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AS LONGAS PERNAS DA MENTIRA

Posted in LIVROS & LEITORES por Joaquim Cesário de Mello em agosto 1, 2009



Acho que já deu para observar que sou um leitor meio fora de moda. Comentei até então livros que às vezes são difíceis de encontrar, alguns esgotados, outros enfileirados naquelas promoções onde os volumes ficam acondicionados em caixotes parecendo já usados. Enfim, são livros que estão, temporariamente – espero que temporariamente – ultrapassados. Quando as pessoas estão lendo, por exemplo, Os Irmãos Karamazov, estou folheando Moby Dick; quando lêem Melville, estou lendo João do Rio, ou Nelson Rodrigues – este completamente “reacionário” e por muitos anos démodé (duas palavras, inclusive, fora de moda). Há algum tempo li um texto de Dezső Kosztolányi – alguém sabe quem é esse sujeito? Esse, certamente, nunca entrou na moda, talvez por seu nome ser excessivo em consoantes ou por originar-se de um país distante – a Hungria – ou, por ainda, ter um conto com título bizarro, “O Tradutor Cleptomaníaco”, título interessante e ao mesmo tempo burocrático, que poucos tiveram oportunidade, interesse, ou mesmo tempo – sempre falta tempo – de ler. Descobrir esse livro não foi nenhum exercício de erudição, tampouco estava pesquisando ou fazendo incursões acadêmicas na literatura húngara. Li por uma recomendação ao acaso de um amigo, num bar ou restaurante – que na ocasião estava fora de moda. Como poderia fazer do texto de Dezső Kosztolányi um texto de teor atual, um livro de vitrine? Bem, eu poderia descrevê-lo de maneira mais glamourosa: “numa viagem a Budapeste, na névoa de uma rua do comércio avistei de longe uma livraria e, na penumbra, num flanco de uma prateleira, alcancei um livro: Novellák, Kosztolanyi Dezso, um autor que o Brasil precisa descobrir…” Mentira. Nunca estive em Budapeste, nunca havia me interessado por literatura húngara e muito menos me interessaria por um livro cujas as letras estão sacolejadas na capa . Além do mais, esse livro não precisava ser descoberto, esteve por algum tempo nas livrarias a disposição do leitor brasileiro mais atento ao mais desavisado. Mas é uma bela mentira e a mentira, por si só, faz da arte, mais arte. E neste ponto esqueçamos o autor húngaro – que merece, sem dúvida, um texto a parte – e discutamos um texto brilhante: “A Decadência da Mentira e Outros Ensaios”. O autor não poderia ser outro: Oscar Wilde. No ensaio que intitula o livro é categórico: a mentira está em decadência, e isso faz com que a arte perca seu sabor. Wilde diz que nos romances do século XIX a ficção são verdades veladas e, que por assim serem, são insossas. A arte, continua, não imita a vida, pelo contrário a vida imita a arte, “a vida segura o espelho para a arte”.

O texto de Wilde tem o formato ficcional. Dois personagens dialogam, uma delas comenta sobre o artigo que está elaborando, “A Decadência da Mentira: um Protesto”. O texto na realidade serve como pretexto para o autor soltar toda sua ironia aos artistas de sua época com a acidez que lhe é muito peculiar e conhecida. Wilde parece ser aquele escritor pouco afeiçoado a modismos, ou pelo menos aos seus excessos – seria mais um dos “fora de moda”. Sua forma paradoxal, ambígua, irônica, muitas vezes jocosa, de comentar sobre artes e, principalmente, sobre os artistas, cria frases preciosas. Ao comentar, por exemplo, sobre os excessos da arte impressionista, da qual suponho que admira, comenta que a névoa está em voga no mundo da erudição e o pôr do sol, pelo contrário, está completamente fora de moda. Em meio à névoa e as novas percepções das artes plásticas, comenta: “Onde o homem culto capta um efeito, o ignorante apanha um resfriado”. Sobre a relação verdade-mentira, arte-realidade, tece comentários arrasadores:

“A Arte encontra sua perfeição em si mesma e não fora. Não se deve julgá-la de acordo com o modelo exterior. É mais um véu que um espelho. (…) Pode arranca a lua do céu com um fio Escarlate. Suas formas são mais reais que um ser vivente.” E continua: “nenhum grande artista vê as coisas tais como elas são na realidade. Se as visse assim, deixaria de ser um artista” e ainda “a literatura antecede a realidade”.

O que sobra então é a mentira, talvez a mesma mentira que fez Georg Groddeck, ainda no início do século XX, afirmar que basta introduzir a linguagem para fazer do homem mentiroso. Temos essa característica singular: a capacidade de mentir, mentir aos cântaros. Seria incômodo afirmar que mentir introduz o ser no universo do humano? Exageros a parte, Wilde afirma que os melhores tempos da literatura foram nos momentos em que o sujeito não fazia ficção, narrava um fato, e desse fato sabíamos que escancarava uma mentira sem tamanho. Os diálogos filosóficos as escrituras místicas inspirariam essa forma de narrativa.

O ensaio de Oscar Wilde, se assim pode ser chamado, tem pouco mais de trinta páginas, mas apesar de aparentemente curto tem um sem número de possibilidades discursivas, que prefiro não classificar. Pode-se, com a leitura desse e de seus outros textos, constatar que esse autor não se alimenta de qualquer fenômeno ilusório. Onde há uma penumbra, que se acendam as luzes, mas esses atos jamais desvelará a verdade, sustentará a mais nova mentira. Para ele há muito de previsível, de lamentavelmente previsível, no ato humano, embora que isso não traga qualquer sentimento de desilusão. Wilde não é desiludo. No seu texto, assiste-se a um velado otimismo. Onde? Na arte, nessa mentira estética, inverossimelhante, cabeluda, extática, contudo, extraordinária. Enfim, não procuremos coerências e se há uma verdade, arriscaria apenas uma: somos mentirosos.

Cabe lembrar que o texto tem como tradutor João do Rio, que não é Cleptomaníaco, mas me parece fora de moda.

Marcos Creder

marcoscreder@yahoo.com.br

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  1. REVELAÇÃO/EXORTAÇÃO: Urge difundirmos na terra que Jesus Cristo já vive agindo entre nós, espargindo a luz do saber, criando Irmãos espirituais, e a nova era Cristã. Eu não minto, e a Espiritualidade que esperava pela sua volta, pode comprovar que digo a verdade. Por princípio, basta recompormos as 77 letras e os 5 sinais que compõem o titulo do 1º. livro bíblico, assim: O PRIMEIRO LIVRO DE MOISÉS CHAMADO GÊNESIS: A CRIAÇÃO DOS CÉUS E DA TERRA E DE TUDO O QUE NÊLES HÁ: Agora, pois, todos podem ver que: HÁ UM HOMEM LENDO AS VERDADES DO SEU ESPÍRITO: ÊLE É O GÊNIO CRIADOR QUE CRIA ESSA AÇÃO DE CRISTO. Dessa forma (LC.15.28) cumpriu-se a escritura que diz: (JB.14.17) – O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem conhece, vós o conheceis, porque Ele habita convosco e estará em vós. Regozijemos-nos ante a presença do Deus Vivo, e façamos jus ao poder do saber que O Nosso Senhor traz às Almas Justas, para a formação da verdadeira Cristandade. E hoje, quem quiser interagir com o Filho do Amor, deve buscar “A Bibliogênese de Israel”, que já está disponível na internet. E quem não quiser, pode continuar vivendo de esperança vã, assistindo passivamente a agonia da vida terrena, à par da auto-destruição do nosso planeta.


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