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SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em setembro 25, 2009

Separação conjugal é usualmente um momento crítico na vida de qualquer um que por ela passe, principalmente para os filhos nela envolvidos, mormente ainda quanto a dissolução da conjugalidade se faz de maneira litigiosa e não amigável. A ausência de comunicação com um dos genitores pode provocar significativos sentimentos de angústia e os mesmos virem a ser maléficos e deletérios na vida de uma criança. Como já afirmou a psicanalista francesas Françoise Dolto a desqualificação contínua promovida por um dos genitores em relação ao outro pode afetar profundamente a formação psíquica e afetiva do jovem que desenvolve em si afetos negativos para com o cônjuge “exilado”. Trata-se de uma espécie de orfandade com pai (ou mãe) viva.

Em 1985 o psiquiatra Richard Gardner (EUA) elaborou e descreveu o que ele mesmo denominou de “Síndrome da Alienação Parental” (SAP). A SAP acaba sendo também uma “implantação de falsas memórias”, visto que o genitor “exilado” acaba sendo evocado sempre pelos aspectos negativos (verdadeiros ou não) e a imagem que o filho criança vai construindo do mesmo é de uma imago parental não necessariamente condizente com a realidade. Assim, na SAP, um dos genitores, com tendêncai vingativa muito grande, utiliza-se do próprio filho(a) como objeto de sua vingança e instrumento de seu ódio pessoal contra o ex-parceiro.

Segunda o Wikipédia a SAP é um fenômeno desencadeado por um dos pais em relação ao outro, mas que também pode ser desencadeado por outra pessoa distinta do guardião do menor, como por exemplo, o novo(a) companheiro(a) do genitor que detém a guarda do filho, ou pelos avós, tios, etc. A SAP é geralmente mais encontrada em filhos que estejam envolvidos em divório (embora possa ocorrer com menor frequência em famílias intactas) onde o genitor responsável pela alienação promove uma espécie de “lavagem cerebral”, mediante inúmeras mensagens negativas a respeito do genitor ausente ou afastado. Ao provocar no filho uma deteriorização da imagem do genitor “exilado” , desenvolve-se a SAP onde se encontra então um ódio patológico ou um temor injustificado em relação ao pai ou mãe alienado. Tal ódio, ansiedade ou temor, conjugada a construção negativa da parentalidade no sujeito da criança, pode levá-lo no futuro, na vida adulta, a encontrar dificuldade em assumir papéis de pai ou mãe. Crianças com SAP são mais vulneráveis à drepressão, ansiedade, uso abusivo de drogas como escape, baixa auto-estima e, inclusive, correndo riscos de vir a cometer suicídio.

Devido a relevância do assunto e pertinência do mesmo em um momento histório-social onde é comum divórcios e separações conjugais, o HUMANASBLOG oferece ao eventual transeunte uma interessante reportagem publicada na revista “Ciência & Vida PSIQUE”, nº 43, que leva o título “Amor Exilado”. Leiam, se informem, vale a pena:  entre-a-cruz-e-a-espada-a-analise-psicologica-147870-1.asp

Para quem ainda quiser se aprofundar sobre o tema,inclusive saber melhor lidar com a questão, conheçam o seguinte site específico (muito bom): www.alienacaoparental.com.br

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A IDEOLOGIA DO AMOR

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em setembro 3, 2009

O amor é uma emoção? Pode-se dizer que o amor é uma emoção complexa e que envolve uma gama variada de sentimentos e ideais? Existe amor de curto, médio e longo prazo, amor momentâneo e passageiro, assim como amor permanente, eterno ou inesquecível? Afinal, o que é o amor?

Se formos relacionar amor à emoção, então o amor será definido como um sentimento que altera o ser humano, tanto influenciando sua maneira de avaliar, julgar e pensar, quanto provocando um estranho e paradoxal misto de dor e prazer. Sendo o amor uma espécie de emoção, como toda emoção tem direta ou indiretamente seu objeto. A emoção do amor também tem seu objeto, geralmente uma outra pessoa.

Considerando o amor então como emoção, pode-se agora afirmar que o amor é emoção e julgamento. Para muitos a presença do amor e seu destaque dentre as relações pessoais é vital e necessário para a própria existência da sociedade humana, principalmente por transmutar o egoísmo, tão intrínseco e característico da espécie humana, em altruísmo. Da libido inicialmente voltada ao ego à libido voltada aos objetos (Freud). O amor, o sentimento amoroso, age como cimento do processo civilizador.

