HumanasBlog


SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE V

Posted in Sociedade Contemporânea por Joaquim Cesário de Mello em outubro 5, 2009

Mais uma vez damos continuidade ao presente ensaio sobre a sociedade de consumo, ensaio este que teve início em 19/07/ (Parte I) e que foi seguido pelas partes II, III e IV (postadas respectivamente em 02/08, 20/08 e 15/09) todas inclusas na Categoria “Sociedade Contemporânea”, cujo link de acesso se encontra ao lado direito da tela. Desse modo, vamos agora dar continuidade com a 5ª parte:

__________________________________________________

PARTE V:

 

 

 

A combinação de imagens e paixões manipula sobre o psiquismo humano. Como diz Lasch as condições do relacionamento social cotidiano em uma sociedade baseada na produção de massa e consumo de massa é estimulada por imagens e impressões superficiais e rasas. O eu, transformado em uma superficialidade estética e aparente, ofertado tão somente a olhares e desejos dos outros (um eu para ser visto e admirado), propõe-se a ser uma mercadoria disponível para consumo em um mercado ávido por emoções efêmeras e ocasionais. E assim a produção excessiva e abundante de mercadorias e seu correlato consumismo criam um mundo especular onde cada vez mais é difícil distinguir ilusão de realidade. Um mundo de espelhos faz do sujeito humano um objeto, ao mesmo tempo em que transforma os objetos rodeantes em uma espécie de extensão e projeção do próprio eu.

                        Se o consumidor vive rodeado não apenas por coisas como também por fantasias, como denuncia Lasch em seu livro “O mínimo eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis” (ed. Brasiliense), sua dependência como consumidor tem um caráter de oral voracidade. Sendo próprio do desejo em suas raízes mais infantis a ilimitação, assim também o é o caráter fundamental da lógica consumista. Explica-se assim um pouco o porquê a dependência do consumidor ao sistema consumista que lhe escraviza com promessas de segurança, amparo e proteção. Ou como lembra Lasch que se para a cultura do século XIX reforçava-se padrões anais de comportamento (estocagem de bens, acumulação de capital e controle do afeto) a partir da segunda metade do século XX exacerbou-se o padrões orais característicos do período desenvolvimental humano, época em que todos fomos dependentes absolutamente do seio materno. Este seio enraizado na mente humana é como que ressuscitado no mundo circundante do homem consumidor. O ego consumans, portanto, é por excelência um ego adicto.

                        Na genealogia do consumo encontra-se a produção abundante de bens, coisas, mercadorias e objetos, assim como a produção de necessidades a serem fruídas e satisfeitas de maneira rápida e veloz a ponto de nos manter carentes de mais necessidades e objetos (a cultura e os objetos já não são feitos para durar). Talvez seja melhor não falar de um sistema produtor de necessidades, mas sim de um sistema fomentador das mais primais necessidades humanas. Não se cria necessidades do nada, despertam-se e estimulam-se necessidades dormentes. O que se inova e se produz não são as necessidades humanas (felicidade, prazer, segurança, reconhecimento, poder…), porém os objetos do desejo. Tais objetos trazem consigo a promessa ilusória de apaziguamento de nossas angústias, frustrações e vazios, promessas opinácias é bem verdade, contudo de forte apelo e atratividade.

Sociedade pós-moderna gera pessoas pós-modernas. Somos gerados e criados não mais para sermos bons cidadãos, mas sim para sermos bons consumidores. Somos desde cedo alimentados de leite e cultura. Se hoje cada vez mais os pais estão fora de casa ocupados com suas carreiras profissionais e sobrevivência (famílias de duplo carreiramento), ideologicamente os filhos estão sendo socializados pela publicidade e mídia. A televisão, assim, por exemplo, é um braço ideológico e educacional do sistema capitalista. Poucos parecem se dar conta de quanto são condicionados pelos meios de comunicação de massa. Quanto mais cedo se é socializado (primariamente) pela mídia mais difícil é perceber sua manipulação sobre nós. Não uma manipulação de uma elite ou de um grupo de maquiavélicos, mas uma manipulação de um sistema como um todo. Condiciona-se, dessa maneira, crianças, jovens e adultos, a uma existência voltada ao consumo, consumo este a serviço de nossos instintos animais: comer, beber, fazer sexo, se proteger e relaxar. O amor dos pais para com seus filhos é cada vez menos o afeto e cumplicidade do compartilhamento e o carinho do toque e do afago, sendo cada vez mais materializado na compra de presente e bens de consumo. Não sei se aqui há uma compensação ao sentimento de culpa pelo afastamento da proximidade com os filhos, visto que sua carga horária é diminuta e atomizada pelas obrigações e preocupações com o trabalho e a carreira profissional, apenas observa-se que a amorosidade é cada vez mais coisificada e materializada nos objetos e quinquilharias que parecem substituir a ausência dos pais.

