HumanasBlog


O ÚLTIMO TANGO EM PARIS

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em setembro 30, 2009

 

Paris conhecida romanticamente como a “cidade luz” ou a “cidade do amor” é vista no filme “O Último Tango em Paris” como um lugar dos encontros desencontrados, das solidões interligadas. Paris aí se resume basicamente a um pequeno apartamento onde um americano amargurado e recém-viúvo cuja esposa havia se suicidado encontra-se com uma jovem mulher indefinida existencialmente e que está prestes a se casar com um também jovem cineasta que está buscando realizar um documentário centrado na própria noiva. Naquele apartamento não apenas desértico de móveis e objetos o vazio dos personagens interege em uma relação fundamentada em um caráter apenas sexual e perverso, onde sequer o nome e as histórias de cada um se faz revelar ao outro. Na ardência dessa relação inominada, em que cada um parece querer fugir de suas realidades, cada um dos personagens vive o desejo pelo desejo, evitando assim qualquer afetividade.

O filme, de 1972, dirigido pelo cineasta Bernardo Bertolucci, foi escrito pelo próprio, conjutamente Franco Arcalli e Agnès Varda. Dele pode-se dizer muitas coisas, como por exemplo tratar-se de uma relação homem-mulher destrutiva, bem como de ser um drama erótico pertubador e emocionalmente arrepiante, jamais pornográfico, ou ainda um sensual tratado sobre a incomunicabilidade onde a energia sexual que pulsa a cada fotograma é o principal personagem em cena. Interpretado magistralmente por Marlon Brando no auge de sua performace como ator e pela iniciante Maria Schneider, “O ùltimo Tango em Paris” é sem sombra de dúvidas um dos mais controversos filmes da história do cinema. Polêmico por excelência, ousado e apaixonante, ninguém frente ao mesmo fica indiferente.

A atriz francesa Maria Schneider pagou um forte preço por representar ao início de sua carreira (19 anos de idade tinha ela à época) uma personagem tão marcante.  Maria Schneider teve vida difícil, tornou-se viciada em cocaína e heroína, além de uma existência sexualmente indefinida e promíscua. Claro que o filme e a personagem por ela interpretada podem não ter relação direta com as consequência de sua vida atribulada, mas a própria atriz repudia sua participação no filme alegando, inclusive, “se eu pudesse voltar no tempo, teria dito não. Teria feito meu trabalho gradualmente, discretamente. Eu teria sido uma atriz, mas de maneira mais tranqüila”. Schneider guarda rancor de Bertolluci (“ele manipulava a todos no set”) , bem como afirma haver se sentido humilhada ao ter que representar a famosa cena da manteiga que não estava inicialmente inclusa no roteiro. Lembra a atriz: ““quando me falaram da cena, eu tive uma explosão de raiva. Eu joguei tudo que estava à minha volta. Ninguém pode forçar alguém a fazer algo que não está no script. Mas eu não sabia isso. Eu era muito jovem. Então, eu fiz a cena e chorei. Minhas lágrimas em cena eram verdadeiras.” Decididamente Maria Schneider não segurou a onda do repentino sucesso e perdeu-se ao longo da carreira onde somente fez um filme de relevância que foi “O Passageiro – Profissão: Repórter” (1975), de Michelangelo Antonioni, com Jack Nicholson.

Mas, voltemos ao filme em si. Segundo a colaboradora aqui do HUMANASBLOG, Flávia Emília,  ” O Último Tango em Paris ” merece ser revisto ( ou descoberto ) em vídeo, antes que a sua fama pseudo-escandalosa roube de vez sua verdadeira beleza. Flávia comenta haver gostado da seguinte crítica feita ao filme:   O Filme de Bertolucci não é erótico ou pornográfico, mas sim uma obra existencialista e questionadora de inúmeros  valores   sagrados para a maioria das pessoas, e de como o sexo pode tomar conta de corações e mentes “. Flávia lembra-nos ainda da trilha sonora imperdível que vale a pena ser escutada ou reescutada.