Há muitas palavras que estão relacionadas com a palavra amor, tais como: afeto, ternura, carinho, gratidão, compartilhamento, paixão, felicidade, alegria, entre outras. Cada palavra que busca expressar em termos vocabular sentimentos e emoções tem significância e significado. O amor também é uma palavra, um substantivo – se assim não o fosse não estaria com palavras escrevendo sobre ele. O amor, portanto, seja emoção ou não, é igualmente uma palavra, consequentemente tem significado simbólico e lingüístico. Sentindo uma coisa que chamamos de amor estamos com isso tentando traduzir com pensamentos o que se passa em termos de sentimentos e emoções. Chamando o “embrulho” emocional de amor  estamos dando-lhe um sentido e um conceito. Neste aspecto não nos distanciaríamos do sentimento amoroso ao percebê-lo também como ideológico e histórico. O conceito e juízo que se faz do sentimento ou emoção do amor é, por esse viés, variável ao longo da história da humanidade, influenciado que é pelos aspectos sócio-culturais de uma determinada sociedade em um determinado momento histórico do mesmo.

Falar de amor é falar de sentimento em forma de linguagem. A linguagem, por sua vez, é um sistema de representações compartilhadas e aceitas por um grupo social. Tal sistema de representações permite a comunicação entre os membros desse grupo. A linguagem e o pensamento mantêm estreita relação com a cultura, assim como os conceitos que expressamos no uso da linguagem e da palavra. Não é a toa que no livro “1984” de George Orwell um dos mecanismos de dominação social e ditatorial seja a manipulação das palavras e seus significados, quando no novo dicionário (novilíngua) é extraída a palavra liberdade.

Lei o texto na íntegra: artigo_07.html

A QUÍMICA DO AMOR E DA PAIXÃO

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em setembro 2, 2009

Quem já se apaixonou na vida sabe a “agonia” de se estar apaixonado. Quem ainda não se apaixonou prepare-se. Paixão é revolução, revolução em todos os sentidos, inclusive fisioquímico. Parece até que fomos pegos de surpresa por um fulminante raio ou – se preferirem a clássica e mítica imagem – tivemos o coração atravessado por uma flexa disparada pelo cupido. Sim, os antigos eram realmente sábios ao associarem a paixão a uma espetada flexada de origem sobrehumana, afinal qualquer racionalidade se perde quando se está apaixonado: ficamos “abasbacados”, “ridículos” e “bobos”. É como naqueles versos de Fernando Pessoa quando o mesmo diz: “todas as cartas de amor são ridículas/Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.

Mas o que se passa em nós quando estamos apaixonados, ou por que é que ficamos apaixonados? Romantismos à parte, o que acontece é muita, mas muita química nos corpos dos apaixonados. A dopamina, por exemplo (neurotransmissor da alegria e da felicidade) é um dos principais responsáveis por nossos corações baterem mais forte achando que “o amor é lindo”. Do ponto de vista cerebral pode-se dizer que a sensação euforizante da paixão é análoga à sensação que pode nos provocar a cocaína. Sim, a paixão vicia e sofremos de abstinência quando nosso objeto amado (objeto da paixão) está ausente ou distante.

Segundo uma antiga matéria publicada na revista “Superinteressante” lá pelos longíncuos idos de 1988, mas que continua atualizadíssima, ” em pesquisas recentes, estruturas do cérebro chamadas núcleo caudado, área tegmentar ventral e córtex prefrontal se mostraram mais ativadas em pessoas apaixonadas. São zonas ricas justamente em dopamina e endorfina, um neurotransmissor com efeito semelhante ao da morfina. Juntos, esses agentes estimulam os circuitos de recompensa, os mesmos que nos proporcionam prazer em comer quando sentimos fome e em beber quando temos sede. Estar em contato com a alma gêmea, mesmo que por telefone ou e-mail, resultará na liberação de mais endorfina e dopamina, ou seja, de mais e mais prazer”.

Ainda segundo a “Superinteressante”, “a feniletilamina, parecida com a anfetamina, é outra molécula natural associada a essa avalanche de transformações, assim como a noradrenalina, que contribui com a memória para novos estímulos. Por isso os apaixonados costumam se lembrar da roupa, da voz e de atos triviais de seus amados. Hormônios como a oxitocina e vasopressina, responsáveis pela formação dos laços afetivos mais duradouros e intensos, como o da mãe com o filho, também tendem a aumentar nas fases mais agudas, preparando o terreno para um relacionamento estável”.