                        Crianças, assim como os jovens púberes e adolescentes, são submetidos à força da publicidade e dos meios de comunicação que não são somente formadores de opinião como também formadores de consumidores. Crianças pequenas, por exemplo, bombardeadas cotidianamente pela mídia e ainda em formação cognitiva, emocional e psicológica, não aprendem a refrear seus instintos e desejos, submetidos que estão a idealizar e desejar o que lhes é mostrado. Na hipertrofia do limite instala-se no jovem e na criança uma espécie hipertrofia hedonista tão necessária a um sistema social lastreado pela permissividade e pela hipersensibilidade ao prazer imediato.

As mensagens veiculadas na propaganda, na publicidade, na televisão, na rádio, no cinema e na mídia em geral, podem ser resumidas a seguinte ordem narcísica: “gozem”. E nessa panacéia generalizada do gozo do pelo gozo vamos sendo formados tanto como neo-hedonistas de carteirinha como por perversos neofílicos, isto é, “tarados” e atraídos por novidades, sempre por novidades e mais novidades. Basta atentar para a quantidade de tempo que se dedica uma criança ou jovem para a televisão, vídeos, games, internet, DVDs, e afins, para se perceber que nos tempos atuais brinca-se e se diverte cada vez mais nos espaços virtuais das telinhas e menos nas ruas (perigosas), nos terrenos baldios (escassos) e nos quintais (playground de edifícios). Após um dia inteiro de entretenimento e lazer as roupas não sujas de barro, areia ou lama. Até as brincadeiras dos palhaços dos aniversários infantis estão sendo gradualmente substituídas pelo tilintar enervante das máquinas coloridas e ruidosas dos play stations da vida. O voyeur de cedo será também o exibicionista do amanhã.

                        Assim não é impreciso a analogia do ego consumans  com o ego adicto. Estamos ficando dependentes dos objetos, da tecnologia e dos produtos. O sujeito passa a ser valorizado pelo que possui e pelo que demonstra possuir: griffes, marcas famosas de carro, status, aparelhos de última geração (aliás, devia-se chamar de última temporada ou semestre). Possua e mostre o que possui, este é o mandato vigente. Não basta ter, tem que mostrar ter, ou aparentar ter – que não é a mesma coisa, porém parece igual. Não deixe para amanhã o que você pode ter hoje, mesmo que para isso você se endivide em tantos meses de módicas prestações no crediário fácil e disponível: “basta falar com a moça”, como diz um slogan de uma peça publicitária.

                        Um mundo inteiro sem limites. Será? A mente é em sua essência e nascedouro amoral e regida pelo que chamamos de princípio do prazer (o impulso ou desejo requer descarga imediata). O ego é a parte da mente que em contato com a realidade e o mundo externo serve como executor do que há de mais interior, basal e inconsciente: o id. Nossas necessidades básicas requerem satisfações, logo, já, imediatamente. Assim é a mente em seu estado bruto. Com o evoluir da mesma e das suas inúmeras experiências, aprende-se a controlar um tanto nossos impulsos soberanos, limitando-os, interditando-os, adiando-os ou postergando-os se for o caso. A publicidade, por sua vez, tem como alvo nosso âmago inconsciente oferecendo um bem de consumo qualquer como um objeto de satisfação para nossos inquietos desejos. Como diz a psicanalista Maria Rita Kehl (“O espetáculo como meio de subjetivação”, in: Bucci, E. e Kehl, M.R., “Ideologias”, editora, Bontempo), a publicidade faz nossa mente a partir do nosso inconsciente trabalhar a serviço do capital. Diz ainda ela:  

“Hoje a publicidade não serve apenas para convencer o possível comprador de que um carro é mais potente do que outro, ou que matar a sede com cerveja x é muito mais gostoso do que com y (embora todos saibam que cerveja não mata a sede). Junto com carros, cervejas e cartões de crédito acessíveis a uma parcela da sociedade, a publicidade vende sonhos, ideais, atitudes e valores para a sociedade inteira. Mesmo quem não consome nenhum dos objetos alardeados pela publicidade como se fossem a chave da felicidade, consome imagens deles. Consome o desejo de possuí-los.” (pág. 61)

Por isto que acima dizíamos que não acreditamos que a publicidade a serviço da sociedade de consumo crie necessidades do nada. Não um nada absoluto (embora pessoas possam de achar vazias por dentro) no interior de um ser humano. O que habita em nós é falta e por causa da falta somos desejantes. Assim o que nos habita são faltas e desejos, e a publicidade, como bem diz Kehl, dirige-se ao desejo e responde a ele com mercadorias. Convoca-nos, a todos indistintamente, a gozar o que de fato somente uns poucos privilegiados podem gozar.

Continua

Joaquim Cesário de Mello

Anúncios

Uma resposta to 'SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE V'

Subscribe to comments with RSS ou TrackBack to 'SOCIEDADE DE CONSUMO – PARTE V'.

  1. Flávia Emília said,

    Quero, preciso, ter esse corpo, essa sexualidade, esses objetos de con-
    sumo que os outros exigem de mim – ou fico mais contente sendo como
    sou, saboreando o que eu posso adquirir e programando o que eu posso
    transformar ?
    Para decidir isso devíamos abrir nosso cotidiano um espalo de recolhi –
    mento, observação, auto observação. É preciso silêncio de quem pensa ”
    – Lya Luft -.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: