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O AMOR E SUAS ORIGENS: BASES PSICOLÓGICAS DO AFETO AMOROSO

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em agosto 31, 2009
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Já notaram que ninguém nasce amando? Basta observar com atenção um bebê: desde cedo ele demonstra estar sentido medo, ansiedade e raiva, mas e o amor? O recém-nascido te ama? O recém-nascido tem sentimentos de culpa, pudor ou vergonha? A resposta é não. O ser humano vem ao mundo, isto é, nasce com alguns sentimentos ou afetos básicos (afetos primários), tais como os acima falados: medo, ansiedade e raiva. Outros sentimentos ou afetos serão construídos e desenvolvidos mais adiante na existência humana (afetos secundários), tais como a culpa, o pudor, a vergonha e o amor. Os afetos secundários não são assim denominados por serem menos importantes, mas sim por serem posteriores. E são sentimentos que se desenvolvem na psique humana através de nossas interações com os outros (os americanos chamam de “afetos sociais”).

É sobre este intrigante e misterioso tema, o amor, que abaixo reproduziremos um ensaio publicado anteriormente na REVISTA FAFIFE, número 13 (2005),
e que faz parte de uma trilogia, a trilogia do amor. O texto que se segue em sua parte inicial (quem o desejar ler na íntegra é só acessar através do link abaixo) debruça-se sobre a temática desse complexo sentimento que é o amor, a partir de suas prováveis origens e raízes. Da mesma forma que quando estudamos no colégio História estudamos um período chamado de Pré-História (e assim é chamado por anteceder ao período humano anterior ao registro linguístico), o sentimento amoroso também tem sua pré-história, isto é, um período anterior à aquisição da linguagem e do simbólico pelo ser humano, que convencionamos chamar de “oral”, embora seja uma época em todos nós que não iremos verbalmente dizer a alguém que o amamos, até porque não conhecemos a palavra e seus significados. E não é porque se trata de um período de silêncios linguísticos que não seja um período de muitos ruídos e zumbidos inquietantes à alma humana. O presente texto tem o título “A PRÉ-HISTÓRIA DO AMOR: RAÍZES E ORIGENS DO SENTIMENTOS AMOROSO”. Os demais (“A IDEOLOGIA DO AMOR” e “AMOR EM TEMPOS NARCÍSICOS”) publicaremos em outra oportunidade.

A PRÉ-HISTÓRIA DO AMOR: RAÍZES E ORIGENS DO SENTIMENTO AMOROSO

Joaquim Cesário de Mello

“Encontro em minha vida milhares de corpos; desses milhares, posso desejar algumas centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro de que estou enamorado me designa a especialidade de meu desejo”. Com estas palavras Roland Barthes (2003, pág. 50) indaga-se por que se deseja alguém, por que se ama.

O amor é tema da literatura, do cinema, da poesia, da filosofia, da psicologia e de tantos outros ramos do saber e das artes humanas. O amor é assunto de todos nós. Quem já não falou de amor? A questão é: sabemos verdadeiramente o significado desse sentimento que chamamos de amor e com o qual relacionamos à idéia de felicidade? Como nasce ele e quais seus motivos? O texto a seguir é apenas um breve ensaio sobre a psicologia do amor e a razão de nossas escolhas amorosas. O tema é vasto, complexo e talvez infindável e inesgotável. Aqui teremos somente algumas reflexões e estudos iniciais a respeito do mesmo: uma ligeira revisão sobre este afeto que está para a alma humana assim como o oxigênio está para o organismo.

Desde os tempos míticos o homem se debruça sobre o tema. Os gregos da Antiguidade, por exemplo, representavam o amor através dos deuses Afrodite e Eros. Eros, filho de Afrodite com Ares, aquele que flechava os corações das pessoas tornando-as apaixonadas, ele mesmo certa vez também se apaixonou por Psique (alma). Após inúmeras peripécias divinas e sofrimentos, Eros se une em definitivo com Psique. Eros e o amor são assuntos do clássico livro O Banquete de Platão (1989). Nele encontramos, na fala de Aristófanes, o relato do mito da androgenia, segundo o qual inicialmente os seres humanos eram seres esféricos, completos e perfeitos. De tão perfeitos que eram os humanos tentaram desafiar os deuses do Olimpo, aspirando chegar à sua morada. Por tal ousadia Zeus os divide, cortando-os em duas metades: um lado masculino e outro feminino (é bem possível residir daí a expressão cara-metade), e os condenou a vagar pelo mundo à procura de sua parte perdida. Tal mito significa, comenta Aranha e Martins (1993), o anseio do ser humano pela totalidade, representada pelo encontro do “par perfeito”. Vem do comentado livro a seguinte frase de Sócrates a respeito de Eros: “um anelo de qualquer coisa que não se tem e se deseja ter”.

