HumanasBlog


TEATRO EM FOCO

Posted in Notícias e Eventos por Joaquim Cesário de Mello em julho 31, 2009

 

 

 

 

 

 

A partir dos dias 22, 23 e 29, 30 de agosto do presente ano, teremos em cartaz no Teatro Barreto Júnior, sempre às 20:00 horas, a exibição da peça “A DERRADEIRA CEIA”, de autoria de Luiz Marinho, sob direção de Normando Roberto Santos.

Segundo a psicóloga e colaboradora do Humanasblog, Flávia Emília Coimbra, Luiz Marinho com ” A Derradeira Ceia” nos remete ao sertão  do abandono, da solidão, do medo, do fanatismo, do latifúndio … da traição, dos coiteiros que, por oportunismo, defendiam o cangaço em troca de bens materiais. Tipos ” psicológicos ” que refletem sobre sua condição humana de um modo limitado, desejando outras possibilidades de vida, embora a primeira saída fosse a violência no cangaço, e ou, alistando-se nas forças militares ( os volantes ). Os homens principalmentes eram obrigados a serem maus e as mulheres sujeitas a uma serie de humilhação e submissão. A Deradeira Ceia seria no caso uma traição de coiteiro ao Lampião num possível envenenamento  …  Assista. O que acontecerá …
      Prossegue Flávia Emília, na página 85 … ” na A Derradeira Ceia “, vemos a prepotência do latifúndio, na pessoa do aludido fazendeiro, que expulsa Saturnino de suas terras, destruindo sua lavoura e nada lhe dando em troca; a atitude do próprio Saturnino que, desiludido com a justiça dos homens ( assim como acontecera com Lampião ), resolve virar coiteiro do Rei do Cangaço  em troca de uma vida material mais confortável. Enfim, as cenas e as atitudes violentas, signos de um universo de valores em conflito, no qual o limite entre o certo e o errado se revela extremamente ténue “.

A afilhada de Nossa Senhora da Conceição, peça exibida em 1973

"A afilhada de Nossa Senhora da Conceição", peça exibida em 1973

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A SENSUALIDADE VOCAL DE RUFUS WAINWRIGHT

Posted in Música por Joaquim Cesário de Mello em julho 30, 2009

Recentemente reassistindo no canal por assinatura CULT o filme tributo à Leonardo Coehn “I´am Your Man” (2005) deparei-me mais uma vez com a performance sedutora e a voz sensual de Rufus Wainwright. E olhem que no filme em si havia um leque imenso de bons, muito bons, artistas (entre eles Linda Thompson, Nick Cave, Bono e a própria banda U2, entre outros), embora muitos sejam desconhecidos por estas paragens. Rufus, em meio a eles, se destaca, não somente pelo depoimento quase hilário com que menciona seu primeiro encontro com Leonardo Coehn quando este estava de cuecas comendo Miojo, mas por sua enorme presença em palco. Sua interpretação das músicas Hallelujah e Everybody Knows (ambas composições de Leonardo Coenh) são magnéticas, razão pela qual contemplo e ofereço ao eventual transeunte aqui no HUMANASBLOG um pouco de Rufus Wainwright.

Rufus Wianwright é um cantor e compositor canadense-americano, tendo sido em 1998 aclamado pela famosa e respeitada revista Rolling Stone como “o melhor artista do ano”. Embora não faça muito sucesso comercial, Rufus é um artista musical cultuado e muitas de suas músicas (composições e interpretações) já fizeram parte de trilhas sonoras de filmes, entre eles O Segredo de Brokeback Montain, Moulin Rouge, Shrek e Aviador. Conheça mais acessando: Rufus_Wainwright

Para o blogueiro Thiago Pereira,  Rufus seria uma espécie de “quinta neurose ambulante e adorável de Sex And The City com perfeição”. Outro comentário retirado na WEB da vida é o de Alexandre Petillo que afirma: “imerso na escuridão da alma, perdido num labirinto de desilusões e pecados, Rufus não tem medo de encarar os demônios e escancara o que existe de mais sujo em suas entranhas. E tudo isso com refrões ganchudos e boas harmonias. Rufus não tem, por exemplo, pudores em cantar calmamente sobre o homem que partiu seu coração.”