Resistir a paixão não é fácil, visto que ela nos pega de surpresa e nunca estamos preparados de fato pra ela. É muita química que produzimos a partir então da adolescência.

A respeito do tema “a química da paixão e do amor” encaminhamos o leitor curioso a um antigo artigo publicado na revista  “Veja” em maio de 2008, cujo título é “A Genética da Paixão. A conferir: p_086.shtml

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O AMOR E SUAS ORIGENS: BASES PSICOLÓGICAS DO AFETO AMOROSO

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em agosto 31, 2009
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Já notaram que ninguém nasce amando? Basta observar com atenção um bebê: desde cedo ele demonstra estar sentido medo, ansiedade e raiva, mas e o amor? O recém-nascido te ama? O recém-nascido tem sentimentos de culpa, pudor ou vergonha? A resposta é não. O ser humano vem ao mundo, isto é, nasce com alguns sentimentos ou afetos básicos (afetos primários), tais como os acima falados: medo, ansiedade e raiva. Outros sentimentos ou afetos serão construídos e desenvolvidos mais adiante na existência humana (afetos secundários), tais como a culpa, o pudor, a vergonha e o amor. Os afetos secundários não são assim denominados por serem menos importantes, mas sim por serem posteriores. E são sentimentos que se desenvolvem na psique humana através de nossas interações com os outros (os americanos chamam de “afetos sociais”).

É sobre este intrigante e misterioso tema, o amor, que abaixo reproduziremos um ensaio publicado anteriormente na REVISTA FAFIFE, número 13 (2005),
e que faz parte de uma trilogia, a trilogia do amor. O texto que se segue em sua parte inicial (quem o desejar ler na íntegra é só acessar através do link abaixo) debruça-se sobre a temática desse complexo sentimento que é o amor, a partir de suas prováveis origens e raízes. Da mesma forma que quando estudamos no colégio História estudamos um período chamado de Pré-História (e assim é chamado por anteceder ao período humano anterior ao registro linguístico), o sentimento amoroso também tem sua pré-história, isto é, um período anterior à aquisição da linguagem e do simbólico pelo ser humano, que convencionamos chamar de “oral”, embora seja uma época em todos nós que não iremos verbalmente dizer a alguém que o amamos, até porque não conhecemos a palavra e seus significados. E não é porque se trata de um período de silêncios linguísticos que não seja um período de muitos ruídos e zumbidos inquietantes à alma humana. O presente texto tem o título “A PRÉ-HISTÓRIA DO AMOR: RAÍZES E ORIGENS DO SENTIMENTOS AMOROSO”. Os demais (“A IDEOLOGIA DO AMOR” e “AMOR EM TEMPOS NARCÍSICOS”) publicaremos em outra oportunidade.

A PRÉ-HISTÓRIA DO AMOR: RAÍZES E ORIGENS DO SENTIMENTO AMOROSO

Joaquim Cesário de Mello

“Encontro em minha vida milhares de corpos; desses milhares, posso desejar algumas centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro de que estou enamorado me designa a especialidade de meu desejo”. Com estas palavras Roland Barthes (2003, pág. 50) indaga-se por que se deseja alguém, por que se ama.

O amor é tema da literatura, do cinema, da poesia, da filosofia, da psicologia e de tantos outros ramos do saber e das artes humanas. O amor é assunto de todos nós. Quem já não falou de amor? A questão é: sabemos verdadeiramente o significado desse sentimento que chamamos de amor e com o qual relacionamos à idéia de felicidade? Como nasce ele e quais seus motivos? O texto a seguir é apenas um breve ensaio sobre a psicologia do amor e a razão de nossas escolhas amorosas. O tema é vasto, complexo e talvez infindável e inesgotável. Aqui teremos somente algumas reflexões e estudos iniciais a respeito do mesmo: uma ligeira revisão sobre este afeto que está para a alma humana assim como o oxigênio está para o organismo.