Já em meados do período medieval, inúmeras transformações sócio-culturais começaram a ocorrer: o aumento das populações e suas concentrações em cidades, o aperfeiçoamento da agricultura e a intensificação comercial, o surgimento de associação de artesãos e trabalhadores, a criação de universidades, entre outras. A face e a ordem do mundo feudal davam início a algo novo. Em meio a tudo isso a literatura e a poesia da época celebravam o ideal do amor romântico capaz de revolucionar a alma das pessoas. A convenção do casamento por arranjo começou dar vez à idéia do casamento por escolha e por atração sensual. O amor, sentimento sublime, passou então a ser visto, principalmente através de canções e trovas de poetas e menestréis, como algo que redime. O amor é agora o sentimento que nos faz feliz – assim cantam os líricos.

Com o advento da modernidade e a transformação do pensamento e do saber, o ser humano torna-se cada vez mais a medida de si mesmo e das coisas. Segundo Tarnas (2002), com a ênfase à pertinência pessoal das idéias e ao individualismo, “a verdade passou a ser sentida pelo ego”. Com o desmoronamento da cosmografia aristotélica não eram mais os deuses a conduzir o destino do homem, mas sim este senhor de sua própria sorte. As emoções e os desejos humanos não eram mais resultado de decisões e jogos divinos; e o amor e a escolha amorosa, então, passaram a ser decisão de cada um.

Mas, talvez, as coisas não sejam bem assim. Talvez os “deuses” não tenham morrido, isto é, as forças que conduzem o homem e suas escolhas hoje podem não mais ser vistas como algo divino e externo, contudo parece residir no mesmo forças que lhe são internas e ocultas, e que movimentam e motivam a conduta humana. Se a vontade humana, pois, não vem de cima, parece vir então de baixo. Coloquemos isto em outras palavras. Sabemos que Copérnico retirou a terra do centro do universo, assim como Darwin acabou com a ilusão antropocêntrica ao reduzir o homem a sua natureza animal. Já Freud ao iluminar as profundezas arqueológicas da psique revelou que não é a razão propriamente dita a conduzir o comportamento humano. A Era Moderna, assim, inaugura uma nova visão do homem: menos sublime e inseparado da Natureza.

Veja o texto na íntegra: artigo_05.html

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Zygmunt Bauman e a utopia possível em uma sociedade líquida

Posted in Mídia por Joaquim Cesário de Mello em agosto 30, 2009

Para quem é minimamente antenado, realmente antenado, Zygmunt Bauman dispensa apresentações. Bauman talvez seja o último grande intelectual advindo do pós-guerra europeu e um dos que mais publica sobre os tempos contemporâneos, embora esteja ele com mais de 80 anos de idade.

Sociológo polonês é atualmente professor emérito de sociologia das universidades de Leeds (Inglaterra)e Varsóvia (Polônia). Entre sua vasta bibliografia (ainda publica com constância e intensidade raras), citamos: “Modernidade Líquida”, “O Mal-estar da Pós-modernidade”, “Amor Líquido”, “Vida Desperdiçadas”, “Tempos Líquidos”, entre outros tantos.

Bauman é sem sombra de dúvida um dos maiores – senão o mais importante – crítico agudo e contundente da pós-modernidade e da globalização. Por esta razão o HUMANASBLOG destaca a entrevista concedida pelo mesmo à revista CULT n° 138, cujo link disponibilizamos ao eventual transeunte. Eis o mesmo, pois: entrevista.asp?edtCode=2BB95253-7CA0-42E3-8C55-8FF4DD53EC06&nwsCode=83FA9E51-05BA-4F2B-B922-E548B2FAB8FA

Boa leitura e quiçá boas reflexões.

