HumanasBlog


APRESENTAÇÃO

Posted in Notícias e Eventos por Joaquim Cesário de Mello em outubro 24, 2009
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Ver imagem em tamanho grande O HUMANASBLOG é um blog criado para propiciar debates, discussões, circulação de idéias/experiências, e com isto ser um espaço crítico e reflexivo sobre assuntos vários pertinentes à questão humana, suas vicissitudes e manifestações, mais precisamente no campo da psicologia, da arte, da história, das idéias, do cinema, da poesia, da literatura e de temas ligados ao ambiente sócio-cultural contemporâneo que nos envolve.

Coordenado, produzido e editado por Joaquim Cesário de Mello  o HUMANASBLOG espera contar com a máxima e ativa participação de seus visitantes, seja comentando, debatendo, sugerindo e discutindo, bem como contribuindo com temas, trabalhos, artigos e materiais vários (vide e-mail para envio abaixo) dentro do espírito do blog que é o de instigar, incitar e estimular o esprírito humano no que ele tem de mais humano que é a sua capacidade inquieta de sempre querer transformar o mundo e a si mesmo.
Deste modo não esperemos, portanto, neste blog entretenimentos, diversões e lazeres, todavia questionamentos, reflexões, produção de idéias, sentimentos, insights… afinal nossa proposta é ter um blog humano, demasiadamente humano.

Boas leituras…

e-mail p/contato: humanasblog@ig.com.br

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POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 23, 2009
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POR DETRÁS DOS VIDROS


Penso-me protegido
por detrás das vidraças de minhas janelas
aqui onde ventos não me assanham cabelos
nem o frio das ruas me arrepiam a pele.

Como se nada me atingisse
vou-me iludindo de infinitudes
e são tantos e tantos os intermináveis dias
que haverei um dia ou de romper
os limites quebradiços dos meus espelhos
ou sucumbir sufocado de infância e eternidade.

Engordo-me em armaduras de cristal
sem saciar nenhuma fome ou sede
e enorme vou ficando de tão cheio
das imensidões das lembranças inapagáveis.

Como quisera por um breve instante
passageiro e repentino até
poder deixar de ser eu e minhas inquietudes
e respirar sem o abafado cansante das interioridades.

Gostaria assim liberto de mim
dissolver-me líquido e lento
como esta furtiva lágrima
que me escorre a face e ninguém vê
nem mesmo a mulher que me dorme ao lado.

Joaquim Cesário de Mello

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 15, 2009
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POEMA PARA UMA MULHER

Aproximo-me dos teus futuros anos
com sonhos de pai consumado
e lá adiante naquele instante
em que hoje for antigamente
não haverei jamais de esquecer
das tuas agora recentes queixas
no demandar dos gestos e afetos
que involuntariamente te soneguei.

Não é porque te encolho o abraço
que já não te abraçe tanto assim
pois embora haja a distância das mãos
são meus olhos que te tocam
diariamente
toda vez que te vejo ali
crescida, miúda e bela
onde meus desejos se transformaram
simplesmente em ti.

Quando eu tiver então a tua idade
te amarei com mais jovialidade do que agora,
filha.

Feliz aniversário
Feliz 25 anos de vida
14/08/2009

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em agosto 14, 2009
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Este poema abaixo, lírico e singelo, como singela e lírica pode ser a alma humana, é da poeta (ou poetisa, como diriam os mais antigos) Tereza Reis, que é também uma agradável amiga e companheira do dia-a-dia quase absurdo do cotidiano desumanizado ou desumanizante em que eu e ela e os demais nos encontramos de segunda à sexta, diariamente. Tereza é uma mulher aparentemente acanhada e tímida, mas que nos revela sua outra face, mais escondida e contida por detrás da máscara que ela edificou pra si, talvez – quem sabe?- para se proteger do mundo hostil e perigoso que muitas vezes parece nos ameaçar e tolher.

Espero, sinceramente, Tereza, que você possa nos presentear mais com sua verve e talento, e com esta Tereza que só os seus mais próximos e queridos podem ter a oportunidade de conhecer melhor, mas que você nos revela um pouco aqui em seus versos.