Enfim, sugere-se a quem não conhece conhecer esta obra que, segundo a conceituada crítica americana Pauline Kael mudou “a face de uma forma de arte”.

Assistam aqui abaixo a passagem em que o casal dança o tango (“O último Tango em Paris”) ao som da belíssima melodia composta pelo argentiono Gato Barbeire (prêmio Grammy de melhor música instrumental em 1973). Assistam também o trailer do filme:  watch?v=3x4UOsLC0OE&feature=related

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O HORROR QUE VEM DO FRIO

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em setembro 19, 2009

Lars von Trier não é hoje nome desconhecido por quem gosta e admira cinema com C maíusculo, muito pelo contrário. Sua obra já faz parte da história do cinema como arte e expressão artística e Trier vem muito contribuindo com seus avanços como linguagem, narrativa e estética. 

 

 

Um dos fundadores do movimento chamado Dogma 95 (onde tinham como dogma, entre outros, não usar cenários e música como trilha sonora, bem como trabalhar com câmara em movimento manual) Lars von Trier se celebrou com filmes como Dogville, Dançando no Escuro, Os Idiotas, Manderley e Ondas do Destino.  Trata-se de um diretor de cinema que faz “cinema de autor” e seus filmes muitas vezes podem nao ser digestos para um público acostumado ao “conforto” do cinema-pipoca, mas que são instigantes, densos, polêmicos e criativos. E foi o que ele mais uma vez fez e conseguiu no último festival de Cannes com seu mais recente filme Anticristo. Sim, falo aqui de um filme que não assisti ainda, todavia muito já ouvi falar de quem assistiu. Aliás o filme estreou esta semana por aqui e quando assisti-lo e após assisti-lo irei então poder colocar minhas impressões pessoais sobre o mesmo.

Pelo que estou sabendo Anticristo é o tipo do filme que ou se ama ou se odeia (mas qual, afinal, não é o filme que não é assim de Lars von Trier) e tudo indica estaremos de novo frente a uma obra-prima deste inteligente e sensível cineasta dinamarquês. O filme em destaque foi realizado após um período de depressão e que, segundo ele, contribuiu para recuperá-lo do estado depressivo em que se encontrava. Trier chega a afirmar que muitas des imagens de Anticristo vêm de seus próprios sonhos e pesadelos e para ele, o filme como obra lhe é o mais significativo de sua profícua carreira.

No filme Anticristo temos um casal em crise (interpretados por Willem Dafoe e Charlotte Gainsboug) que se isolam em uma afastada casa em uma floresta após a traumática perda de um filho. Por trás dessa iniciante história sobre luto e perda iremos nos deparar com o horror em sua forma mais crua e virulenta. Trier não dá espaço a concessões e não alivia. Como em um clássico filme de terror, o casal se vê cercado de pavorosas criaturas aterrorizantes. Parece, em princípio, mais uma história qualquer de filme de terror, contudo não se iluda o possível leitor ingênuo, pois estamos a falar de Lars von Trier e o que ele tem e produz em termos cinematográficos é tudo menos mesmice e superficialidades. Como diz Isabela Boscov (crítica de cinema da revista Veja) o filme é uma experiência radical: “brutalmente realista nas cenas de tortura, Anticristo, de Lars von Trier, merece toda a polêmica que levantou. É um filme sádico – mas também uma obra de uma coragem heróica”. Ou como diz a fala da personagem da esposa: eu ouvi um som. O grito de tudo aquilo que está para morrer.

Portanto, quem for capaz de suportar e querer arricar e sobreviver, é só se agendar e correr logo para assistir, pois num acredito que fique em cartaz tanto tempo assim (estou surpreso até por vê-lo em exibição em cinema de shopping. Pr0gresso?)

