HumanasBlog


POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em setembro 9, 2009

Quando ouvimos falar em poesia portuiguesa dois nomes vêm de imediato a nossa mente: Fernando Pessoa e Luís de Camões – a tal ponto, como certa vez escreveu Miguel Sanches Neto, que a poesia portuguesa moderna estava “limitada ao norte por Álvaro de Campos, ao sul por Ricardo Reis, a leste por Alberto Caeiro e a oeste por Fernando Pessoa”.

Evidente que a poesia portuguesa não se restringe aos dois grandes poetas acima citados. Evidente que há igualmente nomes como os de Cesário Verde, Cruz e Silva, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, entre outros. Todavia, aqui e agora no HUMANASBLOG, vamos dedicar um pequeno espaço a poesia contemporânea de Portugal. São novos nomes como Luís Veiga Leitão, Maria Teresa Horta, Miguel Torga, Glória Cavalcanti, José Pacheco Pereira, Luíza Neto Jorge, Eugênio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Antônio Maria de Lisboa, Jorge de Sena…

Para o eventual transeunte um pouco da poesia portuguesa atual:

EUGÊNIO DE ANDRADE

CANÇÃO
Hoje venho dizer-te que nevou 
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

MIGUEL TORGA

SÚPLICA
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

NATÁLIA CORREIA

 O POEMA

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

ANTÔNIO OSÓRIO

AMO OS TEUS DEFEITOS

Amo os teus defeitos, e tantos
eram, as tuas faltas para comigo
e as minhas; essa ênfase
de rechaçar por timidez; solidão
de fazer trepadeiras, agasalhos
para velhos, depois para netos;
indulgência de plantar e ver
o crescimento da oliveira do paraíso,
carregada de flores persistentemente
caducas; essa autoridade, irremediável
desafio; e a astúcia
de termos ambos quase a mesma cara.

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A POESIA DE MARIO BENEDETTI

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em agosto 8, 2009
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Antes de falarmos um pouco sobre o poeta Mario Benedetti, iniciemos com este belo exemplar da mais pura poesia, singela e profunda, porém sem barroquismos ou eruditismo exicibicionista. Assim, antes do poeta, seu poema:

AMOR DE TARDE


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Mario Benedetti, poeta e escritor uruguaio, recém falecido em 17/05/2009, foi uma das mais expressivas e importantes vozes da literatura uruguaia e latino-americana. O conjunto de sua obra é amplo e denso, e vai desde a poesia, o conto e o romance, passando pelo ensaio e até por roteiros de cinema. Foram dezenas de livros publicados, entre eles “Poemas de Oficina”, “Esta Manhã e Outros Contos” e “Gracias Por el Fuego”.

Como bem diz José Saramago, Mario Benedetti foi um poeta que “soube fazer-nos viver os nossos momentos mais íntimos e nossas raivas menos ocultas”, afinal é através da poesia que podemos melhor adentrar as interioridades da alma humana, a nossa alma humana. E Mario Benedettti é como uma espécie de guia a nos guiar na imensidão abissal das profundezas do ser e do seu existir. A sutileza com que o poeta lida e maneja com as palavras e o criar atmosférico de suas imagens faz dele um poeta de referência para todos aqueles que apreciam não somente a literatura como um todo, mas principalmente para todos aqueles que se interessam pela subjetividade dos mínimos gestos e de suas ausências. Com vocês outros poemas de Benedetti e a leveza de seus versos que, embora nos invadam suaves à alma nos oferecem e nos tocam lá dentro naquilo que convencionamos chamar de “angústia existencial”.

ROSTO DE TI

Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.

Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor.

Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti.

Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição

Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti.

Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada.

As paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada.

Já meu rosto de ti
fecha os olhos.

E é uma solidão
tão desolada.

ONTEM

Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.

Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.

Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza

Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.

POESIA CHILENA

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em julho 21, 2009

Quando paramos para pensar sobre a literatura e a poesia chilena um nome vem de imediato e inteiro a nossa mente: Pablo Neruda (Nobel de Literatura em 1971). Sim, Pablo Neruda é sem sombra de dúvida a voz mais expressiva da literatura chilena (ao lado de Gabriela Mistral, Nobel em 1945), um dos maiores nomes da poesia castelhana, autor de obras como “Canto general”, “Tentativas del hombre infinito”, “Confieso que he vivido”, “Cien sonestos de amor”, entre outros. Contudo, entretanto e todavia a poesia chilena não pode e não deve ficar como que resumida a tão somente um nome, mesmo que este nome seja da importância e do quilate de Neruda. Há na literatura chilena escritores como Joaquín Belo, Roberto Bolaño, José Donoso, Ramón Díaz Eterovic, Gabriela Mistral, Luis Sepúlveda, Roberto Ampuero, Pedro Prado, Isabel Allende, Augusto d´Halmar entre vários. Vamos, pois, aqui e agora nos dedicar um pouco à poesia que vem lá daquele nosso país-irmão banhado pelo Oceano Pacífico e que muito me lembra vinho, principalmente os de uva carménère.