Começarei com Hallelujah e após um vídeo montagem com a voz de Rufus cantando Everybody Knows, que aqui também foi apresentada na versão com o próprio Leonardo Cohen (vide post pertinente no espaço reservado à Memória Cultural). Vejam e ouçam também Chelsea Hotel (watch?v=f4rQ03pl2Og&feature=related), Somewhere Over The Rainbow (watch?v=hrnT2VEsuHc&feature=related) e Cigarettes And Chocolat Milk (watch?v=i6N0sNMKFO4).

A COMPULSÃO EM TEMPOS MODERNOS

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em julho 28, 2009
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O ser humano sempre sofreu de compulsões e haveremos também de concordar que qualquer coisa,  idéia ou substância pode servir ao ser humano como objeto de sua compulsão. Há na “alma humana” uma inclinação à compulsividade e à adição. Os comportamentos compulsivos ou adictos são hábitos adquiridos na insaciável busca humana pelo alívio de sua ansiedade ou angústia. Tais hábitos ou aprendizagens, que se transformam pelas repetições constantes em ações/respostas automáticas, resultam por se tornarem desadaptativos e o que era antes uma espécie de “estratégia mental” para se livrar da ansiedade acaba gerando, paradoxalmente, mais ansiedade e com isto mais comportamentos compulsivos.

Entre tantos possíveis comportamentos adictos (sexo, trabalho, drogas, internet, jogo, etc) temos os pertinentes aos Transtornos Alimentares. A compulsão alimentar envolve uma ingestão inadequada, excessiva ou reduzida de alimentos, sempre feita de maneira incontrolável e impulsiva. Sabemos que desde a nossa primeira infância (oralidade) o alimento está associado a sensações de relaxamento, prazer, alívio e conforto. Toda vez que o bebê sente-se desconfortável por sentir fome, e por isto chora, seu saciamento é seguido se atenuação, alívio e prazer. Associe a isto o fato ainda de ao ser amamentado o bebê tem tambem o contato físico com o corpo da mãe, seu calor, carinho e aconchego. Alimentar-se assim dá sentimentos de segurança que serão básicos para o surgimento da auto-confiança no ser humano. Um ser humano mais auto-confiante tem uma melhor auto-estima e, dessa maneira, está mais aparelhado para os enfrentamentos da vida. Crescemos, portanto, associando  alimento e prazer.

Afirmamos acima que o ser humano de alguma maneira sempre sofreu e sempre sofrerá de compulsões, ou ao menos estará sempre correndo risco. Acontece que nas últimas décadas temos tido um elevado aumento nos comportamentos compulsivos, talvez devendo-se ao fato ao tipo de sociedade que estamos formando e vivendo. A modernidade em sua fase mais consumista e hedonista (pós-modernidade) tem como cada vez mais uma característica à dimensão compulsiva. Como certa vez disse Giddens, “o fato de hoje podermos nos tornar viciados em qualquer coisa – qualquer aspecto do estilo de vida – indica a real abrangência da dissolução da tradição. O progresso do vício é uma característica substantivamente significante do universo social pós-moderno, mas também um ‘índice negativo’ do real processo de destradicionalização da sociedade”.

Tal destradicionalização da sociedade leva-nos a um modo de viver vazio e desprovido de possibilidades emancipatórias. Ao não reconhecermos um propósito maior para a vida estamos muito mais expostos aos comportamento adictos e compulsivos onde tentamos – inultilmente diga-se de passagem – pseudotranscender nossa angústia existencial.

Estamos falando disso agora, pois é de nosso interesse levar o transeunte aqui presente a ler a matéria publicada na Revista Psique nº 39, que leva o título de “Compulsão e Distúrbios Alimentares” (matéria de capa “Compulsão: um mal moderno”). Leiam, pois, acessando: artigo131301-1.asp?o=r

E ainda para quem deseja ampliar e aprofundar sobre o tema compulsividade e modernidade, sugerimos uma leitura complementar em “A Compulsão e o vício da modernidade” de Leonardo de Araújo e Mota (publicado na Revista Humanidades nº 02/2002): 1518.pdf

Tema aberto para debate, portanto…

DEU NA MÍDIA

Posted in Mídia por Joaquim Cesário de Mello em julho 27, 2009

 