Desde os tempos míticos o homem se debruça sobre o tema. Os gregos da Antiguidade, por exemplo, representavam o amor através dos deuses Afrodite e Eros. Eros, filho de Afrodite com Ares, aquele que flechava os corações das pessoas tornando-as apaixonadas, ele mesmo certa vez também se apaixonou por Psique (alma). Após inúmeras peripécias divinas e sofrimentos, Eros se une em definitivo com Psique. Eros e o amor são assuntos do clássico livro O Banquete de Platão (1989). Nele encontramos, na fala de Aristófanes, o relato do mito da androgenia, segundo o qual inicialmente os seres humanos eram seres esféricos, completos e perfeitos. De tão perfeitos que eram os humanos tentaram desafiar os deuses do Olimpo, aspirando chegar à sua morada. Por tal ousadia Zeus os divide, cortando-os em duas metades: um lado masculino e outro feminino (é bem possível residir daí a expressão cara-metade), e os condenou a vagar pelo mundo à procura de sua parte perdida. Tal mito significa, comenta Aranha e Martins (1993), o anseio do ser humano pela totalidade, representada pelo encontro do “par perfeito”. Vem do comentado livro a seguinte frase de Sócrates a respeito de Eros: “um anelo de qualquer coisa que não se tem e se deseja ter”.

Já em meados do período medieval, inúmeras transformações sócio-culturais começaram a ocorrer: o aumento das populações e suas concentrações em cidades, o aperfeiçoamento da agricultura e a intensificação comercial, o surgimento de associação de artesãos e trabalhadores, a criação de universidades, entre outras. A face e a ordem do mundo feudal davam início a algo novo. Em meio a tudo isso a literatura e a poesia da época celebravam o ideal do amor romântico capaz de revolucionar a alma das pessoas. A convenção do casamento por arranjo começou dar vez à idéia do casamento por escolha e por atração sensual. O amor, sentimento sublime, passou então a ser visto, principalmente através de canções e trovas de poetas e menestréis, como algo que redime. O amor é agora o sentimento que nos faz feliz – assim cantam os líricos.

Com o advento da modernidade e a transformação do pensamento e do saber, o ser humano torna-se cada vez mais a medida de si mesmo e das coisas. Segundo Tarnas (2002), com a ênfase à pertinência pessoal das idéias e ao individualismo, “a verdade passou a ser sentida pelo ego”. Com o desmoronamento da cosmografia aristotélica não eram mais os deuses a conduzir o destino do homem, mas sim este senhor de sua própria sorte. As emoções e os desejos humanos não eram mais resultado de decisões e jogos divinos; e o amor e a escolha amorosa, então, passaram a ser decisão de cada um.

Mas, talvez, as coisas não sejam bem assim. Talvez os “deuses” não tenham morrido, isto é, as forças que conduzem o homem e suas escolhas hoje podem não mais ser vistas como algo divino e externo, contudo parece residir no mesmo forças que lhe são internas e ocultas, e que movimentam e motivam a conduta humana. Se a vontade humana, pois, não vem de cima, parece vir então de baixo. Coloquemos isto em outras palavras. Sabemos que Copérnico retirou a terra do centro do universo, assim como Darwin acabou com a ilusão antropocêntrica ao reduzir o homem a sua natureza animal. Já Freud ao iluminar as profundezas arqueológicas da psique revelou que não é a razão propriamente dita a conduzir o comportamento humano. A Era Moderna, assim, inaugura uma nova visão do homem: menos sublime e inseparado da Natureza.

Veja o texto na íntegra: artigo_05.html

A ADOLESCÊNCIA E SEU SIGNIFICADO

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em agosto 19, 2009

O que é adolescência, afinal? Tal pergunta pode aparentemente até ser fácil de responder, porém atentemos melhor a questão e veremos que ela trás em si uma ampla complexidade que não se esgota fácil em uma primeira e ligeira resposta.

