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SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE IV

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em setembro 15, 2009

Dando continuidade ao presente ensaio sobre a sociedade de consumo, cujo início encontra-se postado aqui no HUMANASBLOG em 19/07 (parte I), 02 e 20/08 (partes II e III), todos inclusos na Categoria “Sociedade Contemporânea”, voltemos ao tema em questão.

 

Terminamos a 3ª parte afirmando que em uma sociedade cuja lógica é baseada no desperdício (consumo) e no atendimento de necessidades imediatas (muitas vezes desejos artificialmente vestidos de vitais) o futuro é de menos importância. Com o sentimento de amor e a maneira de se amar também não seria diferente, afinal o modus vivendis em uma cultura de forte base consumista, individualista e narcísica teria inevitalmente que também atingir nossas idéias sobre os sentimentos e nossa vida afetiva. A idéia de amor, por exemplo,  como renúncia e sacrifício, dedicação, compromisso e investimento, é então solapada por novas propostas de se amar mais adequadas às ideologias de uma sociedade de cultura de massa e consumo.

Continuemos, pois…

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PARTE IV

Retornemos mais uma vez a questão da lógica consumista. Hannah Arendt (A condição humana, Forense Universitária 1999) vislumbrou que o consumo não mais se restringia às necessidades de sobrevivência e manutenção da vida, mas principalmente às superfluidades da vida. O consumo não se faz tão somente com objetos, porém também com pessoas. Consumem-se pessoas como se consume objetos. Em uma sociedade repleta de abundâncias (serviços, bens materiais e sexualidade em fartura visual e corpórea), na opulência da oferta em relação à procura, cria-se e vive-se a lógica do consumo: não se produz para durar. Para que a abundância se perpetue é preciso haver desperdício. Diz Baudrillard em seu livro  A sociedade de consumo (Edições 70, Liboa, 1987) que nesta fauna e flora vegeta o novo homem selvagem dos tempos modernos, este homem da opulência que não se encontra mais rodeado de outros homens, mas mais por objetos. Entretanto acha-se o homem de hoje satisfeito nessa relação de abundância e desperdício? Parece que não. Os discursos em consultórios dizem que não.

A cultura do narcisismo impera. Vivemos uma contemporaneidade em que se prosperam imagens e mais imagens, onde o caminho da felicidade resume-se ao consumo de bens materiais. Exige-se cada vez mais, e cada vez mais cedo na criança, êxitos e mais êxitos (sofre-se de verdadeiras síndromes de loser). Teme-se o corpo em seus sinais de envelhecimento na ânsia inquietante da “eterna juventude”. Nos auto-cobramos perfeições inatingíveis e nos angustiamos por não corresponder na realidade aos egos ideais alimentados por ícones de uma por cultura que fabrica celebridades em profusão praticamente interminável. Na fome por novidades excitantes esquece-se o que há de novo nos aprofundamentos das relações inter-humanas e suas singularidades. Deprimimo-nos mais em decorrência de fracassos narcisistas, porque sofremos mais diante das demandas severas de sucesso, dinheiro, status e poder. E assim, magnetizados e aprisionados ao credo individualista vive-se em permanentes sentimentos de solidão em um mundo de repetitivos ciclos de desejos e idealizações temporárias.

A baixa auto-estima e a depressão são sintomas mais evidentes de nossa era. O sujeito da dita pós-modernidade carece de melhores contornos e limites. Seduzido, fascinado e ofuscado pela abundância oferecida por uma economia cuja lógica consumista é o desperdício, vive-se uma vida fútil onde o tecnicismo desdobrou-se em todos os setores da vida humana, resultando em um instantaneísmo das próprias relações entre os sujeitos. A velocidade que caracteriza os tempos atuais não apenas trouxe mudanças radicais de valores, como também colocou a subjetividade em perda com padrões identificatórios significativos e o sujeito em crise com sua própria identidade. Na expressão de Paul Israël  o mundo de então desumanizou o sujeito.

O homem da contemporaneidade, transformado em consumidor, vive como que mergulhado em um mar profundo e infindo de mercadorias e imagens. Acha-se escravizado pela tecnologia e sem ela considera não conseguir viver. Exemplo preciso é o celular. Não faz muitos anos, um pouco mais do que uma década, vivia-se sem a necessidade do pequeno aparelho – que de fato nos facilitou significativamente a vida. Todavia, o que é comodidade virou acomodação. Fica-se como que “perdido” acaso se esqueça em casa o celular, quase como se estivesse faltando uma parte de si. Os objetos e toda a maquinaria tecnológica, celebrizadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massa, perdem cada vez mais o sentido de serem coisas a serviço do homem e se transmutam em senhores do próprio homem. Engana-se aquele que pensa ser os shoppings, lojas, centros comerciais, supermercados e mercados diversos o locus do consumo. Como bem descreve Baudrillard o lugar do consumo é a vida cotidiana: este somatório de fatos banais, gestos diários e repetição.

O capitalismo triunfa e reina nos dias e tempo em que aqui escrevo. Na tirania do capital sucumbe o indivíduo e sua singularidade. Tal falência é explicitada em Adorno (A indústria cultural e sociedade., Paz e Terra , 2002) quando afirma que o indivíduo é ilusório devido principalmente à padronização do modo de produção de uma indústria cultural geradora de uma cultura de massa. Segundo ele o que predomina é a pseudo-individualidade: individualidades produzidas em série. Como que robotizados a lógica do consumo e do capital invade e domina corações e mentes. O eu atrofia-se.

continua

Joaquim Cesário de Mello

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2 Respostas to 'SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE IV'

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  1. Flávia Emília said,

    Antes de se envolver com alguém, é necessário, em primeiro lugar, estar
    bem consigo mesmo. Assumir os próprios valores é passo decisivo para
    uma vida afetiva sadia e feliz. Cabe a cada um de nós tomar posse de si
    e abrir-se para o verdadeiro amor. … Sabemos que não é fácil.
    Na Revista – Ciência e Vida – Filosofia ( Ano I ,nr 03 ). Belissimo texto so-
    bre relacionamentos entitulado ” Não Sabemos Mais Amar ? ” – Em meio
    a tantas crises existenciais, o homem contemporâneo esqueceu de sua
    maior virtude: o amor. Concordando com a matéria … ” Se em cada mo-
    mento da vida desejo coisas diferentes, então o amor é um processo gra-
    dual que pode ser evolutivo, ou que, de repente, você desaprende.

  2. JAYRA said,

    Concordo plenamente com a Flávia, e acrescento algo mais.Acho que não é a sociedade mais o ser humano em sí esqueçeu que tudo que carregamos, desde conhecimentos à experiencias guardamos todos esses valores dentro de um cofre chamado corpo abrangendo-se a nossa mente também e que esse cofre deve ser cuidado para que os valores que se encontram em seu interior não sejam estraviados….. Então! precisamos nos cuida,r precisamos dar mais atenção ao nosso corpo, a nossa mente para que eles se portem sadios e precisamos manter nossos sentimentos atualizados de acordo com a sociedade…… isso leva em consideração a questão do erótico e o porno, o dois precisam andar juntos precisamos nos relacionar como amantes, maridos/mulheres, companheiros e que as vezes precisamos de um pouco desse lado pornô para que nossos relacionamentos não se apaguem com o erotismo……..O importante é “viver a vida” em busca de felicidades momentâneas, esqueçer um pouco o trabalho, pois o mesmo desgasta o corpo, embora exercite a mente………


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