HumanasBlog


DICAS E SUGESTÕES

Posted in Dicas por Joaquim Cesário de Mello em setembro 12, 2009

Quando resenhei sobre o livro de Émile Zola “O paraíso das damas” (vide post pertinente abaixo na categoria Livros & Leitores) fiquei a criticar o distanciamento geracional ora existente entre os jovens e seu passado histórico, artístico, literário e cultural. Tal distanciamento gera alienação e, por que não reconhecer e dizer, empobrecimento de corações e mentes. Por esta razão estamos abrindo aqui no HUMANASBLOG um espaço dedicado a dar dicas e sugestões não sobre coisas que estão ocorrendo agora (para isto temos a categoria Notícias e Eventos), mas sim um espaço voltado a obras artístas em geral, sejam elas pictóricas, musicais, teatrais, literárias, poéticas, fílmicas, etc. O desejo é evidente: construir uma ponte entre o ontem e o hoje e contribuir para se entender que muito do que chamamos de novo e criativo é na verdade algo já feito ou abordado e que agora se apresenta de atual com uma paginação mais contemporânea, tão somente. É claro que o ser humano em sua quase infinita capacidade criativa continua criando obras artísticas realmente inusitadas, por exemplo, apenas é que é necessário saber separar o jóio do trigo, principalmente em tempos de efemiridades e de cultura pop.

Iniciaremos o espaço ora aberto (aceita-se de bom grado sugestões e dicas para o mesmo, além de trabalhos que o transeunte aqui do HUMANASBLOG queira enviar para divulgação e debate) com o filme “Felicidade” (Happiness), filme este dirigido por Todd Solondz (do chamado cinema independete americano) e realizado no ano não tão distante assim de 1998. À época “estourava” o sucesso oscarizado “Beleza Americana” e eu ao assistir “Felicidade” no cinema da FUNDAJ, após haver tempos antes assistido “Beleza Americana”, pensava que iria me deparar com um filme estilo “genérico”. Ledo engano. “Felicidade” coloca no bolso “Beleza Americana” que a partir de então pareceu-me mais um filme infanto-juvenil ao estilo (exagero) “Bambi”.

“Felicidade”, assim como “Beleza Americana”, aborda o tema pedofilia e homossexualidade, porém de maneira seca e contudente, sendo um verdadeiro murro no estômago do espectador (agora compreendo melhor o porque da palavra espectador: aquele que espia a dor). A história ambientada em Nova Jersey (EUA) conta um pouco sobre a vida de três irmãs, sendo a mais velha casada insatisfatoriamente com um atormentado psiquiatra homossexual não assumido e com fortes inclinações pedófilas. A cena em que ele como um predador prepara na comida um sonífero e que dá ao amiguinho do seu filho para depois “traçá-lo” é cruel, assim como o diálogo que o tal menino estuprado tem com o psiquiatra na carona de volta para sua casa é algo que grudou em minha memória cinematográfica.

As outra irmãs da história são uma ninfomaníaca (a irmã do meio) e uma tímida (a mais nova) que busca vencer sua timidez através de músicas que compõe. Não precisa nem dizer que neste filme Todd, que também é responsável pelo roteiro, faz uma ácida crítica ao modo de vida suburbano americano e por extensão ao modo de vida classe média em geral do mundo ocidental americanizado. Com um excelente roteiro, forte, irônico, contundente e agudo, o filme “Felicidade” é com certeza uma obra-prima dos anos 90.

Acompanhando a vida das três irmãs e suas inquietudes existenciais o filme nos leva a testemunhar suas procuras desesperadas e infrutíferas da felicidade, mesmo que sacrificando qualquer moralidade pessoal ou social.

O elenco não fica nada a desejar e lá temos: Phillp Seymour Hoffman, Jane Adams, Jon Lovitz, Ben Gazarra entre outros. O Filme “Felicidade” à época aboucanhou o Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, no British Independent Film Awards, Prêmio de Crítica Internacional do Festival de Cannes e o Prêmio do Júri na Mostra de Filmes de São Paulo, além de haver sido indicado ao Globo de Ouro (melhor roteiro).

Alguns outros comentários sobre o filme:

ZAZ Cinema:

“Felicidade é uma divertida incursão pelo ladro negro da satisfação burguesa. Ambientado nos subúrbios de New Jersey, onde Solondz cresceu, o filme gravita em torno das irmãs Jordan e da perversão oculta nas relações cotidianas… Pelo filtro do humor negro de Solondz, a sordidez e a perversão são apenas variáveis do desespero e da infelicidade crônica”.

VEJA:

Felicidade é, em princípio, um drama familiar sobre o assunto insinuado no título, ou seja, a busca da dita cuja. À medida que a história avança, porém, se percebe que os caminhos escolhidos pelos personagens para alcançar esse objetivo são, no mínimo, inusuais… A crítica que Felicidade faz à hipocrisia familiar é, no entanto, em tom diferente da que aparece no recente Festa de Família. Nenhum personagem prima pela esquisitice, todos parecem “normais”. Se o filme trouxesse uma mensagem, seria a da tolerância. Cair no moralismo teria sido a maior armadilha de um roteiro como o de Felicidade. Evitá-lo dá a exata medida do talento de Solondz como diretor”.

JURANDIR FREIRE COSTA (psicanalista): ”

A impressão que fica, ao se assistir ao filme de Todd Solondz, “Felicidade”, é a de “loucos em busca de uma chave”. O diretor evita, com inteligência, a atitude de palmatória do mundo diante dos personagens. Não se trata de afirmar que os adultos se infantilizaram, que as crianças perderam a infância ou que as famílias de hoje, artificiais como bonecos playmobil, perderam o script do que fazer ou dizer. Trata-se de mostrar o novo roteiro social da “felicidade”: a confissão e a autenticidade. Em nome da “autenticidade”, os indivíduos se sentem autorizados a confessar tudo o que sentem ou pensam, pouco importa o que decorra da confissão… Os personagens de “Felicidade” não são maus, perversos ou “seres reprimidos” ávidos por liberação; são, pura e simplesmente, indivíduos inconseqüentes e irresponsáveis, em relação às atitudes morais que reclamam para si. Ou seja, todos querem ser compreendidos, tolerados, perdoados e inocentados no que sentem e dizem, mas nenhum, exceto o personagem de Joy Jordan (Jane Adams), duvida que a prática da boa vida consiste, exclusivamente, em saber e dizer “quem se é” em matéria de sexo e agressividade. Passamos da hipocrisia vitoriana, em que o inferno era o outro, para o vaudeville nova-iorquino ou californiano  da auto-ajuda, em que o inferno está dentro de nós, até que venhamos a cuspi-lo na cara dos outros”.

Enfim, quando puder (tem em DVD) assistam. O final é hilário, inquietante, antológico e imperdível.

Anúncios