Embora esteja com mais de 85 anos de idade, o escritor português e prêmio Nobel de Literatura (1998),  José Saramago, mantém a lúcidez crítica sobre a sociedade em que vivemos, nossos rumos e cenários. Vejam, por exemplo, a recente entrevista concedida por Saramago (que desde 2007 tem um instigante e atualíssimo blog “caderno.jose saramago.orgcaderno.josesaramago.org) ao jornal O Globo. Vejam a entrevista na íntegra: #208101

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em julho 25, 2009
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MARIA NÃO DORME MAIS AQUI


“Já vou. Até manhã”, despediu-se fechando a porta a empregada a quem denominava, por vergonha ou desprezo, de “minha secretária”.

Como que em torpor, sequer lhe dirigiu um resmungo de volta, talvez nem notasse que somente sobrara ela naquela casa carpintada de silêncios. Como antes estava, permaneceu debruçada sobre si mesma já havia bom tempo. Dispersa de atenções ou olhares, mal percebia o enegrecimento que aumentava à medida em que a tarde se esvaia, acariciando-lhe a silhueta magra com a sutileza de um reprimido amante que se vai sem dizer adeus, levando consigo impronunciáveis paixões inexprimíveis. Jamais este dia moribundo retornaria aos seus parcos afazeres domésticos, muito embora o tédio fosse seu único e último resquício de imortalidade. Quando amanhã o amanhã vier, com ele novamente Maria, retirar-se-á de seus internos abismos para repetir movimentos e atos por entre portas e vãos, como se a existência toda fosse uma gigantesca casa por onde perambulam as horas – estas ilusórias marcações de nossas repentinas passagens. Não é ela, pois, quem cresce, é a casa que diminui, a tal ponto e maneira que chegará o instante em que não haverá mais lugar a se habitar ou se guardar. Findar é se desabrigar dos tetos e das certezas.

Gostava de invernos. Abraçava, com a quentura maternal de uma mãe que nunca fora, o frio que lhe era agora companhia. Lá fora as pessoas corriam irrequietas, batendo umas nas outras, evitando a chuva intermitente e as poças d’água escurecidas de barros e asfalto; de sua janela por sobre a cidade pareciam formigas agitadas flutuando desesperadas pelas calçadas em busca de inúteis salvações. Os homens externos navegam sem leme, cogitava lembrando-se das remotas brincadeiras infantis, quando afogava formigueiros com suas coloridas bisnagas de carnaval (o perigo às formigas são as crianças solitárias e suas impiedosas vinganças lúdicas). Quantas culpas ainda lhe restariam a assombrar o sono, despertando madrugadas? O mundo lhe era então também uma imensa bola molhada que começava a partir da janela de sua sala – se acaso estirasse o braço à rua recolheria a mão vazia, banhada de líquidos e ninguéns. Subitamente incomodou-lhe a transitória idéia de ser a última formiga, sobrevivendo aos jogos sádicos de alguma outra criança, bem maior e mais solitária do que ela.

Ocupava-se de distrações e cigarros, enquanto a primeira chuva de inverno umedecia o vidro e a alma. Recolhida que nem um pássaro à tranqüilidade de sua gaiola, observava silente os soluços da casa e a agonia dos insetos morredores. Em outras épocas e estações correria de imediato à televisão ou rádio a invadir-se de sons e barulhos alheios, porém, hoje, em que a noite inteira se encharcava, seu interior era duas vezes e um pouco mais profundo que o tamanho do universo. Em algum lugar que não ali, uma folha caía e declinava do céu para logo ser pisada na indiferença dos passos apressados. Quando já não mais chovesse, e é certo que um dia haveria de se fazer quenturas e claridades, limpariam-se as ruas e levariam seu amassado corpo seco de seiva e a vida continuaria seu ciclo e um galo cantaria.

