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POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em outubro 1, 2009

 

 

 

Temos, porque não dizer, a honra, o orgulho e a satisfação de poder divulgar em primeira mão o poema abaixo do poeta, professor universitário e amigo Alexandre Furtado, que consta em livro que ora se encontra no prelo para breve lançamento, quiçá ainda este ano.

Alexandre Furtado, é doutor em Teoria da Literatura (UFPE) e atualmente leciona tanto na FACHO (PE) quanto na FAFIRE onde lá coordena o “Café Cultural” da instituição. Seu poema abaixo é mostra de um talento desenvolvido não necessariamente nos estudos e meandros da literatura, mas por uma verve que lhe parece inata e melhor construída no caminhar da vida e da contemplação crítica da mesma. Texto de caráter evocativo, parece-nos recordar o caminhar do dia e da cidade que teima ainda existir, mesmo que por debaixo dos passos apressados que nos impõe a pós-modernidade. Poeta sensível e agudo, Alexandre Furtado desnuda-nos a beleza quase invisível existente ao nosso redor, muito além do que apenas das nossas memórias ancestrais e lembranças da meninice hoje distante ao mesmo tempo que tão presente, como que grudadas em nossas faces fingidas de adulto. O lirismo poético de Alexandre não é ficcional, todavia narrativo e evocativo (repito), cuja estética esboça tanto um grande conhecedor do manejo formal da arte de escrever quanto um poeta que se engravidou por tempos de si e que agora se permite nos oferecer seus frutos, feito árvore madura curtida pelo sol e pela chuva dos dias anteriores.

Observe o aqui leitor que há no ondular dos movimentos, ruídos e silêncios dos versos abaixo, um quê suave e meigo de edípico, cuja ousadia e sinceridade só se faz por quem, assim como ele, tem profundo conhecimento de si e de seus sentimentos que então se revelam aos nossos olhos passageiros quase como se fossem fraturas afetivas expostas. Alexandre Furtado, que tão bem trabalha no seu cotidiano com o universo da linguagem verbal e escrita, é igualmente tão bom poeta lapidado que chega-nos a indagar por que demorou tanto a se parir? Mas, como disse certa vez um tio meu também poeta, Edson Régis, não há de se ter “a pressa que aniquila o verso”. E, assim, sem pressa ou assombros, eis aqui um poeta que já nasceu maturado e maduro, senhor de suas emoções e guardião de um passado que ainda respira pulsante não somente em nossas saudosas recordações, porém principalmente no emoldurar de nosso dia-a-dia, à mostra de quem quiser vê-lo, respirá-lo ou senti-lo.

Obrigado Alexandre, tanto pelo poema quanto pela amizade, bem como pelo poeta que mantém a tradição pernambucana da poesia de qualidade e consistência, sabedores que somos de nossa herança que com você e outros se preserva e se eterniza.

Com vocês o poeta e seu poema:

A Glória de meu pai

 

 

A glória era meu pai
cortando a rua com seu carro,
eu do lado, parceiros
em perfeito eixo

A Glória com casas
caindo, guarda
dias perfeitos, um eixo
urbano de coração
e linhas finas

As Glórias são no singular
trajeto, reunindo tempos diversos
a criança e o adulto
eixos de mim
agora atento

Havia de certo um medo delas duas
uma superação enorme em ambas
em nome do Pai e do filho
que se amam
à distância

Mas se reúnem na lembrança
quando o carro cortava preguiçoso
a manhã naquela rua imensa
uma Glória indízível,
melhor sintonia?
Impossível!

Alexandre Furtado

“CAMINHANTE, NÃO HÁ CAMINHO…”

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em setembro 26, 2009

 

Há muito fui seduzido pelos seguintes versos do poeta espanhol Antônio Machado: “Caminhante, não há caminho/o caminho se faz no caminhar”.
É bem verdade que o verso integralmente não é exatamente como recorda minha memória, visto que em língua espanhola o verso assim se escreve: “Caminante, no hay camino/se hace camino al andar”.
O poeta Antônio Machado (1875-1939) é um dos mais expressivos e significativos poetas modernos da poesia de língua espanhola e em seus versos encontramos fortes evocações de caráter filosófico existêncial. Antônio Machado talvez seja o poeta mais lido da chamada “Geração de 98” da poesia espanhola.
Do poema cujos versos me acompanham desde o primeiro instante que os li reproduzo-o agora logo abaixo. Caso queiram conhecer mais sobre o poeta Antônio Machado, sugerimos leitura do site: 1dteles3c.html

“Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.”

POESIA: SAFRA 80

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em setembro 10, 2009

APENAS ÀS SEXTAS FEIRAS

O mundo ainda pulsa próximo
diante da janela
e eu já desnudado dos outros
e dos óculos
me liquefaço em poesia e silêncio
na quietude morna dos móveis.

Estou só
(ou quase só)
um tanto nostálgico de útero
e não há sequer o amor agitado das formigas
a me perturbar o sono
nem os mortos a me circular as veias.

Há apenas o frágil e ocioso adejar
da mais recente mariposa
que me olha com medo ou desejo
enquanto a noite passa
como um seio em minha mão.