Dependendo como andam seus nervos, caso queira assistam no link a seguir o trailer do filme Anticristo (2009): watch?v=mCtSQvO0L-s

CINEMA ERÓTICO: PORNÔ CULT?

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em setembro 17, 2009

 

 

 

Quando em cinema a sensualidade, o sexo e a nudez se fazem texto artístico, tal filme é direta ou indiretamente chamado de “erótico”. O obsceno levado à telas é traduzido muitas vezes como imagem pornográfica e por isto mesmo o filme é assim denominado de “pornô”. Qual a distinção, pois, entre pornô e erótico? Em ambos (tanto no cinema erótico quanto no pornô) há transgressão visual? Qual a distinção estética entre um e outro?

Difícil a resposta, ou respostas, em princípio. Particularmente só sei que o primeiro filme erótico de arte que assisti em minha vida foi o não menos polêmico “O Império dos Sentidos”, do cineasta japonês Nagisa Oshima. Estava eu nesta época iniciando minha fase adulta recente e o país saindo de um longo período de ditadura militar. Foi um choque estético, visual e textual, bateu lá dentro em minhas emoções, pré-conceitos e vísceras. Tanto valeu que revi o filme à época e anos depois.

A barreira moral sutilmente erguida entre a imagem do filme erótico (arte) e a imagem do filme pornô (vulgar), como bem descreve Rodrigo Gerace em texto que abaixo sugerimos a leitura, “embaralha percepções de acordo com o contexto histórico no qual se projetam”. O cinema erótico, por exemplo, tende a não explicitar o obsceno, todavia ao representá-lo em um contexto narrativo e apostar na simulação instigando à imaginação e os desejos, potencializa o não mostrado instigando nossas fantasias eróticas e perversas. Já no filme de caráter pornô o obsceno é jogado em nossas caras de vouyeur. Não há simulação, mas escancaramento. Mais direto só fazendo o que está se vendo.

A distinção, que não é simples mas complexa, entre arte e pornografia, seguindo o raciocínio de Gerace, representa a subjetividade do mundo conceitual modelado pela cultura e pelo momento histórico em que se vive, principalmente o momento histórico da arte e da sexualidade.

Sobre este tema, sugiro a leitura do seguinte texto do sociólogo e mestre em cinema Rodrigo Gerace, publicado na revista eletrônica Etcetera (vale a pena conhecer a revista, que será assunto de outro papo). Leiam, pois, reflitam sobre a questão e debatam. Acessem: index.html

AMORES LIBANESES

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em agosto 24, 2009
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Vez em quando permito a mim mesmo me surpreender. E foi o que aconteceu sábado passado quando fui ao cinema (ETC) sem nada saber sobre o filme a ser assistido. Às vezes me dou mal quando assim faço, mas não naquele sábado. Por cerca de 95 minutos me vi inserido em um mundo diferente, diverso e misterioso: o mundo feminino. O filme a que faço menção é ‘CARAMELO”, produção franco-libanesa que conta a história de cinco mulheres em diferentes fases da vida que vivem em torno de um pequeno salão de beleza. O título do filme faz referência a uma mistura ou pasta utilizada para depilação à base de água, açúcar e limão.

Neste pequeno e medíocre espaço cotidiano constrói-se com suave elegância, porém com não menos melancolia, um fascinante e profundo painel do universo e da alma feminina. De logo percebi, embora sem ainda saber, que estava frente a um filme que só poderia estar sendo dirigido por uma mulher, afinal nós homens por mais que tentemos jamais iremos adentrar com tamanha singeleza e afetividade nos pequenos detalhes dos intramuros deste mundo estrangeiro que é como disse acima o mundo feminino. Carecemos de sensibilidade suficiente para tal.

Feito a própria mistura que dá título ao filme, as histórias amorosas das cinco mulheres vão se interligando e dando uma consistência adocicada, porém como assim é feito com o caramelo utilizado no salão de beleza o mesmo pode ser doce, mas seu final é doloroso. Como é suave, bela e doída a alma feminina.