A iminente coriza lhe escorria do nariz à boca, anunciando os inevitáveis resfriados invernais. Sempre sensível às mudanças e oscilações, aguardava a gripe e seus remédios com a mesma complascência de quando esperava o mar lhe devolver a tiara perdida nos mergulhos afoitos de sua meninice, a mesma tiara que fora o penúltimo presente de seu pai, dado antes dele partir para nunca mais voltar, como aquela tarde cinza em que estava distraída de si à saída de Maria, (atrás dos morros dos horizontes do quarto da empregada sepultam-se as tardes em avermelhados cemitérios de por-de-sol). Anos depois recebera dele um cartão postal, última lembrança e notícia de seu paradeiro e de seu rupturo amor – crescera assim, na casa em que encolhia, farta dos homens e de seus prematuros abortos afetivos. De cedo, jurada não sofrer abandonos, cumpriu por completo sua promessa, cercando-se de móveis e objetos. As coisas, por não sentirem faltas, não buscam outras coisas, elas são fiéis a seus donos, não vão nem morrem jamais, no máximo, somente, se quebram ou se inutilizam.

O quarto da empregada não era amplo nem vasto, mal cabendo guardar todos seus inusados pertences. Os cacarecos e as quinquilharias de décadas amontoavam-se uns sobre os outros, emparelhadas e empacotadas com severa ordem e zelo. Cada pacote e cada reservado canto representava um ano, como se construísse organizadamente uma biografia de objetos, onde a história hibernava, empilhada e datada, anônima, por dentro de antigas caixas de papelão. Do seu passado apenas algo não encontrava guarida nos invisitados arquivos de si: o cartão postal, impecavelmente conservado em envelope de plástico transparente. Precisava dele e da força do ódio que tanto lhe suscitava. De tempos em tempos, perguntava-se se seu fugitivo pai lhe havia dado irmãos, e se assim o tivesse feito quem os seriam? O homem da padaria? A lojista do shopping? O motorista do taxi? O caixa do banco? A atendente do consultório? A mulher da casa ao lado? O transeunte que corre protegendo-se da chuva?… Qualquer um e nenhum poderia ser. As relações humanas lhe eram potencialmente fraternas e conhecer tinha sempre um leve sabor de incesto.

Inúmeros são seus irmãos, indefinidos rostos e ofícios, a eles não legaria seu espólio de caixas. Sem herdeiros ou descendentes, restaria, após, somente Maria e os comerciantes dos mercados de sucata. Breve mais um ano se encerraria, mais uma caixa se fecharia. Sua idade tem o peso dos objetos e o tamanho dos espaços que ocupam, desalojando Maria e suas pequenas mudas de roupa. Nas raras vezes em que lhe dirigia o olhar, sem a exigência do cumprimento dos mandos, não entendia como aquela triste mulher, cujas mãos calejadas de vida e a face camuflada de rugas, mais velha e mais sofrida do que ela, pudesse arrastar consigo miúda trouxa de tão poucas propriedades. Era como se a juventude fosse uma questão de menos quantidade. Por isso achava que deixaria a Maria o quarto que a esta nunca pertencera e o fantasma de si mesma, assombrando aranhas e baratas, a principiar das coisas que sobreviveram.

Uma noite pode ser longa quando dela nada se espera, porém a interminabilidade do momento tem o instante de seu término. Os iniciantes raios de sol despontam como lâminas rasgantes por entre nuvens esvaziadas de chuva. O mormaço que se prenuncia logo exalará o cheiro nauseante dos esgotos entupidos e as águas empoçadas, ao contrário das folhas, retornarão aos céus levando a escuridão que se foi, (quando outra vez se fizer tempestades, choverão noites sobre a cidade). As pálpebras areiam-se de sono. Não é hora de dormir, pensa, e sim de acordar. O ruído da maçaneta da porta que se abre a faz lembrar, e pede como quem ordena antes que se dê bom dia: “Maria me vê um chá de alho e o xarope que está em cima da geladeira”.

Joaquim Cesário de Mello

O MUNDO LÍQUIDO E O MEDO SÓLIDO

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em julho 24, 2009

O medo é um afeto humano primário e necessário à vida e a sua sobrevivência. Desde nosso nascimento já trazemos em nós o sentimento do medo, um medo primal de caráter paranóico por excelência e natureza. O medo haverá de gerar em nós a cautela e com ela vivemos a existência minimizando possíveis riscos. Acontece que o medo quando exagerado nos paraliza e nos congela, limite e tolhe o desenvolvimento de nossas potencialidades e auto-realizações. O medo em excesso nos gera infelicidade e sofrimento além da conta. Sim, precisamos nos sentir seguros, mas da mesma forma segurança demais é consequência do medo em excesso e esta segurança exacerbada (ou a sua necessidade) nos entorpece, igualmente nos tolhe e nos atrofia a liberdade e o desabrojar de nossa mais legítima humanidade.

