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SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE II

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 2, 2009
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Dando continuidade ao ensaio sobre SOCIEDADE DE CONSUMO, cuja primeira parte postamos em 19/07/2009 na categoria “sociedade contemporânea” (vide na próxima página), lembramos que o que chamamos de contemporaneidade, principalmente em termos de sociedade ocidental, nos remete inevitavelmente à capitalismo e sociedade de consumo.

Terminamos a primeira parte do presente ensaio comentando sobre o comportamento padronizado que a cultura de massa nos promove, embora escamoteado por uma ilusão de individualidade (pseudo-individualidade), pois o que temos de fato é uma espécie de individualidade em série, ou seja, a lógica do consumo ao nos invadir corações e mentes compromete a autenticidade do eu e a liberdade possível do sujeito humano. Continuemos, pois, com o tema:

PARTE II

Talvez possa ser lugar comum afirmar que os tempos atuais em que estamos inseridos, ou melhor, o “sistema” e a nova ordem social que organiza nossas vidas, se expressam em mundo fragmentado de objetos virtuais e de consumo dos mesmos de maneira imediata, veloz, irreflexiva e excessiva. A contemporaneidade, chamada por tantos de pós-modernidade, é uma era de saturações. A abundância, a opulência, o excesso e a multiplicação constante de objetos concretos e de imagens, nos rodeiam de tal maneira e forma que nos vemos mais cercados de objetos do que de pessoas. A proximidade tão decantada pelo discurso da globalidade e da informática não se cumpre. O mundo sem-fronteiras (aldeia global) parece mais um mundo mínimo impregnado de quinquilharias onde se vê em estado de sufocamento o homem contemporâneo. Como comenta Baudrillard (“A sociedade de consumo”, Ed. Lisboa, pág.15): “começamos a viver menos na proximidade dos outros homens, na sua presença e no seu discurso; e mais sob o olhar mudo dos objetos que nos repetem sempre o mesmo discurso – isto é, o do nosso poder medusado, da nossa abundância virtual, da ausência mútua de uns aos outros”. O tédio que isso tudo pode nos propiciar é retro-alimentado pelo consumo repetitivo de roupas, Cds, aparelhos e objetos vários, como se assim pudéssemos aliviar ou suprir o vazio de uma existência fútil e sem-sentido, como se fossemos uma espécie de novas Madames Bovary a seguir a risca roteiros escritos e pré-determinados por um Flaubert pós-moderno. Enquanto a Emma Bovary literária de Flaubert buscava nos homens a resposta para a indagação “quem sou” e assim fugir de sua vida medíocre e provinciana para uma vida romântica e de aventuras, o homem da pós-modernidade parece querer transcender do seu vazio e tédio através dos objetos consumíveis e descartáveis, bem como vivendo as fantasias das imagens e das personagens fictícias que funcionam como interlocutores entre nossos sonhos e as telas para onde em grande parte foi deportada a vida. Lembremos Guy Debord (“A sociedade do espetáculo”, Ed. Contraponto) para quem o consumidor real transformou-se em consumidor de ilusões.

A pós-modernidade, assim, tem como essência a substituição da palavra pela imagem, do real pelo simulacro (alguém, inclusive, já pregou o “fim do livro”, assim como se pregou o “fim da história”). Se na modernidade tínhamos a certeza encontrada pela razão, na pós-modernidade o que impera é a incerteza e a relatividade. Muitos chegam a afirmar que estamos vivendo o limiar de uma nova era e que os dias atuais são dias de transição. Seja como for chamado o momento e os tempos em que vivemos – “sociedade de consumo”, “sociedade da informação”, “sociedade pós-industrial”, “sociedade pós-moderna” e outros tantos pós – o estado das coisas e os fatos parecem apontar e nos sugerir uma época de crise: crise moral, crise emocional, crise religiosa, crise de valores, crise existencial. Crise, pois, no significado e sentido de ruptura.

Edward Hopper

Edward Hopper.

Crise, ruptura ou mutação, a questão do vazio existencial em relação ao mundo atual parece-nos pertinente e fundamental. Como se encontra o ser humano, sua subjetividade e singularidade, em meio à sacralização do mercado, do desemprego, da explosão tecnológica, do sexo virtual, dos novos arranjos e configurações familiares, da engenharia genética, da cultura de massa, do aumento de concentração urbana, do crescimento da violência social, da crise de valores e desconfiança e descrença nas instituições tradicionais? Como já comentamos em 2003 na introdução de um livro nosso (“Dialética Terapêutica”, Ed. Litoral), não é à toa que em geral o ser humano se ache assim tão vazio e solitário frente a um presente veloz e voraz e de futuro incerto, e em meio a uma multidão de solitários concentrados em metrópoles. Não é à toa também que se vendam tantos livros de auto-ajuda, lotem-se consultórios terapêuticos, que prolifere quase uma farmácia por esquina e que se consuma em quantidades cada vez mais elevadas prozac, zolofl, viagra e várias drogas outras que prometem a tão decantada felicidade.

Ana Roldán

Na cultura dos fast foods e dos parelhos que ficam obsoletos em menos de dois anos, busca o homem contemporâneo o prazer e o gozo imediatos. A busca do prazer e do gozo é da essência humana em qualquer período de sua história, é verdade. Porém, o que hoje mais acontece é o prazer imediato através da lei do menor esforço, um gozo ilimitado e sem restrições. O outro, assim, passa muitas vezes a ser visto como simples objeto de prazer, contaminando a maneira dese amar, ou seja, a intimidade, a mutualidade e o compromisso ficam comprometidos, sacrificados que são em nome das efemeridades das paixões momentâneas. A diferença torna-se um estorvo e um incômodo, e as relações amorosas, por exemplo, mal suportam e se mantêm além das primeiras divergências. E dentro desse contexto vai se fomentando um sujeito sem o outro, um sujeito sem objeto, que é um sujeito privado da alteridade e da diferença.

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