HumanasBlog


APRESENTAÇÃO

Posted in Notícias e Eventos por Joaquim Cesário de Mello em outubro 24, 2009
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Ver imagem em tamanho grande O HUMANASBLOG é um blog criado para propiciar debates, discussões, circulação de idéias/experiências, e com isto ser um espaço crítico e reflexivo sobre assuntos vários pertinentes à questão humana, suas vicissitudes e manifestações, mais precisamente no campo da psicologia, da arte, da história, das idéias, do cinema, da poesia, da literatura e de temas ligados ao ambiente sócio-cultural contemporâneo que nos envolve.

Coordenado, produzido e editado por Joaquim Cesário de Mello  o HUMANASBLOG espera contar com a máxima e ativa participação de seus visitantes, seja comentando, debatendo, sugerindo e discutindo, bem como contribuindo com temas, trabalhos, artigos e materiais vários (vide e-mail para envio abaixo) dentro do espírito do blog que é o de instigar, incitar e estimular o esprírito humano no que ele tem de mais humano que é a sua capacidade inquieta de sempre querer transformar o mundo e a si mesmo.
Deste modo não esperemos, portanto, neste blog entretenimentos, diversões e lazeres, todavia questionamentos, reflexões, produção de idéias, sentimentos, insights… afinal nossa proposta é ter um blog humano, demasiadamente humano.

Boas leituras…

e-mail p/contato: humanasblog@ig.com.br

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CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em agosto 9, 2009
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PEQUENA TRAGÉDIA DIURNA

 

 

Acordo com a rápida sensação de um sonho inacabado. Meu corpo ainda dolente e dolorido conspira preguiçosamente entre fronhas e lençóis desarrumados. Recordo-me ainda que, oniricamente, momentos antes, brincava livre no quintal da casa dos meus pais esquecido de que sou adulto e que tanto minha infância como aquela casa já não existem mais.

Levantar sempre me foi difícil, principalmente às segundas-feiras quando me encontro ressacado do tédio dos domingos. No espelho do banheiro observo um fio de cabelo branco brotar como uma flor em meio ao nada. Tenho de me apressar, pois a pressa me evita pensar e perceber meu corpo cada vez mais impregnado de minutos (agora sei de onde vem esse cheiro forte de maçãs podres). Droga! Minha pasta de dentes acabou e tenho que usar a dela, que me deixa com um gosto estranho na boca.

Da porta a vejo dormindo e envolta em seus sonhos onde, possivelmente, não estou. Deixo-lhe um beijo tosco (ela se vira indiferente a minha angústia matinal) e um bilhete lembrando-lhe para compra minha pasta de dentes. Depois, sacio meu incipiente apetite entre ovo, bolachas, café e manchetes de jornal. Logo cedo já tomo conhecimento que o preço da vida aumentou e as coisas não estão fáceis no Líbano. Ora bolas, que se dane o Líbano, afinal ele está tão distante – é apenas uma seqüência de imagens na TV – e a dor do vizinho não é maior que a minha.

Parto, sem sequer saber se volto, levando comigo lembranças e desejos, e aquele mesmo vazio trespassado nas costelas. Carrego meus minutos e os inchaços de minhas tantas perdas, e na boca este sabor diverso que não é o meu. Agora estou nas ruas representando pros outros que sou feliz…

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em julho 25, 2009
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MARIA NÃO DORME MAIS AQUI


“Já vou. Até manhã”, despediu-se fechando a porta a empregada a quem denominava, por vergonha ou desprezo, de “minha secretária”.

Como que em torpor, sequer lhe dirigiu um resmungo de volta, talvez nem notasse que somente sobrara ela naquela casa carpintada de silêncios. Como antes estava, permaneceu debruçada sobre si mesma já havia bom tempo. Dispersa de atenções ou olhares, mal percebia o enegrecimento que aumentava à medida em que a tarde se esvaia, acariciando-lhe a silhueta magra com a sutileza de um reprimido amante que se vai sem dizer adeus, levando consigo impronunciáveis paixões inexprimíveis. Jamais este dia moribundo retornaria aos seus parcos afazeres domésticos, muito embora o tédio fosse seu único e último resquício de imortalidade. Quando amanhã o amanhã vier, com ele novamente Maria, retirar-se-á de seus internos abismos para repetir movimentos e atos por entre portas e vãos, como se a existência toda fosse uma gigantesca casa por onde perambulam as horas – estas ilusórias marcações de nossas repentinas passagens. Não é ela, pois, quem cresce, é a casa que diminui, a tal ponto e maneira que chegará o instante em que não haverá mais lugar a se habitar ou se guardar. Findar é se desabrigar dos tetos e das certezas.

Gostava de invernos. Abraçava, com a quentura maternal de uma mãe que nunca fora, o frio que lhe era agora companhia. Lá fora as pessoas corriam irrequietas, batendo umas nas outras, evitando a chuva intermitente e as poças d’água escurecidas de barros e asfalto; de sua janela por sobre a cidade pareciam formigas agitadas flutuando desesperadas pelas calçadas em busca de inúteis salvações. Os homens externos navegam sem leme, cogitava lembrando-se das remotas brincadeiras infantis, quando afogava formigueiros com suas coloridas bisnagas de carnaval (o perigo às formigas são as crianças solitárias e suas impiedosas vinganças lúdicas). Quantas culpas ainda lhe restariam a assombrar o sono, despertando madrugadas? O mundo lhe era então também uma imensa bola molhada que começava a partir da janela de sua sala – se acaso estirasse o braço à rua recolheria a mão vazia, banhada de líquidos e ninguéns. Subitamente incomodou-lhe a transitória idéia de ser a última formiga, sobrevivendo aos jogos sádicos de alguma outra criança, bem maior e mais solitária do que ela.

Ocupava-se de distrações e cigarros, enquanto a primeira chuva de inverno umedecia o vidro e a alma. Recolhida que nem um pássaro à tranqüilidade de sua gaiola, observava silente os soluços da casa e a agonia dos insetos morredores. Em outras épocas e estações correria de imediato à televisão ou rádio a invadir-se de sons e barulhos alheios, porém, hoje, em que a noite inteira se encharcava, seu interior era duas vezes e um pouco mais profundo que o tamanho do universo. Em algum lugar que não ali, uma folha caía e declinava do céu para logo ser pisada na indiferença dos passos apressados. Quando já não mais chovesse, e é certo que um dia haveria de se fazer quenturas e claridades, limpariam-se as ruas e levariam seu amassado corpo seco de seiva e a vida continuaria seu ciclo e um galo cantaria.

A iminente coriza lhe escorria do nariz à boca, anunciando os inevitáveis resfriados invernais. Sempre sensível às mudanças e oscilações, aguardava a gripe e seus remédios com a mesma complascência de quando esperava o mar lhe devolver a tiara perdida nos mergulhos afoitos de sua meninice, a mesma tiara que fora o penúltimo presente de seu pai, dado antes dele partir para nunca mais voltar, como aquela tarde cinza em que estava distraída de si à saída de Maria, (atrás dos morros dos horizontes do quarto da empregada sepultam-se as tardes em avermelhados cemitérios de por-de-sol). Anos depois recebera dele um cartão postal, última lembrança e notícia de seu paradeiro e de seu rupturo amor – crescera assim, na casa em que encolhia, farta dos homens e de seus prematuros abortos afetivos. De cedo, jurada não sofrer abandonos, cumpriu por completo sua promessa, cercando-se de móveis e objetos. As coisas, por não sentirem faltas, não buscam outras coisas, elas são fiéis a seus donos, não vão nem morrem jamais, no máximo, somente, se quebram ou se inutilizam.

O quarto da empregada não era amplo nem vasto, mal cabendo guardar todos seus inusados pertences. Os cacarecos e as quinquilharias de décadas amontoavam-se uns sobre os outros, emparelhadas e empacotadas com severa ordem e zelo. Cada pacote e cada reservado canto representava um ano, como se construísse organizadamente uma biografia de objetos, onde a história hibernava, empilhada e datada, anônima, por dentro de antigas caixas de papelão. Do seu passado apenas algo não encontrava guarida nos invisitados arquivos de si: o cartão postal, impecavelmente conservado em envelope de plástico transparente. Precisava dele e da força do ódio que tanto lhe suscitava. De tempos em tempos, perguntava-se se seu fugitivo pai lhe havia dado irmãos, e se assim o tivesse feito quem os seriam? O homem da padaria? A lojista do shopping? O motorista do taxi? O caixa do banco? A atendente do consultório? A mulher da casa ao lado? O transeunte que corre protegendo-se da chuva?… Qualquer um e nenhum poderia ser. As relações humanas lhe eram potencialmente fraternas e conhecer tinha sempre um leve sabor de incesto.

Inúmeros são seus irmãos, indefinidos rostos e ofícios, a eles não legaria seu espólio de caixas. Sem herdeiros ou descendentes, restaria, após, somente Maria e os comerciantes dos mercados de sucata. Breve mais um ano se encerraria, mais uma caixa se fecharia. Sua idade tem o peso dos objetos e o tamanho dos espaços que ocupam, desalojando Maria e suas pequenas mudas de roupa. Nas raras vezes em que lhe dirigia o olhar, sem a exigência do cumprimento dos mandos, não entendia como aquela triste mulher, cujas mãos calejadas de vida e a face camuflada de rugas, mais velha e mais sofrida do que ela, pudesse arrastar consigo miúda trouxa de tão poucas propriedades. Era como se a juventude fosse uma questão de menos quantidade. Por isso achava que deixaria a Maria o quarto que a esta nunca pertencera e o fantasma de si mesma, assombrando aranhas e baratas, a principiar das coisas que sobreviveram.