ÉMILE ZOLA E O OVO DA SERPENTE

Posted in LIVROS & LEITORES por Joaquim Cesário de Mello em agosto 29, 2009

Cada vez mais percebemos um distanciamento da geração mais jovem com as gerações que lhes antecederam. Não em termos de “conflito de gerações”,como usualmente quer se falar, mas sim em termos do conhecimento, das artes e do saber clássico. Moderno virou sinônimo de novo e tradicional ou clássico sinônimo de antigo, arcaico, velho e ultrapassado. Na discontinuidade histórica com que se vive os tempos ditos pós-modernos, o ontem parece não nos interessar e dele pouco sabemos.

Mas porque estou eu a falar disto aqui? Busco agora resgatar um escritor clássico de gerações anteriores: Émile Zola. E quem foi Émile Zola e sua obra? Zola foi um consagrado escritor francês à sua época (poderíamos dizer que é um famoso escritor, mas famoso em que sentido para as gerações contemporâneas?) e que ficou historicamente bastante conhecido pelo seu célebre artigo “J’acusse”  quando acusou a fraude jurídica de que Dreyfus foi vítima (um outro parêntesis: recentemente quando o senador Eduardo Suplicy deu o cartão vermelho a Sarney em plenário ele, a sua forma e maneira, estava fazendo J’acusse que um professor lhe havia instigado fazer).

Émile Zola (1840-1902) pode ser chamado do pai do naturalismo literário ao idealizar tal movimento através do seu manifesto “O romance experimental”. Sua obra prima foi sem dúvida “Germinal”  onde descreve com minúcias a vida subterrânea e subhumana de uma comunidade de trabalhadores em mina de carvão e de suas lutas sociais por uma vida melhor e mais digna.

A pouco tempo atrás a editora Estação Liberdade editou o livro “O paraíso das  damas” (Au Bonheur des Dames), tradução Joana Canêdo – o que vem nos demonstrar que Émile Zola não é um escritor datado, pelo contrário datado parece  ser um grande segmento das gerações contemporâneas que alienadas sequer sabem como se organizou e como funciona o mundo em que vivem). No referido livro Zola nos conta a história de Denise, orfã que trabalha como comerciária e que se envolve com o patrão. Por meio da trama romântica o autor nos retrata Paris e suas transformações à época. Uma Paris que possivelmente não é vista pelos turistas ou em nossas apaixonadas idealizações da “cidade do amor” e da “cidade das luzes”, afinal é uma Paris de belezas ímpares, mas com muita miséria e sofrimento igualmente. Lembremos que o livro é escrito em meados do século XIX e por isto mesmo nos revela uma transformação não somente urbanística, porém principalmente sócio-econômica, pois os personagens vivem seus amores e dramas em uma época de fortes mutações, marcadamente o surgimento embrionário do que mais adiante chamaremos de “sociedade de consumo”. Pequenas lojas comerciais vão gradualmente sucubindo frente às grandes lojas de departamentos (e sabemos aonde isso termina: em shoppings centers e supermercados). Um mundo agoniza ao redor de Denise – e ela nele – e um novo mundo estranho, frio e mercantil está nascendo.

Embora seja um texto escrito antes mesmo da sociedade consumista de agora, o mesmo apresenta-se atualíssimo, mormente pelas brigas de poder e pela avidez consumista, vazia e fútil, das mulheres da alta sociedade de então. Atentem para a pertinência do texto com o nosso mundinho de hoje, leiam com atenção o seguinte trecho: “se conseguirmos atrair as mulheres para dentro da loja, elas ficarão à nossa mercê, seduzidas, desarvoradas diante de todas as nossas mercadorias, vão esvaziar a carteira sem perceber! O negócio, meu caro, é atiçá-las, e para isso é preciso um artigo que sirva de isca, que chame a atenção, que faça época”. Quer aula de marketing melhor do que esta?

Em meio a tanta coisa pop, vale o destaque do lançamento editorial deste livro de Émile Zola em cuja narrativa podemos aprender um pouco de história, economia, comportamentos e costumes de uma sociedade que nos antecedeu e de cujo ventre pariu o que preferimos chamar de contemporaneidade, isto é, a história, a economia, os comportamentos e costumes dos dias atuais.

