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SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE III

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em agosto 20, 2009
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Prosseguindo com o ensaio SOCIEDADE DE CONSUMO, cujas parte I e II foram postadas em 02/08 e 19/07/2009, respectivamente (ambas na Categoria “Sociedade Contemporânea), iniciaremos agora a terceira parte do mesmo. Terminamos a segunda parte afirmando que vive-se uma cultura dos fast foods e dos parelhos que ficam obsoletos em menos de dois anos; e imerso nesta cultura busca o ser humano contemporâneo o prazer imediato e um gozo ilimitado. Passamos assim a ver o outro, assim como o outro nos vê reciprocamente, como um mero objeto para me dar prazer. E ao nos transformamrmos em também consumidores de afetos e de corpos vamos esvaziando o sujeito que há na alteridade, bem como desertificando nossa própria subjetividade e sujeito.

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PARTE III

No tocante ao sujeito sem referências, Enrique Rojas (apud Socrates Nolasco em “Tarzan a Homer Simpson: banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais”, Ed. Rocco)analisa as bases do bem-estar contemporâneo naquilo que ele denominou de teatrologia niilista, composta por: hedonismo, consumismo, permissividade, relatividade e materialismo. É bastante interessante o que ele vem classificar de hombre light, um sujeito consumidor de comidas sem calorias, cervejas sem álcool, adoçantes sem açúcar, café sem cafeínas, entre tantos outros produtos lights. Um homem sem substância, como diz ele, apenas entregue a ganância pelo dinheiro, poder, status, êxito e gozo irrestrito.

Se para muitos a pós-modernidade representa uma ruptura com os ideais da modernidade, para uns tantos outros representa uma revolução cultural. Ao se querer “quebrar” os ideais e verdades concebidas pelo racionalismo moderno, a pós-modernidade propõe realmente um novo paradigma onde tudo parece ser ilusório ou relativo, onde não existem verdades “verdadeiras”. Para a concepção pós-moderna a única verdade é a ausência de verdade. Assim, tudo parece puramente relativo e ilusório, gerando-se uma idéia imediatista para a vida. Na ânsia despertada de que a sociedade aprisiona o homem, vive-se em procura de sensações e emoções sem limites. É como se quiséssemos libertar o ID de qualquer Superego. É como se buscássemos viver naquela máxima do: viva intensamente e morra jovem.

 Tal ideário embutido no projeto pós-moderno esvazia o ser humano contemporâneo de um objetivo de vida. A vida é rápida – dizem – e deve ser vivida rapidamente, não importando o amanhã. O presente é que vale. E nesse propósito subjetivo percebe-se claramente o seu forte apelo hedonista: experimentar fortes sentimentos de prazer e secundariamente evitar a dor. Abandona-se, pois, em grande parte, a racionalidade, priorizando-se quase que exclusivamente tão somente as emoções e as sensações.  Embora não se evidencie com nitidez no discurso pós-moderno, a pós-modernidade parece produzir uma espécie de culto implícito da morte, como se o depois não existisse. Tudo ou quase tudo deve ser morto no instante o mais rapidamente (objetos, idéias, gostos ou pessoas).

Pós-modernidade gera pessoas pós-modernas. Ou como diz Cristopher Lasch (“A cultura do narcisismo”, Ed. Imago) novas formas sociais exigem em contrapartida novas formas de personalidade, novos modos de socialização, novos sistemas de organização dos sentimentos e da experiência. Na lógica consumista do sistema capitalista contemporâneo, também denominado de terceiro estágio do capitalismo, formam-se seres obedientes à própria lógica, ou seja: consumidores em série. Afinal, sem consumidores ávidos não haveria a sociedade consumista como a entendemos e vivemos hoje. A mentalidade é, pois, desejar, adquirir, consumir, descartar, voltar a desejar novamente e assim por diante em uma insaciável e quase interminável círculo viciosos.

O conceito de narcisismo é um conceito vinculado ao egolatrismo, isto é, o excesso de libido voltado ao próprio ego. É um conceito, portanto, relacionado ao indivíduo. A questão que ora se faz é a de se haver ou não uma espécie de narcisismo coletivo. Para se analisar questão de tamanha envergadura e complexidade partiremos do seguinte princípio que, embora bastante óbvio, parece ser esquecido muitas vezes ao se abordar não somente o tema narcisismo, mas ao próprio desenvolvimento da personalidade do sujeito como um todo. Trata-se do princípio de que o indivíduo é antes de tudo uma coletividade. Como assim? Já dizia um dos pais da sociologia, Emile Durkheim, que a personalidade nada mais é do que o indivíduo socializado. O processo de socialização (primária e secundária) pelo qual o ser humano in natura é submetido desde seus momentos iniciais e ao longo de sua existência transforma o que podemos chamar de natureza humana em cultura humana. Assim ao se galgar à condição humana de sua própria humanidade o indivíduo humano é moldado, formado ou deformado pelas normas sociais dominantes e vigentes. Como afirma Lasch (op. cit.) toda sociedade reproduz sua cultura no indivíduo ao lhe formar a personalidade, através tanto de suas normas quanto de suas presunções subjacentes, bem como os modos de se organizar as experiências. Podemos até ousar dizer que acaso não houvesse a dimensão social concreta e a cultura no que há de humano em cada ser humano vivente, não haveríamos de falar em repressão e inconsciente.

 

Mudanças sociais geram impactos psicológicos. Ansiedades contemporâneas são em grande parte reflexos do modo de se viver histórico de uma atualidade sempre em transformação. Para Lasch, em sua clássica obra já citada, A Cultura do Narcisismo, um dos sintomas sociais observados é o sentido de descontinuidade histórica. Considerando que uma das características principais do narcisismo é o seu não interesse pelo futuro por ter ele pouco interesse pelo passado, o “viver para o momento” pregado implícita e explicitamente pela sociedade de consumo gera em um enfraquecimento do sentido do tempo histórico, ou seja, vai-se perdendo galopadamente o senso de se pertencer a uma sucessão de gerações que nos antecederam que, como diz Lasch, originaram-se no passado e se prolongarão no futuro. A desvalorização cultural do passado tem um duplo reflexo: o empobrecimento das ideologias e o empobrecimento da vida interior das pessoas.

Neste momento é mais esclarecedor deixar o próprio Lasch falar um pouco a respeito do que ele denominou de novo narcisista:

“Libertado das superstições do passado, ele duvida até mesmo da realidade de sua própria existência… Suas atitudes sexuais são mais permissivas do que puritanas, muito embora sua emancipação de velhos tabus não lhe tenha trazido a paz sexual. Ferozmente competitivo em seu desejo de aprovação e reconhecimento, desconfia da competição, por associá-la inconscientemente a uma irrefreável necessidade de destruir… Ganancioso, no sentido de que seus desejos não têm limites, ele não acumula bens e provisões para o futuro, como a fazia o ganancioso individualista da economia política do século dezenove, mas exige imediata gratificação e vive em estado desejo, desassossegada e perpetuamente insatisfeito.” (in: Cultura do Narcisismo, págs. 14/15)

Assim, em uma sociedade cuja lógica é baseada no desperdício (consumo), no atendimento de necessidades imediatas – muitas vezes necessidades artificialmente vestidas de vitais – o futuro é de menos importância. Como o amor também não será diferente. A idéia de amor como renúncia e sacrifício, dedicação, compromisso e investimento, é então solapada por novas propostas de se amar mais adequadas às ideologias de uma sociedade de cultura de massa e consumo.

(continua)

Joaquim Cesário de Mello

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Uma resposta to 'SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE III'

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  1. Flávia Emília said,

    A escolha é nossa, de cada um de nós. Temos escolha, mas somos
    inseguros. Podemos mudar, mas não acreditamos nisso. Boa parte des
    sa hesitação vem de fora, de palpites alheios, de propósitos superficiais,
    de modelos tolos.
    Viver e ser feliz não deveria ser assim tão complicado, reclamou alguém.
    E por que a gente não simplifica ao menos o que pode descomplicar ?


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