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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em junho 21, 2009
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ECCO HOMOVer imagem em tamanho grande

 

Amanhecia antes do amanhecer do dia para poder acompanhar tristonho o funeral da noite. Não entendia porque se dormia, pois o sono é o descuido da vida e ela é tão ligeira e veloz que o entorpecer dos sentidos é a usurpação da existência e de seus absurdos. Não necessitava fechar as pálpebras para sonhar, preferindo o desvario da lucidez à inexpressividade preguiçosa da imobilidade. Vigil e desperto, acordava para dentro sem o assombro costumeiro daqueles que fogem das imagens refletidas nos espelhos dos próprios olhos. Se estar vivo não lhe fora uma conquista mas uma herança, a quimera era para si a singular possibilidade de prosseguir continuando.

                                   Sua elegante aparência, propositalmente desleixada, dava-lhe um ar solene de querubim barroco, embora a barba eternamente mal feita e os parcos fios grisalhos sobre a testa calva ligeiramente enrugada denunciassem-lhe os anos. Um homem de meia-idade não devia sair por aí arrastando suas histórias e acumulando outras. Um homem acima dos quarenta – ensinara-me minha mãe – devia ser comedido, responsável, coerente e resumir o espaço de sua vida à casa, ao trabalho, ao carro e aos churrascos de finais de semana. Irritava-me ouvir que a vida só tinha quarenta anos. Após, a gente se congela e vive de conversar passados com os conhecidos, rememorando o quanto era bom à época em que não conversávamos, apenas vivíamos irresponsáveis as histórias que ora falamos. No inventário de uma vida parece restar ao homem de meia-idade as aventuras piscantes dos filmes de televisão e as emoções seguras dos canais por assinatura. A poltrona da sala toma o lugar do risco, das mangas roubadas, dos braços quebrados, da embriaguez festiva dos flertes ingênuos de sábado.

                                   Era diferente aquele homem quase alinhado, com sua barba mal feita e poucos cabelos grisalhos. Trazia-me sempre pedaços de poesia recolhidos dos bolsos das calças amassadas e rascunhados em cotocos de papéis encontrados. Ofertava-me ele fragmentos de versos, alimentando-me como um ancião desocupado nas praças alimenta os pombos. Nunca terminara um poema sequer. Sua poesia, dizia, era livremente interminável. Afirmava ser inútil terminar poemas, eles davam trabalho mais do que um feto e para quê?, perguntava respondendo: para serem devorados em um minuto? Rejeitava lapidar seus versos. Feito um garimpeiro retirava-os do mundo donde brotavam como as cidades brotam dos asfaltos. Por isso sua irrequieta ânsia de papéis e canetas: para não deixar escapar a beleza e a dor do súbito repentinamento.

                                   Aquele homem grávido de poesias socava-me cotidianamente, revertendo minhas pacatas interioridades. Com ele aprendi que um óculos não é um óculos, é um sentimento. Não era ele de casas, mas de ruas. Nas poucas vezes em que adormecia era debaixo das árvores, anestesiado de bebida e de sol. Até os pássaros silenciavam respeitosos em homenagem àquele pequeno homem magro deitado, adubando a terra muito antes do que devia. Do seu sono raro nasciam as árvores e os sonhos coloridos dos homens incrédulos. Nunca fora de casamentos, embora houvesse tido mulheres e diversas o possuíssem – dizia que as âncoras não foram feitas para segurar os barcos, mas para prendê-los. Aquele homem de ninguém era assim vagante e vago. Meio vesgo, surpreendia-se ao se olhar toda vez que se via.

                                   Agora que sou também homem maduro, sinto saudades do boêmio poeta de minha juventude. Nunca mais o revi nas horas undécimas das madrugadas, talvez porque eu já não suporte crepúsculos e me deixe quieto na angústia doméstica das televisões. Frente ao espelho no banheiro pareço reencontrá-lo cheio de versos sorrindo para mim, ao tempo em que passa a mão pelos ralos cabelos brancos de sua cabeça que agora é a minha. Hoje, como nunca, quisera o engano de minha mãe.

 Joaquim Cesário de Mello

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