Boa leitura, com certeza…

FEMINISMO NO SÉCULO XXI

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 28, 2009

Talvez ainda um tanto contaminado pela atmosfera feminina do filme “Caramelo” (vide post sobre o assunto dentro da categoria “Cinema” aqui disponibilizado), ou talvez por ter tido mulheres marcantes em minha história e família, ou quem sabe por haver escolhido me auto-realizar em uma profissão dita “feminina”, ou ainda por ter concentrado meu mestrado em Relações de Gênero e mais precisamente na mulher, ou simplesmente porque sou fascinando pelo universo feminino, sei lá o por que mais (e será que isso no fundo importa?) , só sei que atualmente tenho e venho me debruçando em parte na temática do feminismo, mormente o feminismo contemporâneo.

O feminismo tanto como discurso ideológico, seja como uma espécie de postura filosófica ou como prática e ação política, relaciona-se às diferenças entre os gêneros e busca a igualdade de direitos entre os sexos. Segundo historiadores, o feminismo começa de fato a partir de meados do século XIX e início do século XX (primeira “onda”) , eglode nos anos 60/70 (segunda “onda”) e chega à atualidade com significativas transformações a partir dos anos 1990 pra cá (terceira “onda”). Vive-se hoje uma espécie de pós-feminismo, conforme abrimos a discussão no post abaixo, onde o cerne da discussão e luta reinvindicatória parece estar mais focada na construção social dos papéis sexuais e de gênero. Aborto, homofobia, divisão sexual do trabalho, violência doméstica, entre outras temáticas, são temas mais do que feministas em si, são temas humanos. A Lei Maria da Penha (2006), por exemplo, foi e é um grande avanço social, mas ainda há tanto para avançar.

A luta feminista, seja ela empregada por mulheres ou homens ou ambos, continua sendo uma luta pela igualdade social. Uma luta contrária, pois,  às desiguldades e às discriminações entre os sexos (aliás, entre os gêneros). Uma luta que se tece cotidianamente, dia-a-dia, em casa, no trabalho, na escola, nas ruas e nas relações afetivas. Uma luta de todos nós por um mundo melhor, mais justo e mais digno.

Pelo acima exposto, vale se indagar por quantas anda o chamado “movimento feminista”, quais suas transformações e quais seus desafios frente ao século XXI – razão pela qual sugere-se aqui ler a seguinte matéria publicada na revista Veja em sua edição especial sobre a Mulher (2006). Acessem: p_048.html

O PÓS-FEMINISMO

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 27, 2009

O pós-feminismo como o próprio termo que dizer trata-se de um feminismo posterior (e dele derivado em certa maneira) do feminismo radical dos anos 60 de onde germinou. Podemos chegar a afirmar que o pós-feminismo insere-se no discurso pós-modernista, na medida em que ambos têm o objetivo de desconstruir o gênero enquanto categoria fixa e imutável, como discorre Ana Gabriela Macedo (Universidade do Minho, Portugal) em texto que pode ser acessado à integra: a13v14n3.pdf

Dentre os principais e mais destacados teóricos e teóricas do pós-feminismo temos a escritora americana Camille Paglia, considerada uma das mais profícuas e instigantes intelectuais da atualidade. Leciona na Universidade das Artes da Filadélfia, EUA, sendo também colunista do site salon.com e editora da revista Interview. Nos anos 90 do século XX Camille Paglia ficou internacionalmente conhecida por seu polêmico livro Personas sexuais, no qual aborda de forma particular (na contramão teórica da sua geração) a mulher e o feminismo de então. Em 2005 foi eleita pela conceituada revista “Prospect” como uma dos 100 mais significativos intelectuais vivos do mundo. É autora de cinco livros, sendo o último Break, Blow, Burn. Trata-se, pois, de uma pensadora provocativa e não é à toa que em respeito a ela já tenham dito ser  “a feminista que as outras feministas amam odiar.