Moises Hergueta

Moises Hergueta

Vivemos uma época cuja ideologia do bem-estar pessoal e individual impera e nesta “cultura narcisista” o diferente e o estranho nos incomoda e nos ameaça e assusta. A figura e um outro estranho “só adquire importância quando se presta a satisfazer os nossos objetivos egoístas”, nos diz Renato Nunes Bittencourt em sua texto publicado na Revista Filosofia, número 36, e que ora sugerimos a leitura através do endereço: o-medo-na-era-da-liquidez-o-traco-mais-141617-1.asp

Edvard Munch

Os tempos contemporâneos (mundo ocidental), chamados por muitos de pós-modernidade, são tempos de uma modernidade líquida, se ficarmos com a feliz expressão de Zygmund Bauman. Para Bauman o que mudou na modernidade de hoje para a modernidade de ontem foi a solidez que se transformou em liquidez, no sentido de que atualmente tudo parece ser volátil, inclusive as relações interpessoais-afetivas, e com isso as próprias relações humanas vão perdendo consistência e estabilidade. A velocidade com que vivemos a vida e nossas relações pessoais nos deixa cada vez mais incertos e inseguros. Nossas inevitáveis fragilidades por vezes se ocultam em meio a tanta tecnologia, mas se revelam na maneira como sofre o ser humano contemporâneo.

E no existir humano em um cenário como o atual é que  o sentimento do medo nos espreita sorrateiro pelas brechas de nossas pseudos seguranças e assim começamos temer tanto e quase tudo, seja pelo medo de perder o conforto material e as conquistas pessoais, seja pelas crises econômicas ou pelas instabilidades da vida urbana, ou até mesmo pelos perigos próprios da vida em si mesma. Por isto, repito, vale a pena ler a matéria sugerida, cujo título é “O MEDO NA ERA DA LIQUIDEZ”, acessando o link acima destacado. Vale, igualmente, uma boa discussão sobre o tema.

AS CINZAS DE ÂNGELA

Posted in Notícias e Eventos por Joaquim Cesário de Mello em julho 23, 2009

Alan Parker é um cineasta cujo cinema gostei muito nos anos 70/80 (Pink Floyd The Wall, Asas da Liberdade, Expresso da Meia Noite, Mississipi em Chamas), mas que, depois, por muito tempo não mais me chamava a atenção ou me empolgava, exceto por um filme produzido em 1999 que assisti ao início dos anos 2000. Falo de “As Cinzas de Ângela” que conta a história pungente de uma mãe irlandesa pobre e seus vários filhos, que é casada com um homem que, embora a ame, ama-a de maneira conflituosa e problemática, situação esta agravada tanto pelo seu vício à bebida como pelo desemprego que atinge a praticamente todos. Trata-se de uma história triste que relata a dolorosa luta cotidiana pela sobrevivência em meio a miséria. E a condução da narrativa se faz pelo olhar de um dos filhos de ângela, Frank. É um filme emocional e emocinante e que resgata a boa verve e talento artístico de Alan Parker.

Somente tempos depois soube que o filme baseia-se no livro “Angela’s Ashes” do escritor americano-irlandês Frank MsCourt. O livro por sua vez é auto-biográfico e que lhe valeu um prêmio Pulitzer. Pois é, o Frank da história do filme existiu e realmente se chamava Frank, Frank McCourt. Por que destaco isso? Porque hoje soube da morte de Frank McCourt, aos 78 anos, devido a complicações originadas de um câncer de pele. Morreu nos EUA, país para onde retornou ainda jovem (nascido em Nova York, Frank e sua família inicialmente foram morar na terra natal de seus pais, Irlanda, tentando assim fugir da depressão econômica pela qual passava os EUA na década de 30. Frank sublimou sua infância miserável transformando-a em literatura, e o livro “Angela’s Ashes” foi de imediato um sucesso de crítica e público. Publicou também “Tis” e “Teacher Man”, este já em 2005 (o livro “As Cinzas de Ângela” é de 1996).

