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LIVROS & LEITORES

Posted in 1,LIVROS & LEITORES por Joaquim Cesário de Mello em junho 16, 2009

UMA LIRA CIENTÍFICA 
 Fui a uma livraria a procura de um livro e encontrei outro. Na verdade eu trouxe os dois, mas o segundo trouxe por acaso e, confesso li primeiro. Por quê? Quando eu compro um livro eu costumo folheá-lo e observar umas palavras, umas frases avulsas e, não sei se por sorte minha ou do livro, eu li a seguinte passagem: “Pois não há contradição radical entre a Sociologia e História, mesmo quando a História deixa de ser de revoluções para tornar-se de assombrações”. Esse livro foi editado pela primeira vez em 1955.  Autor: Gilberto Freire, óbvio; título: “Assombrações do Recife Velho”. Posso dizer que ao ler essa frase, que se encontra no prefácio da 2ª. Edição, já estaria por si só, satisfeito e poderia sem pestanejar fechar o livro e deixá-lo na prateleira. Com essa frase tudo que viesse depois seria dejá vù, ela responde tudo que está no livro. A frase pagou o volume, pois, de algum modo, falar de assombrações da maneira como foi falado provoca várias discussões sobre “o científico”, a produção do texto científico. Mas Gilberto Freyre surpreende. Trata-se de um livro simplesmente fantástico. Um trabalho de pesquisa folclórica, sociológica, como queiram falar, que certamente seria recusado em qualquer projeto acadêmico atual por se tratar de um trabalho por demais reflexivo, digressivo e de frases “imprecisas”. Hoje se observa que os pesquisadores se transformaram em operários das palavras pragmáticas e do texto enfadonho, inclusive, observa-se isso na própria literatura. Dizem os críticos: “uma linguagem seca, econômica, enxuta etc.”. Gilberto Freyre fez-me esquecer esse sectarismo, deixou-se caminhar – porque não? – nas frases bonitas, caminhar nas descrições cênicas oitocentistas e caminhar na ironia, sutil ironia. Penso que nesse texto, a história não é simplesmente contada, mas experimentada – a história perde o sentido de temporalidade, do remoto passa-se ao atualizado. Enfim, já fui longe demais… Acredito que Gilberto Freyre, ou sua assombração, com toda falta de rigor científico, ainda pisoteia as teses que mofam nas prateleiras das universidades… É preciso dizer, mas é preciso saber dizer – que se retome o belo na escrita.
 
Marcos Creder
marcoscreder@yahoo.com.br

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