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ÉMILE ZOLA E O OVO DA SERPENTE

Posted in LIVROS & LEITORES por Joaquim Cesário de Mello em agosto 29, 2009

Cada vez mais percebemos um distanciamento da geração mais jovem com as gerações que lhes antecederam. Não em termos de “conflito de gerações”,como usualmente quer se falar, mas sim em termos do conhecimento, das artes e do saber clássico. Moderno virou sinônimo de novo e tradicional ou clássico sinônimo de antigo, arcaico, velho e ultrapassado. Na discontinuidade histórica com que se vive os tempos ditos pós-modernos, o ontem parece não nos interessar e dele pouco sabemos.

Mas porque estou eu a falar disto aqui? Busco agora resgatar um escritor clássico de gerações anteriores: Émile Zola. E quem foi Émile Zola e sua obra? Zola foi um consagrado escritor francês à sua época (poderíamos dizer que é um famoso escritor, mas famoso em que sentido para as gerações contemporâneas?) e que ficou historicamente bastante conhecido pelo seu célebre artigo “J’acusse”  quando acusou a fraude jurídica de que Dreyfus foi vítima (um outro parêntesis: recentemente quando o senador Eduardo Suplicy deu o cartão vermelho a Sarney em plenário ele, a sua forma e maneira, estava fazendo J’acusse que um professor lhe havia instigado fazer).

Émile Zola (1840-1902) pode ser chamado do pai do naturalismo literário ao idealizar tal movimento através do seu manifesto “O romance experimental”. Sua obra prima foi sem dúvida “Germinal”  onde descreve com minúcias a vida subterrânea e subhumana de uma comunidade de trabalhadores em mina de carvão e de suas lutas sociais por uma vida melhor e mais digna.

A pouco tempo atrás a editora Estação Liberdade editou o livro “O paraíso das  damas” (Au Bonheur des Dames), tradução Joana Canêdo – o que vem nos demonstrar que Émile Zola não é um escritor datado, pelo contrário datado parece  ser um grande segmento das gerações contemporâneas que alienadas sequer sabem como se organizou e como funciona o mundo em que vivem). No referido livro Zola nos conta a história de Denise, orfã que trabalha como comerciária e que se envolve com o patrão. Por meio da trama romântica o autor nos retrata Paris e suas transformações à época. Uma Paris que possivelmente não é vista pelos turistas ou em nossas apaixonadas idealizações da “cidade do amor” e da “cidade das luzes”, afinal é uma Paris de belezas ímpares, mas com muita miséria e sofrimento igualmente. Lembremos que o livro é escrito em meados do século XIX e por isto mesmo nos revela uma transformação não somente urbanística, porém principalmente sócio-econômica, pois os personagens vivem seus amores e dramas em uma época de fortes mutações, marcadamente o surgimento embrionário do que mais adiante chamaremos de “sociedade de consumo”. Pequenas lojas comerciais vão gradualmente sucubindo frente às grandes lojas de departamentos (e sabemos aonde isso termina: em shoppings centers e supermercados). Um mundo agoniza ao redor de Denise – e ela nele – e um novo mundo estranho, frio e mercantil está nascendo.

Embora seja um texto escrito antes mesmo da sociedade consumista de agora, o mesmo apresenta-se atualíssimo, mormente pelas brigas de poder e pela avidez consumista, vazia e fútil, das mulheres da alta sociedade de então. Atentem para a pertinência do texto com o nosso mundinho de hoje, leiam com atenção o seguinte trecho: “se conseguirmos atrair as mulheres para dentro da loja, elas ficarão à nossa mercê, seduzidas, desarvoradas diante de todas as nossas mercadorias, vão esvaziar a carteira sem perceber! O negócio, meu caro, é atiçá-las, e para isso é preciso um artigo que sirva de isca, que chame a atenção, que faça época”. Quer aula de marketing melhor do que esta?

Em meio a tanta coisa pop, vale o destaque do lançamento editorial deste livro de Émile Zola em cuja narrativa podemos aprender um pouco de história, economia, comportamentos e costumes de uma sociedade que nos antecedeu e de cujo ventre pariu o que preferimos chamar de contemporaneidade, isto é, a história, a economia, os comportamentos e costumes dos dias atuais.

Boa leitura, com certeza…

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