Joaquim Cesário de Mello

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 23, 2009
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POR DETRÁS DOS VIDROS


Penso-me protegido
por detrás das vidraças de minhas janelas
aqui onde ventos não me assanham cabelos
nem o frio das ruas me arrepiam a pele.

Como se nada me atingisse
vou-me iludindo de infinitudes
e são tantos e tantos os intermináveis dias
que haverei um dia ou de romper
os limites quebradiços dos meus espelhos
ou sucumbir sufocado de infância e eternidade.

Engordo-me em armaduras de cristal
sem saciar nenhuma fome ou sede
e enorme vou ficando de tão cheio
das imensidões das lembranças inapagáveis.

Como quisera por um breve instante
passageiro e repentino até
poder deixar de ser eu e minhas inquietudes
e respirar sem o abafado cansante das interioridades.

Gostaria assim liberto de mim
dissolver-me líquido e lento
como esta furtiva lágrima
que me escorre a face e ninguém vê
nem mesmo a mulher que me dorme ao lado.

Joaquim Cesário de Mello

MATISSE E CHAGALL

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 18, 2009

 

 

Simplesmente imperdível, para quem gosta, aprecia, se interessa ou quer conhecer um pouco mais sobre arte, a reportagem publicada na revista Bravo deste mês sobre Matisse e Chagall, cujo título é bastante sugestivo: “Revolucionários do Olhar”. Não deixem de ler também, na página do próprio site abaixo indicado, “Marc Chagall: O Mastigador de Vanguardas” e “Explosão Planejada: sobre Henri Matisse.

É a revista Bravo quem merece o nosso “bravo”!

Acesse: revolucionarios-olhar-488612.shtml

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 15, 2009
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POEMA PARA UMA MULHER

Aproximo-me dos teus futuros anos
com sonhos de pai consumado
e lá adiante naquele instante
em que hoje for antigamente
não haverei jamais de esquecer
das tuas agora recentes queixas
no demandar dos gestos e afetos
que involuntariamente te soneguei.

Não é porque te encolho o abraço
que já não te abraçe tanto assim
pois embora haja a distância das mãos
são meus olhos que te tocam
diariamente
toda vez que te vejo ali
crescida, miúda e bela
onde meus desejos se transformaram
simplesmente em ti.

Quando eu tiver então a tua idade
te amarei com mais jovialidade do que agora,
filha.

Feliz aniversário
Feliz 25 anos de vida
14/08/2009

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 14, 2009
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Este poema abaixo, lírico e singelo, como singela e lírica pode ser a alma humana, é da poeta (ou poetisa, como diriam os mais antigos) Tereza Reis, que é também uma agradável amiga e companheira do dia-a-dia quase absurdo do cotidiano desumanizado ou desumanizante em que eu e ela e os demais nos encontramos de segunda à sexta, diariamente. Tereza é uma mulher aparentemente acanhada e tímida, mas que nos revela sua outra face, mais escondida e contida por detrás da máscara que ela edificou pra si, talvez – quem sabe?- para se proteger do mundo hostil e perigoso que muitas vezes parece nos ameaçar e tolher.

Espero, sinceramente, Tereza, que você possa nos presentear mais com sua verve e talento, e com esta Tereza que só os seus mais próximos e queridos podem ter a oportunidade de conhecer melhor, mas que você nos revela um pouco aqui em seus versos.

Com vocês a poesia de Tereza Reis e o início de uma poeta ao mundo:

 

 

“Quero de volta o amor que nunca tive…
A acolhedora cumplicidade que transforma cada simples olhar
Numa troca muda de palavras,
                                   Ou num doce acariciar.
Quero de volta a primavera em pleno outono,
Onde o cair de folhas significam o nascer de flores perfumadas.
Quero o arco-íris rasgando o meu céu em plena noite estrelada
                                    E a lua encontrando-se com o sol ao raiar do dia.
Quero ouvir pássaros cantando maviosos entre os mais altos galhos das árvores
                                   Que sombreiam o bosque.
Quero ser a queda d’água…
Altiva…
Imperiosa…
A aniquilar-se nas pedras para então, placidamente,
Ser o leito de um rio.
Quero no coração a chama da esperança;
Nos lábios, o riso frouxo de criança,
Nos olhos, o brilho da paz do universo.
Quero de volta o amor que nunca tive…
                                   Para transformar versos tristes numa leve poesia.”

Tereza Reis

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009
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DORMEZ-VOUS…

 

Quando eu estiver velho
velho de não mais voltar
quero ouvir a voz de minha mãe
cantando cantigas em francês
cantigas pra mim ninar.

Quando meus retratos
forem mais desusados do que eu
e de minhas mãos murchadas
não mais brotarem versos como estes
quero o rosto de minha mãe
a me olhar cuidante
no infinito velar do sono final.

Quando nada mais restar
amigos, mulher nem filhos
quero a maciez do colo de minha mãe
na paisagem distante de uma praia deserta
sossegada, serena e calma
ali por onde o tempo não passa
e lá onde vou então poder de vez
virar areia.