Fica, portanto, aqui o registro e a notícia, bem como a sugestão de se ler o livro ou assistir ao filme ou ambos.

POESIA CHILENA

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em julho 21, 2009

Quando paramos para pensar sobre a literatura e a poesia chilena um nome vem de imediato e inteiro a nossa mente: Pablo Neruda (Nobel de Literatura em 1971). Sim, Pablo Neruda é sem sombra de dúvida a voz mais expressiva da literatura chilena (ao lado de Gabriela Mistral, Nobel em 1945), um dos maiores nomes da poesia castelhana, autor de obras como “Canto general”, “Tentativas del hombre infinito”, “Confieso que he vivido”, “Cien sonestos de amor”, entre outros. Contudo, entretanto e todavia a poesia chilena não pode e não deve ficar como que resumida a tão somente um nome, mesmo que este nome seja da importância e do quilate de Neruda. Há na literatura chilena escritores como Joaquín Belo, Roberto Bolaño, José Donoso, Ramón Díaz Eterovic, Gabriela Mistral, Luis Sepúlveda, Roberto Ampuero, Pedro Prado, Isabel Allende, Augusto d´Halmar entre vários. Vamos, pois, aqui e agora nos dedicar um pouco à poesia que vem lá daquele nosso país-irmão banhado pelo Oceano Pacífico e que muito me lembra vinho, principalmente os de uva carménère.

GABRIELA MISTRAL


SONETOS DA MORTE

(Soneto I)

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
Abaixar-te-ei à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitar-te-ei na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido,

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastar-me-ei cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!

Bororo

Bororo

GERMAN GANA MUÑOZ

meu guarda-chuva traz uma imensidão de estrelas
que se abrem e desaparecem
depois das nuvens
no céu
um aquecedor de escalopes está na praia observando
os meninos escapam com areia colada nas costas
procurando novas razões para voar
um sem fim de cores e o vermelho que não termina nunca
que se converte numa corrente maníaco-depressiva
começando pelos braços
produzindo um som ligeiro
que recorda o vazio
das articulações
entre os corpos
as uniões
as proximidades
a menina brilhante desenha carinhas felizes
sobre as balas que encontra
nas gavetas de seu pai
só existem balas

VIOLETA PARRA

GRACIAS A LA VIDA

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.
Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado
Obrigada à vida…

JULIO BARRENECHEA


DIÁRIO MORRER

Não sou eu quem vive,
é o mundo que vive em meus olhos.

Juan Corvalán

Juan Corvalán

As cores, o ruído
no atento ouvido.
A suave pele de mármore
Vive no tacto fino.
No úmido paladar moram os sabores,
e no olfato
a alma das flores.

Eu não vivo, apenas capto a vida.
Sou o pobre recinto
onde a luz passageira
asila sua vida permanente.

Sou o parente que sofre pelas coisas mortais.
Assisto ao funeral de cada mariposa,
e sinto que perco algo, ao morrer cada rosa.

Se eu pudesse ir-me só, se eu pudesse
ir-me sem tudo o que vai comigo.
Vendo a juventude não envelheceria.
Vejo que envelheço em meus amigos.

Ó! profundidade cinza! Ó! distância!
Bruma dos espelhos embaçados.
Como se vão secando as pupilas!
Como se vão os rostos afastando!

Ah! quem pudera deter os rostos.
que não continuem fundindo-se no ar,
que não caiam ao fundo dos olhos,
que sigam na luz, que não naufraguem.

Se eu pudesse ir-me só, se pudesse
ir-me sem tudo o que vai comigo.
Se o meu morrer fosse só uma sombra
que sozinha se consome no incendiado.

Se enquanto vou morrendo, entre as coisas
tudo fosse ficando intacto e vivo.
Se o manancial secreto do meu pranto
Em grades de cristal fosse vertido,
ante o recinto de cor e de canto.
Se eu apenas pensasse em meu passado,
não morreria tanto como eu morro,
porque não morro em mim, mas no amado.