Assim, dentro dessa perspectiva, isto é, problematizando o conceito de adolescência, e não querendo esgotar o assunto com este simples post, trazemos ao transeunte leitor do HUMANASBLOG um interessante artigo publicado pelo psicólogo Arnaldo Chagas na revista de psicologia “Catharsis”. Vale, pois, a leitura: adolescencia.htm

E para quem busca ampliar mais o assunto e tematizá-lo com mais profundidade, complemente com a leitura do ARTIGO 09 publicado na Categoria “Artigos Recomendados”: artigos-recomendados

A CRISE DA MEIA IDADE

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em agosto 10, 2009
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A crise da meia idade, que também já foi chamada de “idade do lobo” e “crise dos 40”, reflete uma importante etapa desenvolvimental do ser humano que é o atingimento do ápice da maturidade. Trata-se de uma fase da vida onde somos levados a avaliar tanto a vida profissional quanto a vida afetiva, bem como nos deparamos, de fato, com a irreversibilidade do tempo. Aos primeiros evidentes sinais de envelhecimento (o embranquecimento dos cabelos, as rugas, a perda do vigor físico, entre outros) passamos a questionar a vida em geral. Perguntas feitas a si mesmo como “o que fiz da minha vida” passam a ser comuns, e a percepção do estreitamento do tempo como resto de vida leva-nos muitas vezes a uma angústia existencial, agravada por temas como aposentadoria e ninho vazio.

Pode parecer um paradoxo, mas atingir o chamado “apogeu da vida” faz-nos descobrir que o mesmo (a plenitude, o apogeu) tem um prazo, isto é, vai acabar. Para frente não há mais crescimento, mas finitude. Em algum momento entre os 35 e 45/50 anos muitos de nós percebem que não somente a vida tem um fim, mas que mais da metade da vida já se passou. É como se constatássemos que deixamos de crescer e começamos a envelhecer. Na contabilidade da vida temos um amontoado de sonhos frustrados e desejos não consumados, principalmente de que não fomos, e provavelmente não seremos jamais, tão grandiosos e notáveis assim. Aquela antiga máxima beatnik “viva intensamente e morra jovem” não pode ser mais afirmada, afinal na meia idade podemos morrer de qualquer maneira, menos jovens, pois já não somos.

Particularmente gosto do termo criado por Oldham ao se referir a esse momento de vida: terceira individuação. Como diz Joan Raphael-Left (in “Compêndio de Psicoterapia de Oxford”) na meia idade começa nos faltar a proteção parental entre o nosso self e o túmulo, isto é, ou nossos pais e tios estão já bastantes velhos e frágeis ou nossa geração será a próxima a morrer.

Mas, ainda temos tempo de vida, ainda temos um tempo a ser vivido. O que fazer com ele? Como aproveitá-lo ao máximo? Como realizar ainda alguns sonhos frustrados e como melhor se auto-realizar? O sentido do self e da vida mudam.

E é exatamente sobre esta etapa da vida e suas mudanças, assim como seus efeitos, que a Revista Psique (Ciência & Vida) nos traz uma boa matéria de capa sobre o assunto, enfocando a meia-idade masculina. Sugerimos aos transeuntes aqui do HUMANASBLOG sua leitura e reflexão sobre o tema, acessando o link: cabeca-masculina-a-crise-da-meia-idade-leva-a-nao-aceitacao-144015-1.asp.

Sobre o tema acima mencionado, estaremos em breve abrindo novas janelas discussivas sobre o mesmo. Até mais…

ENSAIO

Posted in Família e Desenvolvimento Humano por Joaquim Cesário de Mello em maio 17, 2009
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MUITO ALÉM DO COMPLEXO DE ÉDIPO:

O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE E DA PESSOA ALÉM DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

 Parte 1

                           Não deixa de ser no mínimo intrigante ou curioso que no universo das produções bibliográficas no campo da psicologia se encontre tantos livros, textos, pesquisas e estudos a respeito do psiquismo infantil, do jovem e até mesmo sobre a velhice e senescência, e pouco, muito pouco (comparativamente falando) sobre o psiquismo ser humano adulto e  a dinâmica de seu funcionamento. Embora não seja de hoje que se destaque que o desenvolvimento psicológico e as mudanças evolutivas continuem após e além dos limites da meninice e da adolescência, são raros e escassos, por exemplo, publicações voltadas ao desenvolvimento da personalidade do ser humano adulto em termos mais específicos, mesmo se sabendo que a vida adulta ocupa a maior parte da existência humana.

                        Evidente que a infância é a fase da vida onde muito se modela o homem que a criança será amanhã, porém, após o chamado período de molde, a mente humana e a pessoa prosseguem se transformando a cada instante e enfrentamento da existência. Se a infância metaforicamente representa os alicerces da construção de um ser humano, chegar ao momento adulto da vida não significa, por sua vez, estar-se a edificação pronta e acabada. Não somos necessariamente prisioneiros do passado. Do ontem somos seus herdeiros. O passado nos supriu, nos capacitou e nos modelou, é verdade, porém ainda continuamos no presente e este, assim como as expectativas com o futuro, também nos influencia e nos provoca modificações e adaptações. Mudanças prosseguem durante toda a idade adulta e na velhice, isto é, da concepção até a morte.

