afinal partir é melhor que ficar. Perambulo trôpego e bêbado pelas calçadas, vomitando azuis pelas esquinas. Até a lua agacha-se envergonhada por detrás das nuvens.
Retorno cambaleante ao quarto e às minhas malas onde lá encontro partes de mim. Persigo o sono e só assim ao levantar não saberei se tudo não passou de um sonho ou de um pesadelo do instante em que fui ninguém. A sinusite dói e a coriza me escorre afetos e líquidos. Quero rápido dormir para logo acordar com alguém que não conheço chamando meu nome. Preciso urgentemente voltar a existir. Hoje, é certo, não sonharei com anjos, mas prostitutas.
Tusso secreções e a noite inteira me acoberta de breus.

Joaquim Cesário de Mello

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