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POESIA: SAFRA 80

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009
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Egon Schiele

Recentemente, a respeito do HUMANASBLOG, a amiga Talita Creder comenta quase indagando-me que não sabia que eu escrevia poesia. Respondi-lhe acanhadamente que eu era poeta no início dos anos 80 (ainda senti em mim resquícios de uma severa autocrítica mutiladora que sempre me acompanhou nessas horas de me reconhecer poeta. Talvez tenha a ver com meu pai, poeta e escritor falecido quando eu tinha tão somente 10 anos de idade). Pois é, lá estava eu como que lutando comigo mesmo quando me intitulava timidamente de poeta. Esta mesma censura superegóica foi naquele tempo (nos idos dos anos 80) detectada pelo jornalista, escritor e crítico de arte Paulo Azevedo Chaves (por onde andará Paulo?) quando escreveu ele: “Joaquim Cesário de Mello é um poeta de talento, mas paralisado, frequentemente, em sua criação por uma excessiva autocrítica. Pena que tenha ficado sem escrever, cerca de um ano, em virtude dessa atitude algo castradora de seu mérito já comprovado como poeta. Os poemas que ele me enviou recentemente pelo Correio revelam sua apreensão sensível e exata dos fatos do dia-a-dia, da fluidez de seu mundo interior, num clima entre o romântico e o onírico, em versos, num ritmo que lhe é próprio, que condensam suas emoções, a profundidade de suas sensações, a delicadeza de seu espírito e de suas percepções.”

Hoje à distância dos anos, ao me deparar com meus entulhos literários guardados em um fundo de gaveta, reconheço realmente as palavras de Paulo Azevedo Chaves. Passados tantos anos posso melhor enxergar beleza poética na maioria dos meus escritos juvenis. Sim, há poesia naqueles versos, e de boa qualidade lírica até. Imagens e cenas poéticas que me mostram que a inquietitude que hoje carrego já vinha então de tão antes.

Os anos 80 foram anos efervecentes literariamente falando na cena recifense. Proliferaram, à época, inúmeros jornaizinhos literários e vários foram os poetas daquela safra. Entre tantos convivi com alguns, tais como Eduardo Martins, Chico Espinhara (falecido ano passado), Cida Pedrosa (hoje ainda uma batalhadora pela poesia, editando o site Interpoética cujo link encontra-se ao lado do nosso blog em Sites Associados), Héctor Pellizi, Manoel Constantino, Vernaide Wanderley, Inaldo Cavalcanti e Dione Barreto. Tempo da Livro 7 e dos bares na Sete de Setembro. Tempos de poesia e ousadia.

Assim, debruçando-me sobre meu passado recém-encontrado em pastas de arquivo hibernantemente guardadas em uma gaveta qualquer, republicarei aqui uma parte daquela produção dos anos 80 (que estarei chamando no HUMANAS BLOG de “Poesia: Safra 80”), a grande maioria publicada nas páginas do Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, principalmente no primeiro. E iniciarei com um poema dedicado ao próprio Paulo Azevedo Chaves que, à época tanto me incentivou e ajudou (este poema foi publicado no Diário de Pernambuco na primeira metade da década de 80). Para Paulo com o mesmo carinho e amizade de mais de um quarto de século:

 

O HOMEM SENTADO NO ESCURO
OU UM POEMA PARA PAULO

O homem sentado,
debruçado sobre suas víceras,
medita,
enquanto a tarde e as bananas                   
apodrecem na fruteira
distantes do mar.
Seu rosto entre sombras
lembra um anjo barroco,
desses que habitam velhas igrejas
e suas mãos
– tuas mãos – côncavas,
cheias de carícias inacabadas,
repousam nas pernas
como duas pombas entrelaçadas.
(No escuro uma multidão
de olhos o espreitam,
mas não há gatos nem demônios,
apenas a solidão quieta dos móveis
e uma frenética muriçoca
que voa em círculos
como uma moça
que despenca do trapézio).

 Joaquim Cesário de Mello 

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