A direção sensível de Nadine Labaki (para surpresa minha a protagonista central da história, a estonteante personagem Layale) gera uma atmofera de tanta autenticidade que o filme passa uma certa lentidão que é apenas superficial, pois a vida na verdade nos passa tão ligeira. Assistimos assim o dia-a-dia rotineiro dessas mulheres e seus pequenos grandes amores, alegrias e sofrimentos. Se temos aí em comum o amor, cada uma das cinco personagens vivem a sua maneira o sentimento. Layale ama um homem casado e sonha que um dia ele possa deixar a esposa para ficar com ela, e envolta em seu impossível sonho pouco percebe ou dá valor ao sincero amor do guarda de trânsito que a idealiza a certa distância (antológica a cena em que Layale conversa com o amante ao telefone e o guarda do outro lado da rua espreitando-a estabelece imaginariamente ser com ela o diálogo). Nisrine que está prestes a casar vive o tormente de não ser mais virgem e o noivo não saber. Já Rima não se sente atraída sexualmente por homens e joga sedutoramente com uma cliente (sempre achei aquelas massagens com água morna e xampu que se faz no cabelo antes do corte algo meio excitável, e no filme tal carícia chega ao erotismo sublimável). Tem também Jamale, candidata à atriz que reluta em aceitar o envelhecimento e Rose que abre mão da possibilidade de finalmente amar e ser amada por um homem em troca de um outro amor: o amor por sua irmã mais velha que sofre mentalmente de demência.

Sutil, sedutor e sensual (assim comumente é o universo feminino) o filme vem me comprovar mais uma vez que a vida tem sua ambiquidade, isto é, é uma imensa comédia sobre inúmeros, inesgotáveis e diminutos dramas diários. Se o filme nos revela que por um lado homens cheiram a café, álcool e cigarros, também nos revela que por outro lado as mulheres cheiram a esmaltes, xampus e caramelo.

Assistam ao trailer do filme “Caramelo” e atentem para a encantadora trilha sonora que permeia o próprio filme e história:

CINEMA: ARTE X INDÚSTRIA

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em agosto 13, 2009

Michael Mann, cineasta americano, está na pauta no momento, devido ao seu mais recente filme “Inimigos Públicos” que conta a história do gângster John Dellinger, com o ator Johnny Deep no papel principal. Gostos à parte, Michel Mann – conhecido diretor do politizado “O Informante” com o qual recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme em 1999 – já foi definido pela crítica de cinema Manohla Dargis (New York Times) como um cineasta especializado em fazer filmes de arte com orçamentos milionários. Ao meu ver Manohla Dargis exagera (os filmes de Mann não são lá tão artísticos assim, na acepção da palavra como convencionamos chamar “filmes de arte”), mas o diretor sob comento é um bom diretor e seus filmes (maioria) merecem atenção.

Estamos aqui e agora falando do Michael Mann, pois consideramos boa a entrevista que o mesmo deu (ou se submeteu) ao crítico francês Serge Kaganski por ocasião do lançamento do “Inimigos Públicos”, e que foi reproduzida na Folha de São Paulo e que podemos acessar através do link: ilustradanocinema.folha.blog.uol.com.br

Vale uma conferida…

CINEMA PARA CINÉFILOS

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em julho 14, 2009
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Quem é fã de cinema ( não necessariamente quem gosta de assistir filmes,porém quem gosta e curte cinema como expressão artística), quem é cinéfilo, mas cinéfilo mesmo, cinéfilo de verdade, não deve perder de acompanhar o Blog da Folha Online (Ilustrada no Cinema) dedicado ao cinema com C maiúsculo.