Conheçam um pouco do discurso de Camille Paglia quando a mesma aborda temas que lhe são queridos, tais como feminsimo, homossexualidade e cultura pop. Leiam, portanto, a seguinte entrevista que ela dá Revista Cult número 138: entrevista.asp?edtCode=2BB95253-7CA0-42E3-8C55-8FF4DD53EC06&nwsCode=E86F626C-9344-468B-870B-81811A57C805

DEU NA MÍDIA

Posted in Mídia por Joaquim Cesário de Mello em agosto 26, 2009

Segundo o site Angola Digital (index.php?option=com_content&task=view&id=1234&Itemid=38) o artista plástico angolano Hildebrando de Melo estará expondo no final de agosto e no transcorrer de setembro algumas de suas obras na Alemanha em uma coletiva sobre arte contemporânea.

Jovem, com apenas 30 anos, natural de Huambo, Hildebrando de Melo, embora autor de várias exposições individuais e coletivas, tanto na própria Angola quanto em Portugal e nos EUA, bem como vencedor do prêmio Ensarte/2004 na categoria “Juventude”, é um artista ainda a se conhecer por nós habitantes destas paragens tão distantes da África e de Angola.

Então, aqui no HUMANASBLOG, um tantinho da África e de Angola através da plasticidade artística de Hildebrando de Melo:


DIA DO PSICÓLOGO

Posted in Notícias e Eventos por Joaquim Cesário de Mello em agosto 25, 2009

Como já é de conhecimento público, dia 27 de agosto próximo é o dia do psicólogo  e a FAFIRE promoverá atividades comemorativas ao dia. Haverá palestras (manhã e tarde) sobre “O amor e suas consequências”, que serão ministradas pelo professor e psicólogo Carlos Ferraz. O tema “o amor e suas consequências” versará sobre os fenômenos da vida amorosa como a ilusão (fantasia construída em torno do relacionamento) e a temporalidade (mudança na noção e no valor dado ao tempo). Haverá também momentos de confraternização e convivência onde os estudantes daquela instituição de ensino realizarão um Movimento Cultural com canto, poesia e dança.

De antemão o HUMANASBLOG parbeniza todos os psicólogos por seu dia comemorativo. Destaco o comemorativo, pois, afinal, todo o dia é dia do ser humano e sendo dia do ser humano é igualmente dia de psicólogo.

Parabéns, portanto.

AMORES LIBANESES

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em agosto 24, 2009
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Vez em quando permito a mim mesmo me surpreender. E foi o que aconteceu sábado passado quando fui ao cinema (ETC) sem nada saber sobre o filme a ser assistido. Às vezes me dou mal quando assim faço, mas não naquele sábado. Por cerca de 95 minutos me vi inserido em um mundo diferente, diverso e misterioso: o mundo feminino. O filme a que faço menção é ‘CARAMELO”, produção franco-libanesa que conta a história de cinco mulheres em diferentes fases da vida que vivem em torno de um pequeno salão de beleza. O título do filme faz referência a uma mistura ou pasta utilizada para depilação à base de água, açúcar e limão.

Neste pequeno e medíocre espaço cotidiano constrói-se com suave elegância, porém com não menos melancolia, um fascinante e profundo painel do universo e da alma feminina. De logo percebi, embora sem ainda saber, que estava frente a um filme que só poderia estar sendo dirigido por uma mulher, afinal nós homens por mais que tentemos jamais iremos adentrar com tamanha singeleza e afetividade nos pequenos detalhes dos intramuros deste mundo estrangeiro que é como disse acima o mundo feminino. Carecemos de sensibilidade suficiente para tal.

Feito a própria mistura que dá título ao filme, as histórias amorosas das cinco mulheres vão se interligando e dando uma consistência adocicada, porém como assim é feito com o caramelo utilizado no salão de beleza o mesmo pode ser doce, mas seu final é doloroso. Como é suave, bela e doída a alma feminina.