Com vocês a poesia de Tereza Reis e o início de uma poeta ao mundo:

 

 

“Quero de volta o amor que nunca tive…
A acolhedora cumplicidade que transforma cada simples olhar
Numa troca muda de palavras,
                                   Ou num doce acariciar.
Quero de volta a primavera em pleno outono,
Onde o cair de folhas significam o nascer de flores perfumadas.
Quero o arco-íris rasgando o meu céu em plena noite estrelada
                                    E a lua encontrando-se com o sol ao raiar do dia.
Quero ouvir pássaros cantando maviosos entre os mais altos galhos das árvores
                                   Que sombreiam o bosque.
Quero ser a queda d’água…
Altiva…
Imperiosa…
A aniquilar-se nas pedras para então, placidamente,
Ser o leito de um rio.
Quero no coração a chama da esperança;
Nos lábios, o riso frouxo de criança,
Nos olhos, o brilho da paz do universo.
Quero de volta o amor que nunca tive…
                                   Para transformar versos tristes numa leve poesia.”

Tereza Reis

A POESIA DE MARIO BENEDETTI

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em agosto 8, 2009
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Antes de falarmos um pouco sobre o poeta Mario Benedetti, iniciemos com este belo exemplar da mais pura poesia, singela e profunda, porém sem barroquismos ou eruditismo exicibicionista. Assim, antes do poeta, seu poema:

AMOR DE TARDE


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Mario Benedetti, poeta e escritor uruguaio, recém falecido em 17/05/2009, foi uma das mais expressivas e importantes vozes da literatura uruguaia e latino-americana. O conjunto de sua obra é amplo e denso, e vai desde a poesia, o conto e o romance, passando pelo ensaio e até por roteiros de cinema. Foram dezenas de livros publicados, entre eles “Poemas de Oficina”, “Esta Manhã e Outros Contos” e “Gracias Por el Fuego”.

Como bem diz José Saramago, Mario Benedetti foi um poeta que “soube fazer-nos viver os nossos momentos mais íntimos e nossas raivas menos ocultas”, afinal é através da poesia que podemos melhor adentrar as interioridades da alma humana, a nossa alma humana. E Mario Benedettti é como uma espécie de guia a nos guiar na imensidão abissal das profundezas do ser e do seu existir. A sutileza com que o poeta lida e maneja com as palavras e o criar atmosférico de suas imagens faz dele um poeta de referência para todos aqueles que apreciam não somente a literatura como um todo, mas principalmente para todos aqueles que se interessam pela subjetividade dos mínimos gestos e de suas ausências. Com vocês outros poemas de Benedetti e a leveza de seus versos que, embora nos invadam suaves à alma nos oferecem e nos tocam lá dentro naquilo que convencionamos chamar de “angústia existencial”.

ROSTO DE TI

Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.

Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor.

Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti.

Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição

Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti.

Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada.

As paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada.

Já meu rosto de ti
fecha os olhos.

E é uma solidão
tão desolada.

ONTEM

Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.

Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.

Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza

Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.

YEATS: um poeta irlandês e universal

Posted in Memória Cultural por Joaquim Cesário de Mello em julho 9, 2009
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Pensava em postar um pouco na categoria O Mundo e as Letras sobre a poesia  irlandesa, mas quando me deparei novamente com a obra poética deste que possivelmente é o maior e mais significativo poeta irlandês, William Butler Yeats, vi que cabia ao mesmo um espaço maior aqui no HUMANASBLOG, afinal Yeats transcede à literatura irlandesa e é, sem sombra de qualquer dúvida, considerado um dos maiores poetas do século XX.

Yeats nasceu 1865, na cidade de Dublin na Irlanda. Não apenas poeta,      mas também dramaturgo, foi laureado com o Prêmio Nobel e Literatura em 1923. Sua poesia tem marcante raízes no folclore irlandês, assim como é bastante impregnada pelo misticismo. Sua obra, em geral, é também influenciada pela mitologia celta, tendo tido sua inspirada e inspiradora produção artística um papel fundamental no chamado renascimento irlandês. Ativista político, Yeats chegou a ser inclusive senador.

Sua extensa e significativa obra é composta, entre outros, de: Crossways, The Rose, The Tower, In The Seven Woods, New Poems, Last Poems e The Secret Rose.

Apreciemos, então, de seu lirismo poético, de sua verve e de sua estética formal. Com vocês, W.B. YEATS:

QUANDO FORES VELHA


Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

A ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.
Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.
Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

VERSOS ESCRITOS EM DESALENTO

Quando é que eu vi pela última vez
Os olhos verdes redondos e os corpos longos vacilantes
Dos leopardos escuros da lua?
Todas as bruxas selvagens, aquelas senhoras muito nobres,
Por todas as suas vassouras e as suas lágrimas,
Suas lágrimas de raiva, fugiram.
Os santos centauros das colinas desapareceram;
Não tenho nada para além do amargado sol;
Banida mãe lua heróica e desaparecida,
E agora que cheguei aos cinquenta anos
Tenho que aguentar o tímido sol.

POEMAS ARGENTINOS

Posted in O mundo e as Letras por Joaquim Cesário de Mello em julho 7, 2009
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Nem só vive a literatura argentina, e mais precisamente a poesia argentina, de Jorge Luis Borges ou Julio Cortázar. Nossos “hermanos” têm uma forte formação literária e sua poesia é envolvente e cativante. Vamos agora dedicar um pequeno espaço (mais adiante, quem sabe, haverá outros) à poesia argentina. E assim começaremos com o poeta Juan Gelman.

Gelman é considerado não somente um dos grandes poetas argentinos, mas também um dos principais nomes vivos da poesia de língua espanhola. A vida do poeta foi marcada por momentos trágicos vividos na época da ditadura militar nos sangrentos anos 70, quando tanto seu filho quanto sua nora foram sequestrados. Somente em 1989 Gelman pode encontrar os restos mortais de seu filho (os restos mortais de sua nora ainda não foram localizados), bem como pode conhecer sua neta (nascida no cárcere) quando esta já tinha mais de 20 anos de idade. O poema que transcrevemos abaixo (parte do livro Isso) foi escrito no período em que o poeta se encontrava exilado (1983/84), no qual podemos sentir, mesmo que de longe, a angústia e a dor que vivenciava o autor então. Com vocês, Gelman, um poeta várias vezes premiado com inúmeros prêmios de relevo internacional, tais como “Prémio Ibero-Americano de Poesia Pablo Neruda”, “Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana” e o “Prémio Miguel de Cervantes 2007”, entre outros.

CHUVA

hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra/
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta se entra em muitos lugares/
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/nem na alma/
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/que chove muito/
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e somente a alma sabe onde os dois se encontram/
e quando/e como/
mas o que pode a alma explicar?/
por isso meu vizinho tem tormentas na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem
e morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/
à chuva/
ao meu coração desterrado/

(Juan Gelman)

Outra poeta de relevo é Alejandra Pizardik, filha de imigrantes russos, nascida em Buenos Aires em 1936. Poeta notívaga, tem a noite como seu tema central e seu pano de fundo poético, assim como a solidão. Depressiva, suicidou-se em ainda jovem aos 36 anos de idade. Julio Cortázar dedica-lhe um belo e longo poema que sugiro o leitor conhecê-lo (acesse: ttp://www.geocities.com/juliocortazar_arg/alejandra.htm). Vamos ler, pois, Alejandra:

____________________

A JAULA

Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.

( Alejandra Pizarnik)

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Outros poetas:

RARO UNIVERSO ONDE
um poema reescreve em
seu homem
apenas uma letra
antes de morrer

( Jorge Ariel Madrazo)

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EFEITO DAS TARDES

É mentira que andas caminhando pelo mundo

porque depois de haver-te bebido

em grandes tragos

te comi em pedacinhos

O que resta de ti movendo-se nas ruas

em realidade é uma sombra

tão somente um holograma.

(Horacio Salas)

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Jorge Luis Borges e Julio Cortazar, perdoem-me, mas fica pra outro futuro e breve post.

Vejam (leiam) mais em: http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/argentina/anrgentina.html

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009
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DORMEZ-VOUS…

 

Quando eu estiver velho
velho de não mais voltar
quero ouvir a voz de minha mãe
cantando cantigas em francês
cantigas pra mim ninar.

Quando meus retratos
forem mais desusados do que eu
e de minhas mãos murchadas
não mais brotarem versos como estes
quero o rosto de minha mãe
a me olhar cuidante
no infinito velar do sono final.

Quando nada mais restar
amigos, mulher nem filhos
quero a maciez do colo de minha mãe
na paisagem distante de uma praia deserta
sossegada, serena e calma
ali por onde o tempo não passa
e lá onde vou então poder de vez
virar areia.

Quando estiver velho
velho mas velho mesmo
quero de novo minha mãe
cantando cantigas em francês
cantigas pra mim ninar.