Uma noite pode ser longa quando dela nada se espera, porém a interminabilidade do momento tem o instante de seu término. Os iniciantes raios de sol despontam como lâminas rasgantes por entre nuvens esvaziadas de chuva. O mormaço que se prenuncia logo exalará o cheiro nauseante dos esgotos entupidos e as águas empoçadas, ao contrário das folhas, retornarão aos céus levando a escuridão que se foi, (quando outra vez se fizer tempestades, choverão noites sobre a cidade). As pálpebras areiam-se de sono. Não é hora de dormir, pensa, e sim de acordar. O ruído da maçaneta da porta que se abre a faz lembrar, e pede como quem ordena antes que se dê bom dia: “Maria me vê um chá de alho e o xarope que está em cima da geladeira”.

Joaquim Cesário de Mello

CRÔNICA

Posted in Crônicas Literárias por Joaquim Cesário de Mello em julho 6, 2009
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BOA NOITE, MAMÃE

 

 

“Boa noite, durma bem”. Era com essas brandas breves palavras que sua mãe encerrava o dia, como em todos os dias, apagando a luz e encostando com leveza a porta do quarto. O menino em sua perplexa mudez não lhe dirigia de volta respostas, pois ela não fazia perguntas, apenas assinalava com enérgica determinação o exato momento em que fechava os espaços, trancafiando-o isolado em sua costumeira solidão noturna. Era uma frase terrível aquela que sempre antecedia anunciante o horror que logo se seguia ao surgimento das horas sem brilho, tão sombrias e tenebrosas quanto a métrica parte que lhe cabia na casa adormecida dos rumores diurnos. Prometera-se, à boca calada, que quando filho tivesse jamais a ele a pronunciaria, na ânsia dos pais em cedo amadurecerem os filhos, muito embora, quando estes chegarem ao tempo de visitarem outros leitos, persistisse – em seus agora chamados velhos – o indocicado sabor das recordações encobridoras das vacâncias dos quartos ao lado. O gosto das reminiscências é o vestígio ainda não apagado das coisas passageiras, enquanto a nossa natureza pelas permanências aprimora a fatalidade dos desgostos, afinal o que em nós continua é somente o que foi instituído pelos caprichos da memória. A ausência é a essência das lembranças.

Porém, à época em que o menino ainda idealizava filhos vindouros, como quem aguarda em tocaia sonhos aos quais entregasse por inteiro seu espírito e suas inquietudes aos embalos incoerentes dos devaneios substitutos da vigília, soterrava o desejo pela ida à cama dos pais embaixo de toneladas de medo. Logo este afeto primitivo, com o qual viemos à vida, que em seu impensado peso nos fixa ao chão do instante como as profundas raízes das estátuas públicas de mármore. Por mais que a realidade e seus breus lhe assustassem o peito onde arfava palpitante o ímpeto de se apaziguar em meio aos seus, era maior o temor de se aproximar da cama de casal que a ele era imensa e sólida, ornamentada em robusta madeira maciça de lei, lugar que, com certeza, pensava, suportaria abrigar todas as crianças do mundo e o peso de seus sustos. Assim, por receio que lhe impedissem o assentamento junto aos corpos alheios (de expulsão já bastava o útero), trocava as hesitações e as rejeições pré-maturas pelas assombrações habitantes do quarto escuro. O assobio das brisas invernais e o esvoaçar sobressaltante das cortinas bailantes frente a entreabertura das janelas, acenavam fantasmas de sombras e gemidos, que nem o vedar das pálpebras evitaria – o negrume sombrio do quarto muitas vezes era preferível à escuridão sem cor dos olhos fechados. Na rua, cachorros uivavam sentimentos inumanos enquanto o menino em sua cama escutava ruídos de menino.

Longos são os anos que separam o menino do adulto. Não mais existem os pavores infantis, abandonados naquele quarto onde hoje possivelmente dorme algum outro menino. Sequer restou a cama de casal proibida e seus residentes. Por que haveria ele de temer agora ilusórios espectros noturnais se os fantasmas de suas perdas perambulam até mesmo à luz do sol? O menino formado homem sabe que a substância do medo é perene e dela é feita a solidão, o que muda é a sua aparência e a sua superficial presença. Talvez por isso os mortos virem assombrações: quando pequenos, tememos a invisibilidade das trevas e a cegueira da escuridade, esvanecidos reaparecemos indefinidos para sermos vistos, pois morrer não é perder vida, é desaparecer, e o exercício da eternidade bem pode ser o de espantar o sono das crianças, nesses tempos desérticos em que a saudade ocupa o vazio deixado no rastro da sonoridade impronunciável de um simples breve “boa noite”.

Joaquim Cesário de Mello