A direção sensível de Nadine Labaki (para surpresa minha a protagonista central da história, a estonteante personagem Layale) gera uma atmofera de tanta autenticidade que o filme passa uma certa lentidão que é apenas superficial, pois a vida na verdade nos passa tão ligeira. Assistimos assim o dia-a-dia rotineiro dessas mulheres e seus pequenos grandes amores, alegrias e sofrimentos. Se temos aí em comum o amor, cada uma das cinco personagens vivem a sua maneira o sentimento. Layale ama um homem casado e sonha que um dia ele possa deixar a esposa para ficar com ela, e envolta em seu impossível sonho pouco percebe ou dá valor ao sincero amor do guarda de trânsito que a idealiza a certa distância (antológica a cena em que Layale conversa com o amante ao telefone e o guarda do outro lado da rua espreitando-a estabelece imaginariamente ser com ela o diálogo). Nisrine que está prestes a casar vive o tormente de não ser mais virgem e o noivo não saber. Já Rima não se sente atraída sexualmente por homens e joga sedutoramente com uma cliente (sempre achei aquelas massagens com água morna e xampu que se faz no cabelo antes do corte algo meio excitável, e no filme tal carícia chega ao erotismo sublimável). Tem também Jamale, candidata à atriz que reluta em aceitar o envelhecimento e Rose que abre mão da possibilidade de finalmente amar e ser amada por um homem em troca de um outro amor: o amor por sua irmã mais velha que sofre mentalmente de demência.

Sutil, sedutor e sensual (assim comumente é o universo feminino) o filme vem me comprovar mais uma vez que a vida tem sua ambiquidade, isto é, é uma imensa comédia sobre inúmeros, inesgotáveis e diminutos dramas diários. Se o filme nos revela que por um lado homens cheiram a café, álcool e cigarros, também nos revela que por outro lado as mulheres cheiram a esmaltes, xampus e caramelo.

Assistam ao trailer do filme “Caramelo” e atentem para a encantadora trilha sonora que permeia o próprio filme e história:

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 23, 2009
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POR DETRÁS DOS VIDROS


Penso-me protegido
por detrás das vidraças de minhas janelas
aqui onde ventos não me assanham cabelos
nem o frio das ruas me arrepiam a pele.

Como se nada me atingisse
vou-me iludindo de infinitudes
e são tantos e tantos os intermináveis dias
que haverei um dia ou de romper
os limites quebradiços dos meus espelhos
ou sucumbir sufocado de infância e eternidade.

Engordo-me em armaduras de cristal
sem saciar nenhuma fome ou sede
e enorme vou ficando de tão cheio
das imensidões das lembranças inapagáveis.

Como quisera por um breve instante
passageiro e repentino até
poder deixar de ser eu e minhas inquietudes
e respirar sem o abafado cansante das interioridades.

Gostaria assim liberto de mim
dissolver-me líquido e lento
como esta furtiva lágrima
que me escorre a face e ninguém vê
nem mesmo a mulher que me dorme ao lado.

Joaquim Cesário de Mello

FUTURO: UM PAÍS DE VELHOS

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 22, 2009

Nosso país está envelhecendo a uma rapidez vertiginosa. Segundo o IBGE o Brasil já chegou a uma fecundidade de 1,8 filho por mulher, ao tempo em que a expectativa de vida elevou de 41 anos (1960) para 72,7 em 2007. Projeções apontam que em 2040 passaremos de 190 milhões de habitantes para 220 milhões (ápice do crescimento), quando começaremos a declinar até atingir aproximadamente 215 milhões em 2050. Tais estudos também apontam que a parcela populacional dos que têm mais de 65 anos de vida aumentará dos hoje 12,4 milhões para 48,9 milhões de pessoas até 2050. Nesse mesmo período estima-se que o números de crianças diminuirá dos atuais 50,2 milhões para 28,3 milhões.

O aumento da longevidade associado a uma diminuição da natalidade fatalmente nos levará a condição de em breve sermos um país envelhecido em termos populacionais. E quais as possíveis repercussões de tal acelerado envelhecimento? Quais suas repercussões socias, econômicas, culturais e psicológicas? Estamos, como sociedade, preparados para o envelhecimento basilar da própria sociedade? Que impacto poderá ter no compórtamento geral das pessoas? O que poderá, enfim, acontecer?

O fenômeno da aceleração quantitativa do envelhecimento já começa a chamar atenção de pesquisadores, cientistas e governos. E é sobre esta temática o conteúdo da matéria de Herbert Carvalho publicada da revista “Problemas Brasileiros”, nº 394 de julho/agosto de 2009, que vocês poderão ter acesso aqui através do link: artigo.cfm?Edicao_Id=344&breadcrumb=1&Artigo_ID=5350&IDCategoria=6126&reftype=1

Vale realmente uma boa reflexão e debate sobre o que está acontecendo e para onde estamos caminhando e como podemos contribuir para um futuro melhor e mais digno. Com vocês o assunto…

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