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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em julho 25, 2009
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MARIA NÃO DORME MAIS AQUI


“Já vou. Até manhã”, despediu-se fechando a porta a empregada a quem denominava, por vergonha ou desprezo, de “minha secretária”.

Como que em torpor, sequer lhe dirigiu um resmungo de volta, talvez nem notasse que somente sobrara ela naquela casa carpintada de silêncios. Como antes estava, permaneceu debruçada sobre si mesma já havia bom tempo. Dispersa de atenções ou olhares, mal percebia o enegrecimento que aumentava à medida em que a tarde se esvaia, acariciando-lhe a silhueta magra com a sutileza de um reprimido amante que se vai sem dizer adeus, levando consigo impronunciáveis paixões inexprimíveis. Jamais este dia moribundo retornaria aos seus parcos afazeres domésticos, muito embora o tédio fosse seu único e último resquício de imortalidade. Quando amanhã o amanhã vier, com ele novamente Maria, retirar-se-á de seus internos abismos para repetir movimentos e atos por entre portas e vãos, como se a existência toda fosse uma gigantesca casa por onde perambulam as horas – estas ilusórias marcações de nossas repentinas passagens. Não é ela, pois, quem cresce, é a casa que diminui, a tal ponto e maneira que chegará o instante em que não haverá mais lugar a se habitar ou se guardar. Findar é se desabrigar dos tetos e das certezas.

Gostava de invernos. Abraçava, com a quentura maternal de uma mãe que nunca fora, o frio que lhe era agora companhia. Lá fora as pessoas corriam irrequietas, batendo umas nas outras, evitando a chuva intermitente e as poças d’água escurecidas de barros e asfalto; de sua janela por sobre a cidade pareciam formigas agitadas flutuando desesperadas pelas calçadas em busca de inúteis salvações. Os homens externos navegam sem leme, cogitava lembrando-se das remotas brincadeiras infantis, quando afogava formigueiros com suas coloridas bisnagas de carnaval (o perigo às formigas são as crianças solitárias e suas impiedosas vinganças lúdicas). Quantas culpas ainda lhe restariam a assombrar o sono, despertando madrugadas? O mundo lhe era então também uma imensa bola molhada que começava a partir da janela de sua sala – se acaso estirasse o braço à rua recolheria a mão vazia, banhada de líquidos e ninguéns. Subitamente incomodou-lhe a transitória idéia de ser a última formiga, sobrevivendo aos jogos sádicos de alguma outra criança, bem maior e mais solitária do que ela.

Ocupava-se de distrações e cigarros, enquanto a primeira chuva de inverno umedecia o vidro e a alma. Recolhida que nem um pássaro à tranqüilidade de sua gaiola, observava silente os soluços da casa e a agonia dos insetos morredores. Em outras épocas e estações correria de imediato à televisão ou rádio a invadir-se de sons e barulhos alheios, porém, hoje, em que a noite inteira se encharcava, seu interior era duas vezes e um pouco mais profundo que o tamanho do universo. Em algum lugar que não ali, uma folha caía e declinava do céu para logo ser pisada na indiferença dos passos apressados. Quando já não mais chovesse, e é certo que um dia haveria de se fazer quenturas e claridades, limpariam-se as ruas e levariam seu amassado corpo seco de seiva e a vida continuaria seu ciclo e um galo cantaria.

A iminente coriza lhe escorria do nariz à boca, anunciando os inevitáveis resfriados invernais. Sempre sensível às mudanças e oscilações, aguardava a gripe e seus remédios com a mesma complascência de quando esperava o mar lhe devolver a tiara perdida nos mergulhos afoitos de sua meninice, a mesma tiara que fora o penúltimo presente de seu pai, dado antes dele partir para nunca mais voltar, como aquela tarde cinza em que estava distraída de si à saída de Maria, (atrás dos morros dos horizontes do quarto da empregada sepultam-se as tardes em avermelhados cemitérios de por-de-sol). Anos depois recebera dele um cartão postal, última lembrança e notícia de seu paradeiro e de seu rupturo amor – crescera assim, na casa em que encolhia, farta dos homens e de seus prematuros abortos afetivos. De cedo, jurada não sofrer abandonos, cumpriu por completo sua promessa, cercando-se de móveis e objetos. As coisas, por não sentirem faltas, não buscam outras coisas, elas são fiéis a seus donos, não vão nem morrem jamais, no máximo, somente, se quebram ou se inutilizam.

O quarto da empregada não era amplo nem vasto, mal cabendo guardar todos seus inusados pertences. Os cacarecos e as quinquilharias de décadas amontoavam-se uns sobre os outros, emparelhadas e empacotadas com severa ordem e zelo. Cada pacote e cada reservado canto representava um ano, como se construísse organizadamente uma biografia de objetos, onde a história hibernava, empilhada e datada, anônima, por dentro de antigas caixas de papelão. Do seu passado apenas algo não encontrava guarida nos invisitados arquivos de si: o cartão postal, impecavelmente conservado em envelope de plástico transparente. Precisava dele e da força do ódio que tanto lhe suscitava. De tempos em tempos, perguntava-se se seu fugitivo pai lhe havia dado irmãos, e se assim o tivesse feito quem os seriam? O homem da padaria? A lojista do shopping? O motorista do taxi? O caixa do banco? A atendente do consultório? A mulher da casa ao lado? O transeunte que corre protegendo-se da chuva?… Qualquer um e nenhum poderia ser. As relações humanas lhe eram potencialmente fraternas e conhecer tinha sempre um leve sabor de incesto.

Inúmeros são seus irmãos, indefinidos rostos e ofícios, a eles não legaria seu espólio de caixas. Sem herdeiros ou descendentes, restaria, após, somente Maria e os comerciantes dos mercados de sucata. Breve mais um ano se encerraria, mais uma caixa se fecharia. Sua idade tem o peso dos objetos e o tamanho dos espaços que ocupam, desalojando Maria e suas pequenas mudas de roupa. Nas raras vezes em que lhe dirigia o olhar, sem a exigência do cumprimento dos mandos, não entendia como aquela triste mulher, cujas mãos calejadas de vida e a face camuflada de rugas, mais velha e mais sofrida do que ela, pudesse arrastar consigo miúda trouxa de tão poucas propriedades. Era como se a juventude fosse uma questão de menos quantidade. Por isso achava que deixaria a Maria o quarto que a esta nunca pertencera e o fantasma de si mesma, assombrando aranhas e baratas, a principiar das coisas que sobreviveram.

Uma noite pode ser longa quando dela nada se espera, porém a interminabilidade do momento tem o instante de seu término. Os iniciantes raios de sol despontam como lâminas rasgantes por entre nuvens esvaziadas de chuva. O mormaço que se prenuncia logo exalará o cheiro nauseante dos esgotos entupidos e as águas empoçadas, ao contrário das folhas, retornarão aos céus levando a escuridão que se foi, (quando outra vez se fizer tempestades, choverão noites sobre a cidade). As pálpebras areiam-se de sono. Não é hora de dormir, pensa, e sim de acordar. O ruído da maçaneta da porta que se abre a faz lembrar, e pede como quem ordena antes que se dê bom dia: “Maria me vê um chá de alho e o xarope que está em cima da geladeira”.

Joaquim Cesário de Mello

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