                        O adulto não é somente um remanescente da infância. As mudanças processadas na vida adulta têm um sentido evolutivo ao orientar para transformações dentro do sujeito e ao seu próprio crescimento. Segundo Fiske (1981) as emoções que nos acompanham desde as experiências pregressas não são esquecíveis ou esquecidas, mas integram nosso eu. O amadurecer do psiquismo no ser humano adulto passa pelo reconhecer-se responsável por sua própria pessoa e por sua vida, em vez de culpar os outros, o passado ou o destino.

                        Dentro da concepção da psicologia evolutiva a idade é uma variável vazia, isto é, o tempo por si só é insuficiente para compreender os processos do desenvolvimento do psiquismo. Como afirma Palacios (2004), a idade é um valor descritivo, visto estar a ela associada uma gama de circunstâncias e mudanças, contudo, “as relações entre idade e conduta são de natureza correlacional, não do tipo causal: no processo do desenvolvimento psicológico existem determinadas mudanças que são mais características de umas idades que de outras, mas isso não significa que seja a idade a que produz, por si mesma, as mudanças” (págs. 371/372, op. cit.).

                        Entre diferentes maneiras e significados com os quais podemos falar de idade, além das chamadas cronológicas e biológicas, temos as idades psicológica, funcional e social. A idade psicológica é aquela que se relaciona com a capacidade de adaptação e ajustamento de uma pessoa frente às demandas e os desafios do ambiente e da vida cotidiana. A idade funcional faz menção a capacidade de autonomia e independência, e a idade social refere às expectativas sociais associadas  a determinadas idades cronológicas e aos papéis a elas relacionados.

                        É provável que o colorido da infância e da adolescência e suas transformações e crescimentos acelerados, bem como as marcas indeléveis que tais etapas desenvolvimentais deixam na alma humana, tenham contribuído sobremaneira para secundarizarmos a importância também da psicologia do homem adulto. A relevância dos primeiros anos e experiências é inequívoca, afinal dos anos primevos adquire-se sentimentos de bem-estar interior, auto-confiança e auto-controle. Mas os outros anos, todos os anos, merecem atenção. É no adultecer que melhor se desenvolve a mutualidade, o compartilhamento de sentimentos, a capacidade de se entregar ao trabalho e aos relacionamentos íntimos, o contentamento com o self.

                        É comum descrever as primeiras duas décadas da vida como uma espécie de subida evolutiva. Já os anos adultos são vistos como um platô (estabilidade) e a velhice como descida e declínio. É fato que a maturidade biológica é alcançada entre os 24 e 30 anos, aproximadamente, e o que vem depois é um gradual processo de envelhecimento, afinal todos somos programados geneticamente a envelhecer e a morrer. Todavia não custa nada enfatizar o óbvio: a pessoa humana habita um corpo, mas não se confunde com corpo, pois a psique é algo que vem e vai além do organismo, embora seja neste mesmo corpo que toda sua história se desenrola.

                        Do ponto de vista psicológico Erikson (2000) foi um dos primeiros a apontar para as mudanças psíquicas que continuam ocorrendo mesmo após o atingimento da maturidade biológica. O modelo eriksoniano propõe entender o desenvolvimento humano em termos psicossociais. Passada a adolescência, diz Erikson, se vê o ser humano frente a desafios de estabelecer relações de intimidade profunda além da família de origem, constituir nova família, contribuir com gerações seguintes, agir, comprometer-se e dar sentido a sua vida. Erikson, assim como Freud e tantos outros, não abdica da idéia de que problemas da vida adulta sejam conseqüência em grande parte de conflitos não satisfatoriamente superados ou resolvidos da infância. Entretanto, a visão de Erikson difere quando ele enfatiza a relação da pessoa em desenvolvimento com seu entorno e ambiente social.