Joaquim Cesário de Mello

POESIA: SAFRA 80

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 26, 2009
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Egon Schiele

Recentemente, a respeito do HUMANASBLOG, a amiga Talita Creder comenta quase indagando-me que não sabia que eu escrevia poesia. Respondi-lhe acanhadamente que eu era poeta no início dos anos 80 (ainda senti em mim resquícios de uma severa autocrítica mutiladora que sempre me acompanhou nessas horas de me reconhecer poeta. Talvez tenha a ver com meu pai, poeta e escritor falecido quando eu tinha tão somente 10 anos de idade). Pois é, lá estava eu como que lutando comigo mesmo quando me intitulava timidamente de poeta. Esta mesma censura superegóica foi naquele tempo (nos idos dos anos 80) detectada pelo jornalista, escritor e crítico de arte Paulo Azevedo Chaves (por onde andará Paulo?) quando escreveu ele: “Joaquim Cesário de Mello é um poeta de talento, mas paralisado, frequentemente, em sua criação por uma excessiva autocrítica. Pena que tenha ficado sem escrever, cerca de um ano, em virtude dessa atitude algo castradora de seu mérito já comprovado como poeta. Os poemas que ele me enviou recentemente pelo Correio revelam sua apreensão sensível e exata dos fatos do dia-a-dia, da fluidez de seu mundo interior, num clima entre o romântico e o onírico, em versos, num ritmo que lhe é próprio, que condensam suas emoções, a profundidade de suas sensações, a delicadeza de seu espírito e de suas percepções.”

Hoje à distância dos anos, ao me deparar com meus entulhos literários guardados em um fundo de gaveta, reconheço realmente as palavras de Paulo Azevedo Chaves. Passados tantos anos posso melhor enxergar beleza poética na maioria dos meus escritos juvenis. Sim, há poesia naqueles versos, e de boa qualidade lírica até. Imagens e cenas poéticas que me mostram que a inquietitude que hoje carrego já vinha então de tão antes.

Os anos 80 foram anos efervecentes literariamente falando na cena recifense. Proliferaram, à época, inúmeros jornaizinhos literários e vários foram os poetas daquela safra. Entre tantos convivi com alguns, tais como Eduardo Martins, Chico Espinhara (falecido ano passado), Cida Pedrosa (hoje ainda uma batalhadora pela poesia, editando o site Interpoética cujo link encontra-se ao lado do nosso blog em Sites Associados), Héctor Pellizi, Manoel Constantino, Vernaide Wanderley, Inaldo Cavalcanti e Dione Barreto. Tempo da Livro 7 e dos bares na Sete de Setembro. Tempos de poesia e ousadia.

Assim, debruçando-me sobre meu passado recém-encontrado em pastas de arquivo hibernantemente guardadas em uma gaveta qualquer, republicarei aqui uma parte daquela produção dos anos 80 (que estarei chamando no HUMANAS BLOG de “Poesia: Safra 80”), a grande maioria publicada nas páginas do Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, principalmente no primeiro. E iniciarei com um poema dedicado ao próprio Paulo Azevedo Chaves que, à época tanto me incentivou e ajudou (este poema foi publicado no Diário de Pernambuco na primeira metade da década de 80). Para Paulo com o mesmo carinho e amizade de mais de um quarto de século:

 

O HOMEM SENTADO NO ESCURO
OU UM POEMA PARA PAULO

O homem sentado,
debruçado sobre suas víceras,
medita,
enquanto a tarde e as bananas                   
apodrecem na fruteira
distantes do mar.
Seu rosto entre sombras
lembra um anjo barroco,
desses que habitam velhas igrejas
e suas mãos
– tuas mãos – côncavas,
cheias de carícias inacabadas,
repousam nas pernas
como duas pombas entrelaçadas.
(No escuro uma multidão
de olhos o espreitam,
mas não há gatos nem demônios,
apenas a solidão quieta dos móveis
e uma frenética muriçoca
que voa em círculos
como uma moça
que despenca do trapézio).

 Joaquim Cesário de Mello 

POESIA

Posted in Poesia & Arte por Joaquim Cesário de Mello em junho 19, 2009
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COM AMOR, JOAQUIMVer imagem em tamanho grande

Quisera escrever uma carta
que sei jamais farei
para revelar murmurante
meus segredos mais miúdos.

Confesso
espreito-te pelas frestas do cotidiano
(naquele dia
em outubro passado
sem que sequer desses conta
furtei de ti o olhar de entardecer
com que absortas miravas o céu
como quem cata
naturalmente
anjos).

Até mesmo
nos momentos dos teus banhos
tantas vezes escutei por detrás da porta
o teu adornar de essências e espumas
e invejei
(ah, deus sabe como invejei!)
a água que percorria acariciante
teu corpo como um amante
em abraços tão íntimos
e úmidos que jamais dei.

E assim
vão se tecendo minhas manhãs
sendo feitas meio
um pouco de mulher
e um tanto mais
de muito sonho.

Quisera te escrever esta carta
que sei jamais farei.

Joaquim Cesário de Mello

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