Vai aí o link de acesso a quem interessar: ilustradanocinema.folha.blog.uol.com.br

CINEMA: A JANELA E A FINITUDE

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em junho 14, 2009
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Mais do que apenas um filme, A JANELA é uma verdadeira reflexão profunda e contundente do ciclo de vida, levada às telas com maestria sensibilidade e arte, uma combinação bela e suavemente melancólica de imagens, poesia e prosa. O filme (que flerta com “Morangos Silvestres de Bergman) dirigido pelo veterano cineasta argentino Carlos Sorin (“Histórias Mínimas”, “O Cachorro”), relata a finitude do personagem Antônio, agora com 86 anos.  O enredo é baseado nos livros “Três Rosas Amarelas”, de Raymond Carver, e “Mãe e Filho”, de Alexander Sokurov. O filme é detentor do prêmio Fipresci (da Federação Internacional dos Críticos) no Festival de Valladolid (Espanha).

O filme e a câmara são centrados no presente do personagem principal e dele pouco sabemos de seu passado e história. Podemos acompanhar apenas o reviver de seus afetos e lembranças minimalisticamente através de silêncios e olhares. Como uma madeleine proustiana uma série de memórias são expostas sem flash backs hollywodianos, de maneira suave, terna e lenta. Aliás, o tempo é um personagem que impera e sombreia todo o filme, seja na condução narrativa vagarosa como um tempo que se arrasta envelhecido, seja no fundo sonoro constante do sutil tic tac de um relógio pendular, seja no tempo ressuscitado da memória.

Já dizia Noberto Bobbio que o tempo do velho é o tempo da memória, pois somos aquilo que lembramos. Somos o último e o único guardião de nossas lembranças não apagadas ou extintas. E ainda citando Bobbio “na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos. Encontramos os anos que se perderam no tempo, as brincadeiras de rapaz, os vultos e as vozes, os gestos, os companheiros de escola, os lugares, sobretudo aqueles da infância, os mais distantes no tempo e, no entanto, os mais nítidos na memória” (para quem não sabe o trecho que aqui cito foi escrito por Bobbio em seu livro “O Tempo da Memória” quando ele tinha 87 anos de idade).

Não é à toa que somos de imediato apresentados a uma lembrança longínqua de Antônio que ele até mesmo sequer sabia tê-la retido na memória (onde ficam guardadas e reservadas tais lembranças?), a imagem do rosto de uma mulher que certo dia, quando criança aos 6 anos, cuidou dele em uma noite em que seus pais deram uma festa em casa. A poesia de tal cena (orquestrada e sensivelmente realizada em uma imagem cinematografica desfocada e nebulosa vista como um cristalino que perdeu sua transparência) que abre e fecha o filme é singular e lírica, e deve ser apreciada e sorvida sem a pressa cotidiana do dia a dia urbano, assim como o filme com um todo, afinal estamos frente a um filme lacunar, prenho de detalhes e de silêncios, e só podemos realmente apreciá-lo acaso nos permitamos a ele nos entregar.

O naturalismo empregado por Sorin ao filme (por exemplo não temos música acompanhando as cenas principais, mas sons ambientais como, por exemplo, o uivar do vento,o cantar dos pássaros e o zumbido de uma abelha) nos faz ainda mais cúmplices, afinal sentimo-nos como que acompanhando os derradeiros instantes do encerrar de uma vida. À princípio tal realismo fílmico pode provocar em alguns expectadores a falsa impressão de estarmos frente a um filme meio pobre de enredo ou mónotono e lentificado. Mas, lembro, a vagareza (que não é inimiga da história, ao contrário, é a própria história) e a monotonia das horas vagas no quarto – onde Antônio começa a se despedir da vida como que um prisioneiro acorrrentado à cama – são as impressões vivenciadas pelo próprio personagem (quando a empregada lhe fala de um cheque pré-datado para 60 dias, Antônio responde: “60 dias é uma eternidade”). Remeto-me, pois, a uma crônica nossa aqui mesma publicada (vide “Crônicas literárias”), cujo título é A SENHORA DE TODAS AS COISAS.