                        Desenvolver-se é diferenciar-se, individualizar-se. Evidente que ao longo de todo um ciclo de vida a pessoa que habita um corpo e que vive em espaços físicos e socio-culturais não permaneça invariável ou imutável, embora em termos de noção de si se saiba ser o mesmo. Os eventos inevitáveis da vida, conjugado aos acidentais, afetam e contribuem para continuar formando o sujeito de cada um. As idiosincracias e diversidade interindividual vão ficando mais nítidas quando se chega a idade adulta, principalmente pelo acumular das experiências e vivências. A psicologia do adulto é marcada por tal heterogeneidade, isto é, quanto mais amadurecido psicologicamente se é um sujeito, mais responsável se é pelo que se é. O comportamento de cada um esboça o seu próprio evoluir pessoal.

                        Diferentes momentos da vida não podem ser apenas coadjuvantes ou fundos de uma personalidade pretensamente já formada e impassível às transformações. Se a criança é o pai do homem, como já disseram, isso não significa que o secundo não tenham em relação a si mesmo e aos seus instantes suas conseqüências. Comenta Fierro (2004), “a personalidade não é alheia, portanto, a seu próprio desenvolvimento; ela não tanto nasce quanto se faz, se aprende e se desenvolve” (pág. 407).

                        São tantas as mudanças ao longo da idade adulta. Porém, quando exatamente começa o adulto? Não se tem a puberdade a nos limitar a infância da adolescência. Difícil precisar. Até mesmo sabemos que o organismo pode atingir seu ápice matural, mas emocional e afetivamente ainda se estar adolescente. Se já não se é mais o corpo com precisão a nos delimitar a transição entre o adolescente e o adulto, talvez encontremos tal resposta no social. A puberdade (púbis = pelos) é corpórea, já a adolescência (ad loscere = rumo ao crescimento) é psicossocial. Neste âmbito, a morfologia do adulto tem como cenário e paisagem o mundo social e as relações do indivíduo com o mesmo e suas exigências. Podemos, assim, falar de relógio social.

                        Dentro de uma perspectiva psicossocial e encarando pelo ângulo da cultura ocidental, embora seja minimamente perceptível e mais dilatado temporalmente, a entrada na vida adulta encontra parâmetros nas exigências sociais. Certa vez disse Freud, quando indagado sobre o término do processo psicanalítico, que a terapia terminaria quando o cliente estivesse satisfatoriamente capacitado para o amor e o trabalho. Realmente, quando crianças podemos brincar de “papai e mamãe” e de sermos astronautas ou médicos, contudo somente adultos é que tais anseios podem se efetivar, isto é, casarmos ou nos acasalar e sermos de fato astronautas ou médicos.

                        São complexas as circunstâncias que marcam o fim da adolescência e o início do adulto. Entre elas a atividade ocupacional e o trabalho remunerado, a identidade profissional, a autonomia econômico-financeira, um melhor autocontrole sobre as emoções, maior independência emocional em relação à família de origem, o estar com o outro no sentido de casal com atitudes e vontades de permanência, formar nova família, tornar-se pai ou mãe, saber usar o tempo livre e o ócio com prazer e discernimento, brincar e ser ao mesmo tempo responsável. No tocante ao brincar lembremos que o adulto não é o oposto da criança, como se a infância fosse a época do lúdico e do prazer e o adulto fosse algo a ser circunspeto e sério, quase como uma antítese do prazer. Ao contrário, o adulto é a continuidade da criança.

                        Intimidade, trabalho e liberdade (somos responsáveis pela nossa liberdade) eis os principais marcos e demandas da idade adulta. Tais demandas, internas e externas, ao sujeito se transformam em desafios. O enfrentamento de tais desafios são o que se convencionou chamar de tarefas do desenvolvimento. De uma pessoa adulta, não em termos estritamente cronológicos, mas no sentido psicológico, espera-se encontrar visibilidade enquanto extroversão, assertividade, socialização, controle e modulação emocional, criticidade, flexibilidade, capacitação em cambiar afetos e auto-realização.

                        Seríamos míopes ou ingênuos se considerássemos os anos adultos como consolidadamente estáveis. Ao lado de Erickson outros pesquisadores e estudiosos do tema como Levison percebem que a cada nova etapa de vida vivenciamos o eterno conflito entre permanência e transformação. Levison (apud Coll, Marchesi e Palacios, 2004) entende que as transições e crises adultas não são nada leves ou breves. Para ele a vida adulta subdivide-se em três períodos distintos: idade adulta precoce, intermediária e tardia. Na idade adulta precoce (que vai até à meia-idade, aproximadamente 40/45 anos) há o dispêndio de grande energia e atividade, período de vida este permeado de satisfações, contradições e tensões. Chegada a idade adulta intermediária (até + 60/65 anos) essas tensões tendem a amenizar, tornando-se assim a pessoa mais reflexiva e autocentrada. Já a idade adulta tardia (velhice), para Levison, o que se verifica é um acentuamento das diferenciações (menos traços comuns) entre as pessoas. 

