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POESIA CHILENA

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em julho 21, 2009

Quando paramos para pensar sobre a literatura e a poesia chilena um nome vem de imediato e inteiro a nossa mente: Pablo Neruda (Nobel de Literatura em 1971). Sim, Pablo Neruda é sem sombra de dúvida a voz mais expressiva da literatura chilena (ao lado de Gabriela Mistral, Nobel em 1945), um dos maiores nomes da poesia castelhana, autor de obras como “Canto general”, “Tentativas del hombre infinito”, “Confieso que he vivido”, “Cien sonestos de amor”, entre outros. Contudo, entretanto e todavia a poesia chilena não pode e não deve ficar como que resumida a tão somente um nome, mesmo que este nome seja da importância e do quilate de Neruda. Há na literatura chilena escritores como Joaquín Belo, Roberto Bolaño, José Donoso, Ramón Díaz Eterovic, Gabriela Mistral, Luis Sepúlveda, Roberto Ampuero, Pedro Prado, Isabel Allende, Augusto d´Halmar entre vários. Vamos, pois, aqui e agora nos dedicar um pouco à poesia que vem lá daquele nosso país-irmão banhado pelo Oceano Pacífico e que muito me lembra vinho, principalmente os de uva carménère.

GABRIELA MISTRAL


SONETOS DA MORTE

(Soneto I)

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
Abaixar-te-ei à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitar-te-ei na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido,

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastar-me-ei cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!

Bororo

Bororo

GERMAN GANA MUÑOZ

meu guarda-chuva traz uma imensidão de estrelas
que se abrem e desaparecem
depois das nuvens
no céu
um aquecedor de escalopes está na praia observando
os meninos escapam com areia colada nas costas
procurando novas razões para voar
um sem fim de cores e o vermelho que não termina nunca
que se converte numa corrente maníaco-depressiva
começando pelos braços
produzindo um som ligeiro
que recorda o vazio
das articulações
entre os corpos
as uniões
as proximidades
a menina brilhante desenha carinhas felizes
sobre as balas que encontra
nas gavetas de seu pai
só existem balas

VIOLETA PARRA

GRACIAS A LA VIDA

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.
Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado
Obrigada à vida…

JULIO BARRENECHEA


DIÁRIO MORRER

Não sou eu quem vive,
é o mundo que vive em meus olhos.

Juan Corvalán

Juan Corvalán

As cores, o ruído
no atento ouvido.
A suave pele de mármore
Vive no tacto fino.
No úmido paladar moram os sabores,
e no olfato
a alma das flores.

Eu não vivo, apenas capto a vida.
Sou o pobre recinto
onde a luz passageira
asila sua vida permanente.

Sou o parente que sofre pelas coisas mortais.
Assisto ao funeral de cada mariposa,
e sinto que perco algo, ao morrer cada rosa.

Se eu pudesse ir-me só, se eu pudesse
ir-me sem tudo o que vai comigo.
Vendo a juventude não envelheceria.
Vejo que envelheço em meus amigos.

Ó! profundidade cinza! Ó! distância!
Bruma dos espelhos embaçados.
Como se vão secando as pupilas!
Como se vão os rostos afastando!

Ah! quem pudera deter os rostos.
que não continuem fundindo-se no ar,
que não caiam ao fundo dos olhos,
que sigam na luz, que não naufraguem.

Se eu pudesse ir-me só, se pudesse
ir-me sem tudo o que vai comigo.
Se o meu morrer fosse só uma sombra
que sozinha se consome no incendiado.

Se enquanto vou morrendo, entre as coisas
tudo fosse ficando intacto e vivo.
Se o manancial secreto do meu pranto
Em grades de cristal fosse vertido,
ante o recinto de cor e de canto.
Se eu apenas pensasse em meu passado,
não morreria tanto como eu morro,
porque não morro em mim, mas no amado.

HUMBERTO DÍAZ CASANUEVA


O PENTINENCIAIS

Estes são os restos que me
devolve
o sonho
falta-me uma veia
falta-me uma mão
para espremer um pássaro

Uma asa de pedra grudada
à minha alma
para empunhar minha morte

Saúdo ao sol que me arremessa
como fumaça

Sol
Temos que condescender
Temos que arder às
escuras

Dar-te-ei uma Grande Pálpebra
Dar-me-ás meus olhos brancos
Meu raio que toma meu
peso

Vou inclinado nas
águas
vou vestido de minha pele
vou
e ao ponto de chegar que
sucede?
Quem corta a minha desmemoriada
mão?

Com animais mortos nos
ombros
percorri a solidão
terrena
Vi cinzas
paradas
A terra apenas terra é
lua
A lua é um peito cortado
da terra

_______________________________________________________

Veja mais poesia chilena acessando: chile.html

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