HUMBERTO DÍAZ CASANUEVA


O PENTINENCIAIS

Estes são os restos que me
devolve
o sonho
falta-me uma veia
falta-me uma mão
para espremer um pássaro

Uma asa de pedra grudada
à minha alma
para empunhar minha morte

Saúdo ao sol que me arremessa
como fumaça

Sol
Temos que condescender
Temos que arder às
escuras

Dar-te-ei uma Grande Pálpebra
Dar-me-ás meus olhos brancos
Meu raio que toma meu
peso

Vou inclinado nas
águas
vou vestido de minha pele
vou
e ao ponto de chegar que
sucede?
Quem corta a minha desmemoriada
mão?

Com animais mortos nos
ombros
percorri a solidão
terrena
Vi cinzas
paradas
A terra apenas terra é
lua
A lua é um peito cortado
da terra

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Veja mais poesia chilena acessando: chile.html

RECRUTA ZERO: UM CLÁSSICO DAS TIRINHAS E DOS GIBIS

Posted in Humor por Joaquim Cesário de Mello em julho 20, 2009

Estava noite dessas em conversa com um grupo de amigos e eis que surgiu no assunto notívago a lembrança do personagem em quadrinhos RECRUTA ZERO. Bateu aquela saudade gostosa que só a nostalgia dos bons tempos infantis nos suscita (que bom que tivemos infância, não?). Pois é, quem era o RECRUTA ZERO?

Soldado boa praça, preguiçoso e sempre bem-humorado. Era, por seu estilo de ser e maneira, constantemente perseguido pelo igualmente famoso SARGENTO TAINHA, milico excessivamente rígico a quem o Recruta Zero levava a loucura e o enrolava com sua esperteza aliada a certa “imbecilidade” do próprio sargento Tainha.  Percebe-se, de imediato, que o Recruta Zero é uma boa sátira ao sistema militar – e não foi à toa então que à época (Guerra da Coréia e posteriormente também a guerra do Vietnam) as Forças armadas americanas tentassem censurar e impedir a circulação do personagem com alegação de que o Recruta Zero afrontava à ordem militar (e afrontava mesmo). Claro que tudo isso só percebi depois, depois da infância, pois menino o que via de fato era pura diversão. Agora adulto, compreendendo as intrelinhas do Recruta Zero, mantenho as mesmas impressões de criança, ou seja, rever e ler Recrura Zero é muita saudável diversão.

Outros personagens compunham a turma: Oto (cachorro do Sargento Tainha), Dentinho (o bocó da turma), Cuca (cozinheiro), Roque (quem escreve o jornal do quartel) , Platão (o intelectual), Tenente Escovinha (oficial puxa-saco) e General Dureza (um general incompetente e alcoólatra que vive na esperança de vir a ser promovido e ir Pentágono), entre outros.

O personagem criado por Mort Walker desde a década de 50 ainda é publicado em jornais americanos.  Vale a pena conhecer ou rever um pouco o Recruta Zero.

SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE I

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em julho 19, 2009
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O que chamamos de contemporaneidade nos remete fatalmente a termos como capitalismo, sociedade pós-industrial, sociedade de consumo, pós-modernidade, cultura narcísica, indústria cultural, cultura de massa, sociedade das mídias, sociedade da informação ou eletrônica, entre outros. Falar em contemporaneidade, portanto, em termos ocidentais, é inevitavelmente falar em sociedade de consumo e consumismo.

Se formos basear no que diz o wikipédia, sociedade de consumo é um termo que designa o tipo de sociedade que se encontra numa avançada etapa de desenvolvimento industrial capitalista e que se caracteriza pelo consumo massivo de bens e serviços, disponíveis graças a elevada produção dos mesmos. Mas, ATENÇÃO, CUIDADO, a definição assim tão enxuta nos camufla muitas coisas e muitas ideologias se fazem presentes de maneira sutil e silenciosa. Vejamos um pouco mais do que é esse pretenso “mar de rosas“.