                        Embora seja um tanto duvidosa e questionável a precisão cronológica das fases e transições, afinal cada um tem seu ritmo próprio, os modelos de estágio são importantes para se perceber que durante a vida se enfrenta crises e nesses enfrentamentos e superações desenvolve-se toda uma personalidade seja o indivíduo menino, jovem adulto ou velho. Quem melhor expões isto é Fierro (2004) quando afirma que as crises não estão sujeitas a um calendário rígido e fixo, mas sim provocadas pelo curso biográfico de cada pessoa, conjugadas aos fatores biológicos (como uma doença grave ou acidente mutilador ou que provoque invalidez, por exemplo) e sociais (como quando se torna progenitor, casa-se, divorcia-se, muda-se de trabalho e residência, etc).

                        Não entremos aqui no mérito de se discutir o que é uma “boa vida” ou uma “vida desejável”. O tema da maturidade, é verdade, implica refletir como os seres humanos adultos são e vivem, bem como poderiam ser e viver. O significado do existir humano de cada um é determinado pelo curso de suas vidas, seus atos, escolhas, atitudes, condutas, realizações e frustrações, assim como por suas circunstâncias.

                        Através de uma visão humanista concebe-se a personalidade não como um estado, mas um processo. O transforma-se em pessoa é tarefa de uma vida inteira. É brilhante o ensinamento do filósofo e escritor Albert Camus para quem todo homem, a partir de certo instante, é responsável por seu rosto. Ou como diz Fierro (2004) a tarefa moral e psicológica do desenvolvimento é a de se tornar não somente mais velho, mas também mais humano e pleno. Concordamos com ele ao entender que a infância e a adolescência são etapas de aprendizados básicos e fundamentais. O aprender a viver é um processo longo e infindável, ou findável ao término da existência de cada um.

                        Acreditamos que para o leitor que até aqui chegou ficou claro nosso posicionamento e constatação: a idade adulta não é uma idade de imobilidade psicológica. A mente humana é sempre mutável e plástica em constante luta em conjugar segurança e satisfação. O processo de socialização prossegue ao longo do tempo. Quanto mais velhos vamos ficando, ou melhor, quanto mais percebemos nosso envelhecer e finitude, mais parece que nos obrigamos ser mais fiéis com nós mesmos, isto é, buscamos maior coerência entre nossa internalidade e externalidade. Acaso a infidelidade permaneça, quando abrimos mão da satisfação pelo excesso de segurança obtido pelo ser sempre “bom menino” ou “boa menina”, escond0-se por detrás de máscaras sociais, interpretando personagens (falso self) e não sendo o próprio protagonista, mais estagnados e isolados ficamos.

                        Adultecer não leva o indivíduo a um ponto final, mas é um contínuo processo, um verbo que se conjuga no gerúndio. Psicossocialmente falando adultecer aproxima mais o sujeito da família (em seu sentido estrito e amplo), ampliando seus espaços de troca e intimidade (mutualidade). Ser pai ou mãe, por exemplo, não significa de seu corpo gerar filhos. A progenitura é quando deixamos um tanto de lado a eterna necessidade de sermos cuidados e assumimos nós mesmos o papel e a função de sermos cuidadores de alguém (seja de uma nova geração, do companheito(a), dos pais velhos, etc.)

                   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

ERIKSON, Eric, O ciclo de vida completo, Porto Alegre, Artmed, 2000.

 FIERRO, Alfredo, O Desenvolvimento da Personalidade na Idade Adulta e na Velhice, (orgs.) 2.ed., Porto Alegre, Artmed, 2004 

FISKE, Marjorie, Meia-Idade: a melhor época da vida, São Paulo, Harbra, 1981

 PALACIOS, Jesús,  Mudança e Desenvolvimento  Durante a Idade Adulta e a  Velhice, (orgs.) 2.ed., Porto Alegre, Artmed, 2004.

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PS: em breve postaremos a parte 2 do presente ensaio