GABRIELA MISTRAL


SONETOS DA MORTE

(Soneto I)

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
Abaixar-te-ei à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitar-te-ei na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido,

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastar-me-ei cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!

Bororo

Bororo

GERMAN GANA MUÑOZ

meu guarda-chuva traz uma imensidão de estrelas
que se abrem e desaparecem
depois das nuvens
no céu
um aquecedor de escalopes está na praia observando
os meninos escapam com areia colada nas costas
procurando novas razões para voar
um sem fim de cores e o vermelho que não termina nunca
que se converte numa corrente maníaco-depressiva
começando pelos braços
produzindo um som ligeiro
que recorda o vazio
das articulações
entre os corpos
as uniões
as proximidades
a menina brilhante desenha carinhas felizes
sobre as balas que encontra
nas gavetas de seu pai
só existem balas

VIOLETA PARRA

GRACIAS A LA VIDA

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.
Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado
Obrigada à vida…

JULIO BARRENECHEA


DIÁRIO MORRER

Não sou eu quem vive,
é o mundo que vive em meus olhos.

Juan Corvalán

Juan Corvalán

As cores, o ruído
no atento ouvido.
A suave pele de mármore
Vive no tacto fino.
No úmido paladar moram os sabores,
e no olfato
a alma das flores.

Eu não vivo, apenas capto a vida.
Sou o pobre recinto
onde a luz passageira
asila sua vida permanente.

Sou o parente que sofre pelas coisas mortais.
Assisto ao funeral de cada mariposa,
e sinto que perco algo, ao morrer cada rosa.

Se eu pudesse ir-me só, se eu pudesse
ir-me sem tudo o que vai comigo.
Vendo a juventude não envelheceria.
Vejo que envelheço em meus amigos.

Ó! profundidade cinza! Ó! distância!
Bruma dos espelhos embaçados.
Como se vão secando as pupilas!
Como se vão os rostos afastando!

Ah! quem pudera deter os rostos.
que não continuem fundindo-se no ar,
que não caiam ao fundo dos olhos,
que sigam na luz, que não naufraguem.

Se eu pudesse ir-me só, se pudesse
ir-me sem tudo o que vai comigo.
Se o meu morrer fosse só uma sombra
que sozinha se consome no incendiado.

Se enquanto vou morrendo, entre as coisas
tudo fosse ficando intacto e vivo.
Se o manancial secreto do meu pranto
Em grades de cristal fosse vertido,
ante o recinto de cor e de canto.
Se eu apenas pensasse em meu passado,
não morreria tanto como eu morro,
porque não morro em mim, mas no amado.

HUMBERTO DÍAZ CASANUEVA


O PENTINENCIAIS

Estes são os restos que me
devolve
o sonho
falta-me uma veia
falta-me uma mão
para espremer um pássaro

Uma asa de pedra grudada
à minha alma
para empunhar minha morte

Saúdo ao sol que me arremessa
como fumaça

Sol
Temos que condescender
Temos que arder às
escuras

Dar-te-ei uma Grande Pálpebra
Dar-me-ás meus olhos brancos
Meu raio que toma meu
peso

Vou inclinado nas
águas
vou vestido de minha pele
vou
e ao ponto de chegar que
sucede?
Quem corta a minha desmemoriada
mão?

Com animais mortos nos
ombros
percorri a solidão
terrena
Vi cinzas
paradas
A terra apenas terra é
lua
A lua é um peito cortado
da terra

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Veja mais poesia chilena acessando: chile.html

POEMAS ARGENTINOS

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em julho 7, 2009
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Nem só vive a literatura argentina, e mais precisamente a poesia argentina, de Jorge Luis Borges ou Julio Cortázar. Nossos “hermanos” têm uma forte formação literária e sua poesia é envolvente e cativante. Vamos agora dedicar um pequeno espaço (mais adiante, quem sabe, haverá outros) à poesia argentina. E assim começaremos com o poeta Juan Gelman.