Não, não há pobreza no enredo. O que temos é um acumular de perdas e ausências, embora lá no fundo da alma ainda respire ávido uma criança. Ninguém se cura da infância, já dizia Sponville. Ou, por sua vez, como afirma Mario Quintana: “triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância”.

Não pense o eventual leitor aqui que o filme “A Janela é um filme triste em si e que ao sairmos dele levaremos melancolia. Não. A melancolia da história, e da maneira como ela é conduzida é serena e terna, quase como se fosse um beijo afetuoso e materno, fazendo-me, inclusive, relembrar de um outro filme sobre velhice: o agora já distante “Baleias de Agosto”.

Enfim, quem se aventurar a viajar na área humana sombria onde parece ser desértica de sonhos e desejos que é o futuro da velhice de todos nós (desejamos e ansiamos tantas coisas na vida, mas desejar ser velho não), encontrará em “A Janela” um filme reflexivo e contemplativo sobre o tema, gentil até. Respirem, portanto, toda a poesia implícita na passagem do caminhar de Antônio fora da casa aonde estava confinado a ver o restante de sua vida por uma janela. Acompanhemos com ele a beleza da vitalidade da vida, tão amareladamente ensolarada como um quadro de Van Gogh. Linda e singela tal sequencia visual. Não há como ficar indeferente frente a mesma. A vida, a verdadeira vida ( personagem diz a certo momento que ele ficou apenas como uma promessa literária que cita Jorge Luis Borges em uma dedicatória de um livro), está do outro lado, do lado de fora das janelas.

Não poderia deixar de relatar minha associação das cenas finais do filme (ao anoitecer) com os seguintes versos do poeta Ruy Espinhera Filho:

A noite avança e as janelas
aos poucos
se apagam. No silêncio
meu coração permanece
iluminado. Eis que trabalha, fiel,
mesmo quando revela
a si mesmo em breve imóvel
ou,depois, a última estrela
sem testemunhas
no céu final.
 

Abaixo algumas cenas deste filme que não pode passar desapercebido:

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 A Janela

 

 

CINEMA

Posted in Cinema por Joaquim Cesário de Mello em junho 7, 2009
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COMENTÁRIOS SOBRE UMA ANALFABETA
 
Assisti outro dia ao filme “O Leitor”. Uma história interessante que certamente encantará, sem dúvidas, as senhoras que desdenham dos homens que as trocam por “meninas” mais jovens. Não vou contar o enredo, mas está na cara que há um clima romântico entre uma mulher mais “madura” e um jovenzinho. A mulher madura é uma pessoa simples e analfabeta. Envergonhada por essas condições chega ao extremo de aderir a SS, – o filme se passa na Alemanha nazista – e a cometer crimes hediondos.  Em nome de um orgulho patológico, a personagem vai a julgamento e é culpada pelos atos, justamente por que desconhecia as palavras escritas. Um filme bonitinho, que traz uma “moral” simples: “Leia e não serás assassino”, ou “Não tenha vergonha de sua ignorância que isso poderá lhe levar a caminhos mais desumanos”. As coisas não são assim…
            Penso que se depositou ou se atribuiu a literatura um lugar de poder que ela não tem, e acho que ler a bíblia ou a Odisséia não salvará a humanidade dos extensos extermínios e  da crueldade humanas . A idéia de extermínio escapa, a consciência, o Cogito, e está embevecida no contágio coletivo de uma exclusão a que um segmento da população foi submetido. Não irei aprofundar mais, por desconhecer o objeto: extermínio. O único comentário que tenho a fazer, é que as palavras tem força, são ousadas, atrevidas, mas infelizmente elas são incapazes de domar os atos obstinados da criatura humana. Interessante que em “O Leitor” a personagem se mata apoiando livros sobre seus pés, na tentativa de facilitar seu enforcamento – a personagem se suicida, tirando os livros abaixo dos seus pés. Os livros são facilmente chutáveis…

Marcos Creder
marcoscreder@yahoo.com.br