O capitalismo que hoje se vive é um capitalismo avançado se compararmos aos seus primórdios mercantis e industriais. Segundo Frederic Jameson, em seu livro “Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio” ´(Ed. Ática, 2002), vivemos uma era de capitalismo tardio que é uma espécie de sucedâneo do anterior estágio do capitalismo imperialista, tendo ele hoje uma face multinacional e de mercado global. Para Jameson a pós-modernidade é definida como uma tentativa histórica de se pensar o presente em uma época que já se esqueceu de pensar dessa maneira, em uma ânsia contínua e incessante de se buscar o instante para logo a seguir se buscar o próximo instante. E dentro da lógica contemporânea há de se ver a pós-moderno “como a produção de pessoas pós-modernas – como diz Jamenson – capazes de funcionar em um mundo sócio econômico muito peculiar”.

Assim, podemos dizer que economicamente o avanço do desenvolvimento do sistema capitalista desembocou em um estágio (atual) de abundância e excessividade (bases do consumismo como modelo econômico), e com ele sua lógica: a lógica consumista. A lógica consumista do sistema capitalista contemporâneo forma seres obedientes à própria lógica, ou seja, consumidores em série. Afinal, sem consumidores ávidos não haveria a sociedade consumista como a entendemos e vivemos hoje. A mentalidade é, pois, desejar, adquirir, consumir, descartar, voltar a desejar novamente e assim por diante em uma insaciável e quase interminável círculo vicioso (Carrosel do Consumo).

O homem contemporâneio, pois, agora transformado em consumidor (homo consumens), vive como que mergulhado em um mar profundo e infindo de mercadorias e imagens. Acha-se escravizado pela tecnologia e, sem ela, considera não conseguir viver. Entretanto, o que é comodidade virou acomodação. Os objetos e toda a maquinaria tecnológica, celebrizadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massa, perdem cada vez mais o sentido de serem coisas a serviço do homem e se transmutam em senhores do próprio homem. Engana-se aquele que pensa ser os shoppings, lojas, centros comerciais, supermercados e mercados diversos o locus do consumo. Como bem descreve Baudrillard (“A sociedade do consumo”, Ed. Lisboa, 1987) o lugar do consumo é a vida cotidiana: este somatório de fatos banais, gestos diários e repetição.

Não é difícil perceber e criticar que o modelo vigente de sociedade de consumo (consumismo) é um modelo a serviço de sua base econômica (infraestrutura) e das forças capitalista (capital) aí existentes. Pessoas, assim, acabam sendo “convertidas” em meros consumidores das falsas necesidades geradas pela força e necessidade do próprio consumismo industrial. O prazer corre, dessa maneira, um forte risco de se reduzir a simplesmente o prazer do consumo em si, tão somente. Freud, em seu célebre livro “O mal estar na civilização (1929), já nos  alertava que se o progresso da humanidade seguisse apenas o avanço tecnológico e não levasse em conta a dimensão humana, o mal-estar, a angústia das pessoas iria aumentar cada vez mais. O rimo da vida acelerado nos impõe desgastes consideráveis e significativos em nossos laços fetivos interpessoais, ao secundarizarmos, por exemplo, família e amigos.

No império e tirania do sistema de consumo sucumbre o indivíduo como sujeito de sua própria singularidade. Adorno já dizia (“A indústria cultural e sociedade”, ed. Paz e Terra, 2002) que tal falência se explicita quando a ilusão no indivíduo o leva a um comportamento padronizado e adequado ao modo de produção de uma indústria cultural geradora, por sua vez, de uma cultura de massa. Segundo ele o que predomina é a pseudo-individualidade: individualidades produzidas em série. Como que robotizados, a lógica do consumo e do capital nos invade e domina nossos corações e mentes. O eu, o verdadeiro eu do sujeito (?) contemporâneo, atrofia-se.

O HUMANASBLOG, como afirma sua proposta originária (vide acima ‘´PERFIL DO BLOG”), insere-se no front do questionamento do tipo de sociedade que vivemos e do tipo de sociedade que sofremos, afinal, como lemos em Bauman (creio que em “O amor líquido” editado pela Zahar em 2004) devemos deixar de procurar soluções biográficas para problemas socialmente construídos.

Tempos em tempos voltaremos ao tema em busca de melhor aprofundá-lo em sua ampla complexidade e trama. Para agora finalizarmos, ou melhor, dar uma breve pausa para mais adiante retornar, deixamos com vocês este pequeno videoclipe sobre o assunto por ora abordado. Vejam:

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