Gelman é considerado não somente um dos grandes poetas argentinos, mas também um dos principais nomes vivos da poesia de língua espanhola. A vida do poeta foi marcada por momentos trágicos vividos na época da ditadura militar nos sangrentos anos 70, quando tanto seu filho quanto sua nora foram sequestrados. Somente em 1989 Gelman pode encontrar os restos mortais de seu filho (os restos mortais de sua nora ainda não foram localizados), bem como pode conhecer sua neta (nascida no cárcere) quando esta já tinha mais de 20 anos de idade. O poema que transcrevemos abaixo (parte do livro Isso) foi escrito no período em que o poeta se encontrava exilado (1983/84), no qual podemos sentir, mesmo que de longe, a angústia e a dor que vivenciava o autor então. Com vocês, Gelman, um poeta várias vezes premiado com inúmeros prêmios de relevo internacional, tais como “Prémio Ibero-Americano de Poesia Pablo Neruda”, “Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana” e o “Prémio Miguel de Cervantes 2007”, entre outros.

CHUVA

hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra/
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta se entra em muitos lugares/
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/nem na alma/
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/que chove muito/
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e somente a alma sabe onde os dois se encontram/
e quando/e como/
mas o que pode a alma explicar?/
por isso meu vizinho tem tormentas na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem
e morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/
à chuva/
ao meu coração desterrado/

(Juan Gelman)

Outra poeta de relevo é Alejandra Pizardik, filha de imigrantes russos, nascida em Buenos Aires em 1936. Poeta notívaga, tem a noite como seu tema central e seu pano de fundo poético, assim como a solidão. Depressiva, suicidou-se em ainda jovem aos 36 anos de idade. Julio Cortázar dedica-lhe um belo e longo poema que sugiro o leitor conhecê-lo (acesse: ttp://www.geocities.com/juliocortazar_arg/alejandra.htm). Vamos ler, pois, Alejandra:

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A JAULA

Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.

( Alejandra Pizarnik)

____________________

Outros poetas:

RARO UNIVERSO ONDE
um poema reescreve em
seu homem
apenas uma letra
antes de morrer

( Jorge Ariel Madrazo)

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EFEITO DAS TARDES

É mentira que andas caminhando pelo mundo

porque depois de haver-te bebido

em grandes tragos

te comi em pedacinhos

O que resta de ti movendo-se nas ruas

em realidade é uma sombra

tão somente um holograma.

(Horacio Salas)

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Jorge Luis Borges e Julio Cortazar, perdoem-me, mas fica pra outro futuro e breve post.

Vejam (leiam) mais em: http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/argentina/anrgentina.html

POESIA AFRICANA

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em junho 23, 2009

A África é um continente que tem seus mistérios e suas seduções, bem como faz parte do nosso imaginário ocidental como uma região de aventuras e de pura a mais pura natureza. Porém a África também é um continente de guerras tribais e fraticidas, e até mesmo de antigos e recentes genocídios.

Ver imagem em tamanho grandeA África não sabemos o que realmente é, mas que muito nos significa. E é desse outro universo que nos parece tão mais distante que os milhares de kilômetros que nos separam, inaugurarei com poesia africana o espaço aqui reservado às várias e diversas literaturas do mundo, além do meu. Abaixo um rápido apanhado de alguns poemas da África de língua portuguesa (a Lusoáfrica) que é constituída dos seguintes países: Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

A CIDADE À NOITE

A festa dos reclamos luminosos
é minha.
Não gosto de coisas reais.
Todas as ilusões
me pertencem.
Sou milionário universal
da fantasia.
Gosto de passar pelas montras
e sonhar... 

Sonhar sonhando,
sem cobiça,
sem pólvora, sem sangue,
sem ódio,
sem ferir o mundo.

Jorge Macedo/Angola

POESIA AFRICANA
 
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
Agostinho Neto/Angola

NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos
lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

Sebastião Alda/Moçambique

Lá no “Água Grande” a caminho da roça negritas batem que batem co’a roupa na pedra. Batem e cantam modinhas da terra. Cantam e riem em riso de mofa histórias contadas, arrastadas pelo vento. Riem alto de rijo, com a roupa na pedra e põem de branco a roupa lavada. As crianças brincam e a água canta. Brincam na água felizes… Velam no capim um negrito pequenino. E os gemidos cantados das negritas lá do rio ficam mudos lá na hora do regresso… Jazem quedos no regresso para a roça.

Alda Espírito Santo/São Tomé e Príncipe

A MINHA DOR

Dói

a mesmíssima angústia nas almas

dos nossos corpos perto e à distância.

E o preto que gritou é a dor que se não vendeu 
nem na hora do sol perdido nos muros da cadeia. 
                     Noemia de Sousa/Moçambique
Conheça mais, clique: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/poesia_africana.html