Quando estiver velho
velho mas velho mesmo
quero de novo minha mãe
cantando cantigas em francês
cantigas pra mim ninar.

Joaquim Cesário de Mello

POESIA: SAFRA 80

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009
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Egon Schiele

Recentemente, a respeito do HUMANASBLOG, a amiga Talita Creder comenta quase indagando-me que não sabia que eu escrevia poesia. Respondi-lhe acanhadamente que eu era poeta no início dos anos 80 (ainda senti em mim resquícios de uma severa autocrítica mutiladora que sempre me acompanhou nessas horas de me reconhecer poeta. Talvez tenha a ver com meu pai, poeta e escritor falecido quando eu tinha tão somente 10 anos de idade). Pois é, lá estava eu como que lutando comigo mesmo quando me intitulava timidamente de poeta. Esta mesma censura superegóica foi naquele tempo (nos idos dos anos 80) detectada pelo jornalista, escritor e crítico de arte Paulo Azevedo Chaves (por onde andará Paulo?) quando escreveu ele: “Joaquim Cesário de Mello é um poeta de talento, mas paralisado, frequentemente, em sua criação por uma excessiva autocrítica. Pena que tenha ficado sem escrever, cerca de um ano, em virtude dessa atitude algo castradora de seu mérito já comprovado como poeta. Os poemas que ele me enviou recentemente pelo Correio revelam sua apreensão sensível e exata dos fatos do dia-a-dia, da fluidez de seu mundo interior, num clima entre o romântico e o onírico, em versos, num ritmo que lhe é próprio, que condensam suas emoções, a profundidade de suas sensações, a delicadeza de seu espírito e de suas percepções.”

Hoje à distância dos anos, ao me deparar com meus entulhos literários guardados em um fundo de gaveta, reconheço realmente as palavras de Paulo Azevedo Chaves. Passados tantos anos posso melhor enxergar beleza poética na maioria dos meus escritos juvenis. Sim, há poesia naqueles versos, e de boa qualidade lírica até. Imagens e cenas poéticas que me mostram que a inquietitude que hoje carrego já vinha então de tão antes.

Os anos 80 foram anos efervecentes literariamente falando na cena recifense. Proliferaram, à época, inúmeros jornaizinhos literários e vários foram os poetas daquela safra. Entre tantos convivi com alguns, tais como Eduardo Martins, Chico Espinhara (falecido ano passado), Cida Pedrosa (hoje ainda uma batalhadora pela poesia, editando o site Interpoética cujo link encontra-se ao lado do nosso blog em Sites Associados), Héctor Pellizi, Manoel Constantino, Vernaide Wanderley, Inaldo Cavalcanti e Dione Barreto. Tempo da Livro 7 e dos bares na Sete de Setembro. Tempos de poesia e ousadia.

Assim, debruçando-me sobre meu passado recém-encontrado em pastas de arquivo hibernantemente guardadas em uma gaveta qualquer, republicarei aqui uma parte daquela produção dos anos 80 (que estarei chamando no HUMANAS BLOG de “Poesia: Safra 80”), a grande maioria publicada nas páginas do Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, principalmente no primeiro. E iniciarei com um poema dedicado ao próprio Paulo Azevedo Chaves que, à época tanto me incentivou e ajudou (este poema foi publicado no Diário de Pernambuco na primeira metade da década de 80). Para Paulo com o mesmo carinho e amizade de mais de um quarto de século:

 

O HOMEM SENTADO NO ESCURO
OU UM POEMA PARA PAULO

O homem sentado,
debruçado sobre suas víceras,
medita,
enquanto a tarde e as bananas                   
apodrecem na fruteira
distantes do mar.
Seu rosto entre sombras
lembra um anjo barroco,
desses que habitam velhas igrejas
e suas mãos
– tuas mãos – côncavas,
cheias de carícias inacabadas,
repousam nas pernas
como duas pombas entrelaçadas.
(No escuro uma multidão
de olhos o espreitam,
mas não há gatos nem demônios,
apenas a solidão quieta dos móveis
e uma frenética muriçoca
que voa em círculos
como uma moça
que despenca do trapézio).

 Joaquim Cesário de Mello 

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 19, 2009
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COM AMOR, JOAQUIMVer imagem em tamanho grande

Quisera escrever uma carta
que sei jamais farei
para revelar murmurante
meus segredos mais miúdos.

Confesso
espreito-te pelas frestas do cotidiano
(naquele dia
em outubro passado
sem que sequer desses conta
furtei de ti o olhar de entardecer
com que absortas miravas o céu
como quem cata
naturalmente
anjos).

Até mesmo
nos momentos dos teus banhos
tantas vezes escutei por detrás da porta
o teu adornar de essências e espumas
e invejei
(ah, deus sabe como invejei!)
a água que percorria acariciante
teu corpo como um amante
em abraços tão íntimos
e úmidos que jamais dei.

E assim
vão se tecendo minhas manhãs
sendo feitas meio
um pouco de mulher
e um tanto mais
de muito sonho.

Quisera te escrever esta carta
que sei jamais farei.

Joaquim Cesário de Mello

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