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CINEMA: A JANELA E A FINITUDE

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em junho 14, 2009
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Mais do que apenas um filme, A JANELA é uma verdadeira reflexão profunda e contundente do ciclo de vida, levada às telas com maestria sensibilidade e arte, uma combinação bela e suavemente melancólica de imagens, poesia e prosa. O filme (que flerta com “Morangos Silvestres de Bergman) dirigido pelo veterano cineasta argentino Carlos Sorin (“Histórias Mínimas”, “O Cachorro”), relata a finitude do personagem Antônio, agora com 86 anos.  O enredo é baseado nos livros “Três Rosas Amarelas”, de Raymond Carver, e “Mãe e Filho”, de Alexander Sokurov. O filme é detentor do prêmio Fipresci (da Federação Internacional dos Críticos) no Festival de Valladolid (Espanha).

O filme e a câmara são centrados no presente do personagem principal e dele pouco sabemos de seu passado e história. Podemos acompanhar apenas o reviver de seus afetos e lembranças minimalisticamente através de silêncios e olhares. Como uma madeleine proustiana uma série de memórias são expostas sem flash backs hollywodianos, de maneira suave, terna e lenta. Aliás, o tempo é um personagem que impera e sombreia todo o filme, seja na condução narrativa vagarosa como um tempo que se arrasta envelhecido, seja no fundo sonoro constante do sutil tic tac de um relógio pendular, seja no tempo ressuscitado da memória.

Já dizia Noberto Bobbio que o tempo do velho é o tempo da memória, pois somos aquilo que lembramos. Somos o último e o único guardião de nossas lembranças não apagadas ou extintas. E ainda citando Bobbio “na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos. Encontramos os anos que se perderam no tempo, as brincadeiras de rapaz, os vultos e as vozes, os gestos, os companheiros de escola, os lugares, sobretudo aqueles da infância, os mais distantes no tempo e, no entanto, os mais nítidos na memória” (para quem não sabe o trecho que aqui cito foi escrito por Bobbio em seu livro “O Tempo da Memória” quando ele tinha 87 anos de idade).

Não é à toa que somos de imediato apresentados a uma lembrança longínqua de Antônio que ele até mesmo sequer sabia tê-la retido na memória (onde ficam guardadas e reservadas tais lembranças?), a imagem do rosto de uma mulher que certo dia, quando criança aos 6 anos, cuidou dele em uma noite em que seus pais deram uma festa em casa. A poesia de tal cena (orquestrada e sensivelmente realizada em uma imagem cinematografica desfocada e nebulosa vista como um cristalino que perdeu sua transparência) que abre e fecha o filme é singular e lírica, e deve ser apreciada e sorvida sem a pressa cotidiana do dia a dia urbano, assim como o filme com um todo, afinal estamos frente a um filme lacunar, prenho de detalhes e de silêncios, e só podemos realmente apreciá-lo acaso nos permitamos a ele nos entregar.

O naturalismo empregado por Sorin ao filme (por exemplo não temos música acompanhando as cenas principais, mas sons ambientais como, por exemplo, o uivar do vento,o cantar dos pássaros e o zumbido de uma abelha) nos faz ainda mais cúmplices, afinal sentimo-nos como que acompanhando os derradeiros instantes do encerrar de uma vida. À princípio tal realismo fílmico pode provocar em alguns expectadores a falsa impressão de estarmos frente a um filme meio pobre de enredo ou mónotono e lentificado. Mas, lembro, a vagareza (que não é inimiga da história, ao contrário, é a própria história) e a monotonia das horas vagas no quarto – onde Antônio começa a se despedir da vida como que um prisioneiro acorrrentado à cama – são as impressões vivenciadas pelo próprio personagem (quando a empregada lhe fala de um cheque pré-datado para 60 dias, Antônio responde: “60 dias é uma eternidade”). Remeto-me, pois, a uma crônica nossa aqui mesma publicada (vide “Crônicas literárias”), cujo título é A SENHORA DE TODAS AS COISAS.

Não, não há pobreza no enredo. O que temos é um acumular de perdas e ausências, embora lá no fundo da alma ainda respire ávido uma criança. Ninguém se cura da infância, já dizia Sponville. Ou, por sua vez, como afirma Mario Quintana: “triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância”.

Não pense o eventual leitor aqui que o filme “A Janela é um filme triste em si e que ao sairmos dele levaremos melancolia. Não. A melancolia da história, e da maneira como ela é conduzida é serena e terna, quase como se fosse um beijo afetuoso e materno, fazendo-me, inclusive, relembrar de um outro filme sobre velhice: o agora já distante “Baleias de Agosto”.

Enfim, quem se aventurar a viajar na área humana sombria onde parece ser desértica de sonhos e desejos que é o futuro da velhice de todos nós (desejamos e ansiamos tantas coisas na vida, mas desejar ser velho não), encontrará em “A Janela” um filme reflexivo e contemplativo sobre o tema, gentil até. Respirem, portanto, toda a poesia implícita na passagem do caminhar de Antônio fora da casa aonde estava confinado a ver o restante de sua vida por uma janela. Acompanhemos com ele a beleza da vitalidade da vida, tão amareladamente ensolarada como um quadro de Van Gogh. Linda e singela tal sequencia visual. Não há como ficar indeferente frente a mesma. A vida, a verdadeira vida ( personagem diz a certo momento que ele ficou apenas como uma promessa literária que cita Jorge Luis Borges em uma dedicatória de um livro), está do outro lado, do lado de fora das janelas.

Não poderia deixar de relatar minha associação das cenas finais do filme (ao anoitecer) com os seguintes versos do poeta Ruy Espinhera Filho:

A noite avança e as janelas
aos poucos
se apagam. No silêncio
meu coração permanece
iluminado. Eis que trabalha, fiel,
mesmo quando revela
a si mesmo em breve imóvel
ou,depois, a última estrela
sem testemunhas
no céu final.
 

Abaixo algumas cenas deste filme que não pode passar desapercebido:

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 A Janela

 

 

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